27 de outubro de 2007




COMO UM POEMA QUE LEMBRASSE MIGUEL TORGA E O ATRAVESSASSE À DISTÂNCIA DE UMA MONTANHA PROFUNDA


o homem tem as mesmas raízes de deus
como se fosse a mesma árvore
que sustenta o céu

o homem vai no mesmo caminho que o seu cão
e leva na sua mão o pedaço de pão
que há-de enganar a fome aos dois

o homem sabe a palavra com que a pedra
escuta os quatro lados do vento
e a pedra sabe a palavra com que o homem
fia o silêncio das constelações pesadas da noite

o homem é o poeta e é o profundo destino do vazio
tem no seu coração a última flor do mundo
e na sua boca apenas outro grito

o homem quis revelar o mistério íntimo da vida
e fê-lo com todas as coisas que o protegeram da morte
todas as coisas que a terra soube dar
como uma bênção que um anjo esqueça propositadamente
no altar da respiração da manhã



daniel gonçalves

22 de outubro de 2007





palavras para a apresentação do livro "dez anos de solidão" em santa maria


esta ilha é uma ilha de solidão mas não é a ilha da solidão
esta ilha é uma ilha de solidão quando olha o mar em sua volta
quando se fecha para dormir sobre a eternidade
quando se leva para fora no silêncio adocicado de quem parte

esta ilha é uma ilha de solidão porque queremos que assim seja
porque se ela pudesse abraçava-nos
pegava em nós e dava-nos o seu pico mais alto para morarmos
e vermos que o mundo em volta é que é pequeno

esta ilha é uma ilha de solidão e gosto dela assim
quando me dá todo este tempo para reviver
quando me aproxima as coisas mais pequenas desta boca que tem tanta sede

esta ilha é uma ilha de solidão mas não nos deixa sozinhos
porque essa solidão é só mais uma maneira de colorir o espaço em branco
o espaço em azul o espaço em verde
o espaço em cor de sonho a cor em espaço

esta ilha é uma ilha tão grande que cabe nela toda a solidão do mundo
porque a solidão do mundo é do tamanho de uma palavra
uma palavra que se tiver que rimar rima com coração
e rima com silêncio e rima com o outono e com o inverno
e com a primavera e com o verão
e rima sobretudo com abraço porque o abraço é que dá descanso à solidão

esta ilha é a ilha de todas as ilhas onde se espera pela manhã seguinte
a ilha onde temos esta solidão virada do avesso
que é pensarmos que ninguém nos ouve
e ninguém quer saber em que parte do oceano estamos

esta ilha é a ilha de todas as ilhas que pensam que são a ilha da solidão
e há tantas ilhas assim e tão mais pequenas
ilhas que às vezes trazemos fechadas nas nossas mãos

esta ilha é tudo isto e tanto mais
porque nenhuma palavra sabe o que dizer
quando tem para dizer o que esta ilha tem para dar

e só me apetece dizer que esta ilha é a ilha do amor
e por ser assim é a ilha da poesia
e das aguarelas que mostram o lado de fora
por dentro do lado íntimo das coisas

e esta ilha somos nós
agora

com a solidão lá fora
à espreita do que estamos aqui a fazer

20 de outubro 2007




amigos: sem outras palavras: obrigado.

15 de outubro de 2007





amigos: depois da felicidade das apresentações em braga e em lisboa, eis que a MINHA ilha me recebe, no sábado, dia 20 de Outubro. Sintam-se convidados: a casa é vossa.

5 de outubro de 2007





um poema para o carlos vaz, a maria do sameiro barroso e a gabriela funk (digníssimos amigos que vão de mãos dadas com este novo livro)


o mundo vem ter comigo como um rumor de sonho
uma existência ténue de luz que soletra a respiração

a poesia está nesse movimento que me abre as mãos
e as palavras vêm ter à boca como pássaros na praia
atordoados pela paz que o mar inventa na rebentação

não sei explicar como a metáfora se prende ao poema
nem como a água da música leva cada um dos sentidos

não sei como dentro de mim há este fogo intermitente
que me deixa dormir enquanto morrem as últimas flores
e o paraíso se completa com os nossos gatos feridos

o mundo atravessa-me o coração para que possas escutar
as mais pequenas coisas que deixas no esquecimento

tantas coisas que eu sei estão à espera da minha boca
ou da minha folha carregando o peso de cada anjo
que para cada um dos males do mundo eu invento

3 de outubro de 2007





que outro tempo nos restará para além deste
que horizonte nos socorrendo na escuridão?


in, dez anos de solidão, daniel gonçalves


para G.S. (seja quem for: pois não identifico de imediato o nome por trás das letras)

1 de outubro de 2007






dez anos de solidão está a ganhar vida: primeira respiração será em Braga. Sinta-se convidado.

Próximas respirações: Lisboa, Livraria Bulhosa, dia 13 de Outubro pelas 17 horas e Santa Maria (Açores) dia 20 de Outubro na Igreja das Vitórias.


Um abraço!
agradeço à LABIRINTO mais um livro: afectos que nos unem, afectos que nos prendem, afectos que nos erguem, tão acima das estrelas

26 de setembro de 2007



dez anos de solidão: um novo livro... porque há amigos num labirinto...


dez anos de solidão ou as horas todas desta vida de silêncio
para encontrar na profundeza da noite a cintilação da manhã

dez anos de solidão para silabar a poesia na luz das palavras
no mesmo carinho com que nos confiamos ao clarão do amor

dez anos de solidão com a boca atada ao cuidado da paz
com o corpo protegendo a delicada promissão do paraíso
com que cada verso se acende contra a inclinação do frio

dez anos de solidão para que me crescessem estas mãos
e houvesse buganvílias anulando a tristeza do fim da tarde
barcos com sonhos na proa e nas asas brancas das velas
levando ao último horizonte as pedras densas do cansaço

dez anos de solidão como uma casa erguida contra o tempo
onde cantasse a língua com as suas primaveras secretas

e fosse possível inventar um poema contra o esquecimento
ou o cume do inverno que é termos a morte à nossa espera



(para eles)

25 de setembro de 2007




a noite estrelada está presa ao nosso coração
viemos de muito longe à procura do nosso silêncio
e encontramo-lo na constelação dos nossos sonhos

é tão bela a luzente paz das nossas bocas
como se tivessem dito já todas as palavras
e sobrasse apenas poesia
para gastar até ao fim do tempo

23 de agosto de 2007


lagoinhas
deixado cá por danielsg.
não estão junto a estas mãos
nem perto desta minha sombra caindo lentamente com a tarde

não estão de outro lado nem estarão em casa
esperando por mim

não estão deste lado do mundo sequer
que este mundo é de quem sonha o entardecer
e deixa o corpo voar num tempo onde tudo existiu
numa perfeição impossível de repetir

aí estavam vocês
comendo um gelado
sentadas na beira da estrada

com tudo isto por trás

sem título de momento (para sempre)


santa maria
deixado cá por danielsg.
há um entardecer preso ao silêncio
neste verão

há um espaço onde as asas cabem com os sonhos
do mundo

há uma palavra que se esquece do seu peso
e voa até ti

(diz que o fim da tarde é o perdão do sol
às coisas imperfeitas)






OBSERVAÇÃO: o último verso foi inspirado num verso de um poeta que não lembro agora mas que vou homenagear em breve... dizia: a névoa é o perdão do sol às coisas imperfeitas... quem me dera ter inventado isto!)

4 de agosto de 2007

o post menos poético de todos os posts menos poéticos

era aqui que eu queria estar
no momento em que van gogh
sonhou perpetuar a noite

em arles:

se possível sozinho na primeira hora
e contigo para o resto do verão

15 de julho de 2007

tempo I


rosácea (roriz)
deixado cá por danielsg.
em volta do meu coração subitamente a eternidade
para que o teu afecto tenha tempo de me percorrer


in "o tempo mais breve" daniel gonçalves

sem título (no regresso a uma tarde na ponta do pargo)


ponta do pargo
deixado cá por danielsg.
tinha para te dizer uma ilha inteira de mistérios
maior que o precipício da distância
maior que o silêncio que me deixou as asas do lado de dentro do coração

tinha para te dizer uma palavra que talvez me conseguisse
devolver a boca

uma palavra que iniciasse o curso perdido da poesia
e me desse um pouco da paz recolhida nos teus olhos

10 de junho de 2007

sem título (por falta de palavras)


delicadeza
deixado cá por danielsg.


é uma bordado de silêncio
a delicadeza que embalas

é um encanto de silêncio
a criança que baptizas


(para o rodrigo)

28 de maio de 2007

22 de maio de 2007

palavras com klimt com palavras


danae por klimt
deixado cá por danielsg.
tão bela que és
no teu dançante sonho

tão bela que és
quando me atravessas
assim como uma tarde de luz

entreaberta à felicidade
do mundo

17 de maio de 2007

como a ler a imagem


poet flying
deixado cá por danielsg.
vou soltando a noite
com as flores
pétalas das palavras doces
com que te sonho

e o lugar onde chego
é este poema
o coração e o tempo
da felicidade

25 de abril de 2007

um poema com cartier bresson


Henri Cartier Bresson
deixado cá por danielsg.
um instante feliz (como num instante de cartier-bresson)
um instante de luz preso à bicicleta que acorda a manhã

sou eu que me prendo à retina das coisas transparentes
sou eu que reconheço os contornos das primeiras coisas

é a mim que se atam os diademas das palavras felizes
é a mim que a poesia vem dizer onde está a tristeza
para não voltarmos a essa casa a essa colina de sede

desde que encontrei a tua boca rescrevendo o tempo
um tempo que não há noutro lugar nem noutro afecto
como se soubesses a exacta medida em que se ama
ou por que asa se erguem os carinhos sobre o amor

um instante feliz asilado no ventre das nossas mãos
como uma moeda para pagar a felicidade do mundo

um instante de luz que nos compense da escuridão
com que os sonhos se lançam para os nossos olhos