14 de setembro de 2008



ouves ao longe um estremecer de primavera
no cume do frio da manhã

é uma mulher tocando uma concertina
um alaúde uma árvore de afectos
ou um gato azul

pouco te importa a água em que se move
se o que te prende agora
e te transforma uma vez mais o rosto
é a nitidez honesta do sorriso

uma mulher que te chamou de longe
para te dizer que te conhece
porque o teu sorriso

é como o dela



in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe


há escadas que nos levam para o coração das cidades
como travessias que se inclinam para a raiz da terra

há escadas que tocam a música das casas inabitadas
escadas indigentes escadas panfletos escadas mistérios
violoncelando a inevitável sobrevivência da morte

há escadas ao longo das vitrinas aquosas que nos iluminam
escadas que nos voltam as páginas toldadas de tristeza
e nos expõem alguma paz subtraindo ao odor da solidão
o gosto amargo de estarmos suspensos na mesma palavra

e há escadas lembrando a posição solene das floreiras
que nos sobem e descem a saudade de haver árvores



in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe

23 de julho de 2008

peço desculpa pela ausência: mas dois livros se criaram entretanto -  o tempo e a fortuna dirão se bem vindos ou não.

entretanto a minha vida vai entrar de férias e deslocar-se por aí, festivamente.

um abraço, daniel.

5 de junho de 2008



nem uma palavra aqui deixada quis ser um poema
todas elas vieram ao silêncio
puxar um horizonte de sentidos

uns sobrepostos
outros aladamente soltos

no lilás do sonho

16 de maio de 2008



Caros amigos, convido-vos a assistirem à apresentação de Pompeu Miguel Martins do "meu" livro "dez anos de solidão". Ponte da Barca, 21.30, dia 19 de Maio.

Um abraço a todos!

8 de maio de 2008

(especialmente para AQF - que nenhuma poesia do mundo se perca)



esta é a casa onde hás-de morar
meu querido poema

no meio de tantas palavras
tantas tantas
que não hás-de ser mais que o começo do mundo

ínfimo e distante
perdido no meio do silêncio

de todas as outras
coisas

7 de maio de 2008



é o piano que traz a paz a esta casa
como uma alma de cristal
que inventa a luz por dentro dos nossos corações

e a música que estremece no nosso silêncio
é um sopro que deus deixa nos nossos sonhos

é o piano que nos senta na mesma mesa
e nos dá à boca uma refeição pontual de eternidade

até nos enlaçarmos tanto tanto tanto
que nada mais nos espera lá fora



(para a catarina e a margarida)

2 de maio de 2008


série chagall (terceiro)


podíamos ter chegado a deus
se soubéssemos o nome das flores que colhemos

se no amor nos tivéssemos debotado
como quem põe palavras onde antes havia azul

podíamos ter sido um só anjo
uma só canção

um só verso

série chagall (segundo)


há amantes para todos os tons de azul:

como conchas no insondável mistério da paz
como beijos e beijos na espuma volátil do desejo
como noite como sede como chagall



série chagall (primeiro)


há um mistério em cada azul que pomos no silêncio
uma janela aberta ao coração da noite

tão bela a noite cintilando no mais puro amor
tão bela a noite por onde nos chega a cor do sonho


30 de abril de 2008



podemos estar desfocados pelo tempo
ou perdidos na imensa escuridão do silêncio

podemos adormecer sem saber se vamos acordar
e acordar sem saber se vamos adormecer

podemos esquecer todos os nomes do mundo
e apagar todas as casas onde vivemos

podemos morrer as vezes que quisermos
e nesse esquecimento perder as nossas raízes

podemos ter gasto as nossas forças à procura
e nunca ter encontrado outra paz igual a esta:

um irmão nascido a meio caminho dos sonhos
do mesmo sangue que dá vida à eternidade


(para o pi - 29 de abril)

23 de abril de 2008

UM PENSAMENTO E MEIO


e se as histórias para crianças fossem de leitura obrigatória para os adultos?

seríamos capazes de fazer aquilo que passamos a vida a ensinar?


(josé saramago)

19 de abril de 2008



(no dia do meu aniversário)


caminho sozinho e encontro de frente todo o meu tempo gasto
o que choro de tristeza dá para molhar as calçadas todas das cidades do mundo
mas não estou infeliz

há apenas esta gota de revolta no algodão frágil da felicidade
a nódoa cinzenta de estar sozinho
no lugar que dá para a beleza das coisas mais doces

há apenas este silêncio semibreve como uma canção de inverno
trazendo frio aos pássaros e às pedras das margens do pensamento

há apenas esta solidão que fere e que me fecha a boca
a mesmíssima boca de onde esperas os meus beijos
e os meus poemas e as minhas promessas de amor

que dirás quando tudo se calar?

14 de abril de 2008

podes estar sozinho

mas a oração do teu silêncio

nunca há-de ser só tua

 

também as pedras

a fina luz de seda

os bancos alinhados na solidão

 

escutam esse começo de deus

que é uma voz sussurrar-se dentro de nós

contra o vazio

25 de março de 2008

esta noite se pudesse reparava os meus erros
perdia todas estas manhãs que entretanto se passaram

e dava tudo tudo tudo tudo o que julguei ter ganho

só para vos ver adormecer outra vez

21 de março de 2008

poema com imagem que não tem nada a ver (ou tem?)


Blur
deixado cá por Javali do Deserto.
não importa a cidade a aldeia ou
o buraco no chão

não importa a estação a manhã a tarde
a noite ou a hora apagada

não importa a corda a boneca de trapos
a roda da bicicleta a bicicleta a bicicleta sem roda

não importa os pais a mãe sem pai o pai sem mãe
os pais sem pai nem mãe

não importa a língua o silêncio o grito
o choro o assobio a canção

não importa o canteiro a jarra o saco de sementes
o vaso o jardim a terra a pedra o céu

que as crianças hão de florir de qualquer maneira




para o pepe

7 de março de 2008








quero dar-te a mansarda do meu poema
por onde possas ver o fim do dia
no ângulo mais doce da palavra

e perceber como todos os pássaros 
passam pelo seu coração
e deixam alguma doçura intacta
sobre o silêncio

5 de fevereiro de 2008




sei que posso escrever o último poema do mundo
se for eu o último a habitar este espaço infinito

e olho à minha volta como se me erguesse em asas
e volteasse o meu silêncio com um pôr-do-dia semibreve


(apenas um apontamento)

3 de fevereiro de 2008