21 de março de 2008

poema com imagem que não tem nada a ver (ou tem?)


Blur
deixado cá por Javali do Deserto.
não importa a cidade a aldeia ou
o buraco no chão

não importa a estação a manhã a tarde
a noite ou a hora apagada

não importa a corda a boneca de trapos
a roda da bicicleta a bicicleta a bicicleta sem roda

não importa os pais a mãe sem pai o pai sem mãe
os pais sem pai nem mãe

não importa a língua o silêncio o grito
o choro o assobio a canção

não importa o canteiro a jarra o saco de sementes
o vaso o jardim a terra a pedra o céu

que as crianças hão de florir de qualquer maneira




para o pepe

7 de março de 2008








quero dar-te a mansarda do meu poema
por onde possas ver o fim do dia
no ângulo mais doce da palavra

e perceber como todos os pássaros 
passam pelo seu coração
e deixam alguma doçura intacta
sobre o silêncio

5 de fevereiro de 2008




sei que posso escrever o último poema do mundo
se for eu o último a habitar este espaço infinito

e olho à minha volta como se me erguesse em asas
e volteasse o meu silêncio com um pôr-do-dia semibreve


(apenas um apontamento)

3 de fevereiro de 2008

26 de janeiro de 2008


um anjo é uma espécie de luz

um coração de luz

que irradia do profundo mistério

que é sermos belos

 

belos na juventude eterna

dos nossos sonhos

 

belos na arte que respira cada um dos gestos

com que prosperamos

neste universo de silêncio

 

um anjo é um corpo de amor

à espera que outra boca

lhe dê ar ou a filigrana para compor

finalmente as asas

 

 

 

para a berlinde

 

daniel gonçalves (com zero 7 - no cume do inverno)

23 de janeiro de 2008



o dia mais feliz da minha vida
só o posso beber desta fonte
a memória presa à transparência
das coisas indeléveis

e sempre sempre
repetidas neste eco de silêncio
que é a saudade ferindo
o fim do dia no cume do inverno

21 de janeiro de 2008



o meu coração explode: que verso mais triste
não há palavra alguma que encontre o coração
dentro deste corpo
que nunca foi tão concha búzio ilha
deste poema sem música
que é o meu sonho acontecer pela metade


(what the hell is this? tells me the crumbling heart)



quase que sou um homem parado no inverno
com a esperança certa de um dia de luz
ao fundo deste cansaço imenso

há sempre maio e talvez junho até
para quem suporta o peso do silêncio


(para o'sanji)


é este o inverno que nos sufoca:
o amplexo do azul gelado do
silêncio

sempre o silêncio
o silêncio
o silêncio

20 de dezembro de 2007

tenho girassóis na mesa onde deixei o silêncio


Sunflowers
deixado cá por danielsg.
tenho girassóis na mesa onde deixei o silêncio
aberto sobre um livro de poesia chinesa

qualquer um poema de qualquer um poeta
antigo como o correr das águas

para dizer muito melhor o que uma natureza morta tem de vivente
ou o que uma natureza morta tem de belo
se nos olhamos no mesmo perfil e estamos sozinhos

10 de dezembro de 2007

poema com fotografia de zdzislav beksinski


zdzislav beksinski
deixado cá por danielsg.
uma vida paralela a esta
mostrando a mesma metade
do que somos?

radiografia do outono


radiografia
deixado cá por danielsg.
por dentro do outono
ainda é verde
o nome das folhas

por dentro do outono
a luz tira uma fotografia
da alma das coisas

por dentro do outono
sei que tenho um poema
à espera da minha boca

em chagall com paris


paris chagall
deixado cá por danielsg.
estou em paris com chagall
(mas tenho mais chagall em mim que paris)

na verdade estou num sonho
com o gato que sempre quis ter

e uma janela de uma casa que desse para a vista mais amorosa
de uma tarde de outono

com cores de uma vida feliz
e o rosto do homem que tem um poço no coração
olhando para trás de tudo isto

como se só permitíssemos ao olhar
um certo chagall
com paris na corrente sanguínea

2 de dezembro de 2007

a restauração do silêncio (1 de dezembro)


malbusca's sunset
deixado cá por danielsg.
se estivesses a meu lado
talvez te comovesses como eu

começavas por pegar no mesmo silêncio
e era um poema que ia correr
das tuas mãos (eu sei
tens a mesma sede que eu)

como um pensamento atravessado de serenidade
ou pontuado pela paz do mundo
dir-me-ias que o paraíso já não existe
porque acabou de se pôr à nossa frente?


para o joão ricardo

a simetria do tempo


roof tiles
deixado cá por danielsg.
subo à cabeça da minha casa
e olho o mundo à minha volta

sou o silêncio mais alto
o ente magnífico que dá sentido
ao tempo

o envelhecer lento do telhado
diz-me que preciso tomar cuidado
com o inverno

e numa simetria impossível de condizer
sinto que também eu me acautele
dos dias indelicados
que hão-de vir

com chuva e vento
e outras tempestades
lembrar-me que os pés precisam
de raízes fortes

18 de novembro de 2007

Vou fechar os meus olhos neste instante: dói-me o corpo de não te ter. Dói-me a chuva de haver sede neste espaço onde habitamos os dois: o espaço de haver flores para cada um dos nossos pensamentos e alguns bancos onde sentarmos as nossas promessas, como um jardim a quem apenas se tiraram os pássaros, porque esses, são muito mais livres que qualquer palavra, mesmo que um poema uma mão como esta os chame, os desenhe, os risque, os invente...
sei que estás no meu coração
és a flor que me traz de volta
o cheiro da nossa infância

porque és o eterno carinho
(uma beleza impossível de decifrar)

porque tens a delicadeza
impressa no teu silêncio

porque vens com a tua boca doce
chamar o nome com que o amor
se disfarça na noite eterna

não é preciso perceber islandês para sonhar

não é preciso nem uma palavra sequer
para a paz nos surpreender
e a emoção completa

a música perfeita da delicadeza
e os gestos enternecidos da
beleza

não é preciso quase nada para sermos
felizes:

basta partilharmos



(para a maria clara do vale)