21 de janeiro de 2008



o meu coração explode: que verso mais triste
não há palavra alguma que encontre o coração
dentro deste corpo
que nunca foi tão concha búzio ilha
deste poema sem música
que é o meu sonho acontecer pela metade


(what the hell is this? tells me the crumbling heart)



quase que sou um homem parado no inverno
com a esperança certa de um dia de luz
ao fundo deste cansaço imenso

há sempre maio e talvez junho até
para quem suporta o peso do silêncio


(para o'sanji)


é este o inverno que nos sufoca:
o amplexo do azul gelado do
silêncio

sempre o silêncio
o silêncio
o silêncio

20 de dezembro de 2007

tenho girassóis na mesa onde deixei o silêncio


Sunflowers
deixado cá por danielsg.
tenho girassóis na mesa onde deixei o silêncio
aberto sobre um livro de poesia chinesa

qualquer um poema de qualquer um poeta
antigo como o correr das águas

para dizer muito melhor o que uma natureza morta tem de vivente
ou o que uma natureza morta tem de belo
se nos olhamos no mesmo perfil e estamos sozinhos

10 de dezembro de 2007

poema com fotografia de zdzislav beksinski


zdzislav beksinski
deixado cá por danielsg.
uma vida paralela a esta
mostrando a mesma metade
do que somos?

radiografia do outono


radiografia
deixado cá por danielsg.
por dentro do outono
ainda é verde
o nome das folhas

por dentro do outono
a luz tira uma fotografia
da alma das coisas

por dentro do outono
sei que tenho um poema
à espera da minha boca

em chagall com paris


paris chagall
deixado cá por danielsg.
estou em paris com chagall
(mas tenho mais chagall em mim que paris)

na verdade estou num sonho
com o gato que sempre quis ter

e uma janela de uma casa que desse para a vista mais amorosa
de uma tarde de outono

com cores de uma vida feliz
e o rosto do homem que tem um poço no coração
olhando para trás de tudo isto

como se só permitíssemos ao olhar
um certo chagall
com paris na corrente sanguínea

2 de dezembro de 2007

a restauração do silêncio (1 de dezembro)


malbusca's sunset
deixado cá por danielsg.
se estivesses a meu lado
talvez te comovesses como eu

começavas por pegar no mesmo silêncio
e era um poema que ia correr
das tuas mãos (eu sei
tens a mesma sede que eu)

como um pensamento atravessado de serenidade
ou pontuado pela paz do mundo
dir-me-ias que o paraíso já não existe
porque acabou de se pôr à nossa frente?


para o joão ricardo

a simetria do tempo


roof tiles
deixado cá por danielsg.
subo à cabeça da minha casa
e olho o mundo à minha volta

sou o silêncio mais alto
o ente magnífico que dá sentido
ao tempo

o envelhecer lento do telhado
diz-me que preciso tomar cuidado
com o inverno

e numa simetria impossível de condizer
sinto que também eu me acautele
dos dias indelicados
que hão-de vir

com chuva e vento
e outras tempestades
lembrar-me que os pés precisam
de raízes fortes

18 de novembro de 2007

Vou fechar os meus olhos neste instante: dói-me o corpo de não te ter. Dói-me a chuva de haver sede neste espaço onde habitamos os dois: o espaço de haver flores para cada um dos nossos pensamentos e alguns bancos onde sentarmos as nossas promessas, como um jardim a quem apenas se tiraram os pássaros, porque esses, são muito mais livres que qualquer palavra, mesmo que um poema uma mão como esta os chame, os desenhe, os risque, os invente...
sei que estás no meu coração
és a flor que me traz de volta
o cheiro da nossa infância

porque és o eterno carinho
(uma beleza impossível de decifrar)

porque tens a delicadeza
impressa no teu silêncio

porque vens com a tua boca doce
chamar o nome com que o amor
se disfarça na noite eterna

não é preciso perceber islandês para sonhar

não é preciso nem uma palavra sequer
para a paz nos surpreender
e a emoção completa

a música perfeita da delicadeza
e os gestos enternecidos da
beleza

não é preciso quase nada para sermos
felizes:

basta partilharmos



(para a maria clara do vale)

ESTA NOITE SONHEI CONTIGO


esta noite sonhei contigo 
e foi esta música tatuada nas minhas mãos
que mo disse

esta noite sonhei contigo
e amei o lado luminoso desse carinho

a forma como desqueci toda a distância 
deste mundo silente


um poema para os bons e maus pec(boc)ados






um poema pode dizer um momento
um bom ou mau pecado

um poema pode dizer uma vida
um bom ou mau bocado

um poema pode dizer tudo
mas um livro diz sempre muito mais

um livro diz todos os segundos
os bons e os maus segundos

um livro diz a vida toda
a boa e a má vida (que é sempre bela)
que as mãos levam
tentando escrever
a desmesura da sede






para o joão ricardo lopes

15 de novembro de 2007

Não me esqueço de ti porque respiro. Porque olho para dentro de mim e cada uma das árvores que me segura neste chão sabe o teu nome, como fotossíntese da luz do silêncio.




I'm glad you are a girl
I'm pleased to know you
I like you for you
I'm happy you're growing up

Reach and you won't lose me
Destroy the objective, but still sur- vur- vive
You are angry and that's okay

Forgetful or pretending
Tired, ill, or angry, or cold
More assured of what to do
But I do care for you (What a beautiful gift for me ?)

Reach and you (rejection?) won't lose me
Destroy the objective, but still survive
You are angry and that's okay ... yes
I am not afraid of your anger
What do you need? What do you want?
I love you and I know that you can figure it out




pode uma música ser mais bela?

3 de novembro de 2007




O MEU JARDIM DE ROSAS (poema com paul klee sobre os olhos)


quando acordar e for esse o dia de morrer
hás-de ser tu o meu jardim de rosas

29 de outubro de 2007





SEM TÍTULO (depois de antónio lobo antunes quem ousa inventar títulos?)

tenho para te dizer um estuário de luz que desagua na boca da manhã
tenho para te dizer os lunários e as contradanças do sonho
os anjos que caíram nas asas deste poema

tenho para te dizer qualquer coisa que não sei como trazer no coração das mãos
qualquer coisa que não tem outro movimento
senão no apertado sentido destes versos

como se eu soubesse que tudo isto não passa de um poema
para te dizer precisamente que acordei contigo nos meus olhos