9 de junho de 2006
sem título ou quase
esta palavra
que repito
ao expoente do silêncio
é só um carinho
este doce encanto
como a luz incidindo
nas flores
do nosso amor
5 de junho de 2006
amor com fado
Por que voltas de que lei
Vem este sentir profundo
Por te saber como sei
Me sinto dona do mundo
Por que espada de que rei
Meu amor é fogo posto
És tanto de quanto amei
Que és tudo de quanto gosto
Por este amor que te tenho
Por ser assim como sou
És inferno donde venho
És o céu para onde vou
Por que voltas de que lei
És tudo de quanto gosto
Me perdi e me encontrei
Nas voltas que tem teu rosto
Por que voltas de que rei
Em meu peito teu desenho
És tanto de quanto amei
Que és todo o mundo que tenho
E de tão rica que estou
Nunca tão pobre fiquei
Por ser assim como sou
E te saber como sei
portas do temp(l)o - com eliot porter
se houver uma porta de passagem
nesta vida
que seja o teu abraço
onde o carinho se protege
e abre as suas asas
4 de junho de 2006
(recado) com cartier bresson
acabei de sair de casa
levei a bicicleta dos sonhos
(para voar sobre as ruas)
e se chegar com o coração apressado
não será da corrida
será do beijo que me prometeste
dar
versos com brassaï
eu vejo as mãos entrelaçadas
os afectos entretecidos
na respiração do abraço
versos com eliot porter
a resplandecente forma dos sonhos
passando como um curso de água
rasgando pelo meio a respiração do outono
uma luz que traz o peso do céu
a alma dos anjos presa (ainda) ao espírito da manhã
uma luz que sabe o instante em que vivemos
o instante em que abrimos as mãos
à dadiva dos nossos sentidos
e percebemos como tudo é tão belo
quanto mais soubermos escutar
as primeiras coisas (ou uma simples
fotografia do mundo)
do afecto das palavras
afectos enchendo de água o coração das palavras
tenho os afectos atados à inviolável sede das palavras
porque quero dizer (preciso dizer) que te amo
com cartier bresson (parte 1)
o amor despe-se nas esplanadas
e sente o ar fresco das pessoas que passam
1 de junho de 2006
detalhe
preso às asas da borboleta
para ser livre e leve como ela
bordado no tecido do tempo
para ser eterno
31 de maio de 2006
no chevrolet a caminho de...
vai meu pai com o sorriso de quem comanda o mundo
e as rodas pesadas do tempo confirmam a ternura
com que se guiam todos os pensamentos
29 de maio de 2006
o beijo de gustav klimt
deste beijo?
a alada sede de ser feliz
e viver a vida num só instante
como qualquer beijo
na primeira vez que adoça o coração
na primeira vez que abre o caminho
para o amor deixar de ser uma palavra
e desatar a água com que as mãos
hão-de tecer o tempo do carinho
28 de maio de 2006
versos com chagall (parte 3)
se encontrarmos o nosso lugar
dentro do nosso sonho
as nossas palavras não serão precisas
nem os nossos silêncios
nem as nossas portas entreabertas
tudo o que ataremos em nossas mãos
serão as pinceladas felizes do amor
(o amor que nem tem que ser doce
como os frutos sobrevivendo ao fim do verão)
encantamento vesperal
primeiro que nós
o tempo (na sua casa mágica)
marcaria com tons de azul
os primeiros sonhos
os contornos tirados ao mar do desejo
26 de maio de 2006
episódios com van gogh (parte 3)
onde van gogh pinta (ainda)
os nossos liláses
ao passar pela sua desatenção
dir-lhe-emos
como ficava bem (se ficava)
nunca acabar o quadro
episódios com van gogh (parte 2)
todo o mundo não é mais
que este mar redondo
nesta casa (defronte à janela do meu quarto)
faz falta uma amendoeira
pondo embarcações (floridas)
no azul profundo
episódios com van gogh (parte 1)
no coração da casa
esses girassois é que sabem
o sentido exacto da luz
e entre o fim da tarde e a manhã
são eles que entrelaçam
as sombras que ficam por dizer
abraço para o internauta desconhecido
agradeço a todos
a visita a este versário
25 de maio de 2006
24 de maio de 2006
23 de maio de 2006
à tua espera
as cadeiras que nos esperam
ao fim da tarde
e essa luz vai oscilando
entretanto
(chegaremos a tempo?)
22 de maio de 2006
COM O PESO DO MUNDO
posso eu bem
às vezes dou por mim
e trago a primavera aos ombros
as asas todas dos dias amanhecentes
as cores de todas as coisas
que se ama
difícil é carregar as plumas
da tristeza (de um ou outro
silêncio sem sentido)
floral granito
dentro do seu coração
bordando tão docemente
as heras da vida
como nós:
num olhar atento
a um detalhe de pedra
18 de maio de 2006
dupla fechadura
entre duas casas que ainda há pouco
comunicavam pela mesma sala
sou eu essa fechadura que parou para pensar
se abre ou fecha a boca das palavras
se ata ou desata a chave do coração
sou eu esse movimento que oscila no vazio do silêncio
nem rangendo sequer o tempo preso às dobradiças
de todos os gestos que já tecemos juntos
17 de maio de 2006
água mínima
nascente
refulgente das primeiras palavras
da manhã
sobre a pele mais delicada
da natureza:
o orvalho (palavra demasiado pesada
para essa delicadeza)
16 de maio de 2006
15 de maio de 2006
4 de maio de 2006
24 de abril de 2006
23 de abril de 2006
a fé das sombras
deste mundo
haverá a orla intocável de deus
anunciando a presença
do infinito
a eternidade devolvida aos homens
ou a fé entrecortada
na oração do tempo
luz divina (altar em bravães)
a luz da manhã
cortando a rosácea do tempo
e manchando de paz
o linho do altar
para beber um carinho
para saciarmos a nossa sede
pelas nossas mãos tomaremos
o rosto da fonte
e nesse instante o carinho
que desconhecíamos
há-de entrar em nossas bocas
para a norma e para o nélson
transparência do tempo
é composto de transparências
tecidos que se sobrepõem
ao nada que somos
escrita
na pele do tempo
inscrito nos poros
da pedra que nos vigia
o envelhecer das mãos
luz oscilante (mosteiro de bravães)
há-de oscilar
na contradança da luz
no interior do coração do silêncio
como uma lamparina
de sonhos
soprando a forma das asas
dos anjos que virão
mostrar o rosto de deus
16 de abril de 2006
gato que dorme na rua
vendo a tarde girar sobre si
tudo lhe passa tão levemente
que nem uma palavra
rasgada de uma pedra
o assusta
é por isso que é feliz e há poetas
que falam disso
viola esperando
na oficina do violeiro
esperando a sua vez
para ganhar asas
e soprar música de dentro de mim
preciso das tuas mãos
6 de abril de 2006
reflexágua
parece a mão
com a alma resplandecente da poesia
acenando ao silêncio
5 de abril de 2006
reflexo
deixando no vidro o seu rosto
onde repousa agora a minha viagem
30 de março de 2006
o itinerário oscilante dos pássaros em seu silvo branco
na torrente da sombra sentimos a infelicidade do silêncio
a pele encarcerada das pedras a resistência do tempo
transcorremos as searas até à desmesura da infância
recolhemos a eternidade uma colina para atar a paz
as palavras submersas na cintilação do esquecimento
no teu rosto o vago rumor da tristeza inicia uma flor
um canal pacífico para a delicadeza do firmamento
como se as asas do inverno perdessem a corrente
e houvesse uma hora para chamar de novo o amor
podemos purificar a errância da sede a cor do olhar
trazer uma sílaba de luz à coleante brevidade da vida
e só temos que nos abraçar deixar o coração morrer
para escutarmos a primeiríssima constelação da noite
um poema de "o afecto das palavras"
26 de março de 2006
22 de março de 2006
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade, para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com os teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.
Sophia de Mello Breyner Andresen
21 de março de 2006
17 de março de 2006
título sem título
prende-me às palavras
com que respiras a altura do dia
deixa-me ficar rente às tuas asas
enquanto esperas por mim

















































