já que não estavas ao pé de mim
fui buscar-te ao poema
onde te escondi pela primeira vez
o vinicius sabe bem como é o cântico
a página onde parámos os dois
para ver o sol girar
3 de janeiro de 2009
já estava à espera que nos voltássemos a encontrar
assim me mantive vivo nos últimos anos
deixei-me ficar nesta rua
nesta rua onde foste a mais lilás das assombrações
e acabei por me parecer com a paragem do autocarro
onde todos se abrigam e protegem do tempo que passa
foram apenas alguns anos
apenas uma vida que dava para habitar todo um sonho
uma vida que somada ao silêncio
fazia o livro de poesia mais triste de sempre
e contudo bastou para que me crescessem estas asas
que batem agora contra o vento do inverno
como uma árvore que interrompe
a respiração da cidade
a mesma cidade onde fomos felizes por um instante
um instante apenas
tão pouco tão pouco
tão pouco
assim me mantive vivo nos últimos anos
deixei-me ficar nesta rua
nesta rua onde foste a mais lilás das assombrações
e acabei por me parecer com a paragem do autocarro
onde todos se abrigam e protegem do tempo que passa
foram apenas alguns anos
apenas uma vida que dava para habitar todo um sonho
uma vida que somada ao silêncio
fazia o livro de poesia mais triste de sempre
e contudo bastou para que me crescessem estas asas
que batem agora contra o vento do inverno
como uma árvore que interrompe
a respiração da cidade
a mesma cidade onde fomos felizes por um instante
um instante apenas
tão pouco tão pouco
tão pouco
25 de dezembro de 2008
23 de dezembro de 2008
volta tudo ao mesmo lugar
ao mesmo nome com que chamamos as nossas rosas
volta tudo ao mesmo sentido imperceptível da tristeza
ao quarto fechado pela lado impossível da noite
volta tudo a ter uma mão por onde se puxe o soluço
por onde a chuva doa mais
como um vidro que nos amputa a palavra
e deixamos de ter a poesia do nosso lado
para escutarmos apenas o silêncio
ao mesmo nome com que chamamos as nossas rosas
volta tudo ao mesmo sentido imperceptível da tristeza
ao quarto fechado pela lado impossível da noite
volta tudo a ter uma mão por onde se puxe o soluço
por onde a chuva doa mais
como um vidro que nos amputa a palavra
e deixamos de ter a poesia do nosso lado
para escutarmos apenas o silêncio
22 de dezembro de 2008

não gosto do natal: sou mesmo contra o natal
detesto esta confusão que se faz entre o sagrado e o profano
onde um é pretexto para o outro
e onde o outro mede a tristeza e o engano todo deste mundo
não gosto de ver os presépios montados com os reis magos
e com o menino jesus todo sueco
e são josé e maria vestidos como fidalgos renascentistas
e tanta estupidez à volta de luzes
que piscam e piscam para distrair o povo da miséria
mas o que eu detesto mesmo são mensagens de natal
daquelas que vêm formatadas às centenas
a bater no telemóvel
e o que detesto ainda mais
mesmo mesmo mais
é estar tão longe do são joão
isso sim é que é festa
com luzes alegria e sobretudo
verão
21 de dezembro de 2008

tudo começa com a involuntária loucura das mãos
a revelação encoberta da arte
que nos aproxima demasiado do paraíso
e depois vem a libélula de deus
colocar um centro magnífico
na espera da luz
para que vejamos de onde tudo parte
para que tudo tenha um nome
para que saibamos que há pedras neste mundo
e rosas também
sobretudo rosas
(de ninguém)
para o carlos vaz (com imagem de emerenciano)
6 de novembro de 2008

PARA O POMPEU... NO DIA 5 DE NOVEMBRO (MÊS DE POETAS ESTE NOVEMBRO)
no tempo em que festejamos o dia dos nossos anos
tudo é possível:
a manhã atravessa o silêncio da espera
e beija-nos no rosto inviolável da poesia
uma palavra imensa descobre o seu areal infinito
e faz-se ilha dentro do ventre azul do sonho
no tempo em que festejamos o dia dos nossos anos
tudo é possível:
o sal retoma o seu lugar no coração do tempo
e preserva a memória mais doce
e tudo pode ser reencontrado por dentro de um abraço
até a semente do girassol que nos morreu na boca
4 de novembro de 2008

POEMA COM FOTO DE PEPE (SEGUNDA VERSÃO - TRANSPIRADA)
íamos os dois no mesmo caminho
ignorando o acender da manhã
tínhamos a noite atrás de nós
o esquecimento das coisas infelizes
o silêncio triste e a ferida suturada da distância
íamos os dois na mesma palavra
à procura do mesmo verso
um poema que nos desse o resto do amor
o amor de que apenas conhecemos a respiração
as mãos e uma ou outra música incandescente
íamos os dois na evidência da nossa sede
buscar a água às cidades que desenhámos no nosso sonho
as cidades onde nos permitem voar
as cidades onde as ruas têm candeeiros
como finas heras sobre o medo de estarmos sós
íamos os dois à procura da nossa vida
como se nunca tivéssemos vivido
olhando à volta da nossa frente
todas as coisas pela primeira vez
de mãos atadas e olhos transparentes
para que nenhum instante se perdesse
nunca mais
(4 novembro 2008)
14 de setembro de 2008

a cidade prendeu-me a esta janela
e deu-me uma camisa de insónia
para vestir o meu cansaço
olho a cidade que perdeu agora as entrelinhas
as paredes tatuadas nas palavras desidratadas
o peso dos gatos das estrelas
e percebo que a noite é a remissão de todas as misérias
para os velhos cuja fome se dilui
no mistério do sono
para as escadas que deixam de levar
os abreviados os prostrados
as pétalas das rosas impossíveis de despir
e para mim
que tropeço na saudade da árvore onde nasci
in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe

ouves ao longe um estremecer de primavera
no cume do frio da manhã
é uma mulher tocando uma concertina
um alaúde uma árvore de afectos
ou um gato azul
pouco te importa a água em que se move
se o que te prende agora
e te transforma uma vez mais o rosto
é a nitidez honesta do sorriso
uma mulher que te chamou de longe
para te dizer que te conhece
porque o teu sorriso
é como o dela
in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe

há escadas que nos levam para o coração das cidades
como travessias que se inclinam para a raiz da terra
há escadas que tocam a música das casas inabitadas
escadas indigentes escadas panfletos escadas mistérios
violoncelando a inevitável sobrevivência da morte
há escadas ao longo das vitrinas aquosas que nos iluminam
escadas que nos voltam as páginas toldadas de tristeza
e nos expõem alguma paz subtraindo ao odor da solidão
o gosto amargo de estarmos suspensos na mesma palavra
e há escadas lembrando a posição solene das floreiras
que nos sobem e descem a saudade de haver árvores
in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe
23 de julho de 2008
5 de junho de 2008
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