18 de janeiro de 2009




o tempo tem uma forma estranha de nos dizer
que estamos a mais num dado segundo

puxa-nos pela mão e afasta-nos violentamente das coisas que amamos
apaga-nos a música que estávamos ouvindo
o instante em que tudo parecia perfeito

e o sol no cume de novembro
mais doce que o primeiro amor

assim como quem nos bate com a porta na cara
de uma casa que sempre foi nossa
e que agora nem podemos ver de fora

assim como quem risca da nossa frente
o caminho que tínhamos escolhido

deixando tudo para trás: até o berlinde mais pequeno
até o berlinde mais gasto
rodando
rodando


rufus está na minha manhã como o vento
deste inverno furioso

e é o chá tomado entre as mãos
um carinho efémero em cada instante eterno


14 de janeiro de 2009



dentro do teu corpo
há um barco que te puxa

as mãos que são as tuas asas
a boca que é a tua rosa aberta
à procura do fogo

dentro do teu corpo
há um barco que te navega

as palavras que não dizes
o silêncio com que tropeças
na solidão

dentro do teu corpo 
há um barco que te rodeia

o sangue que te respira
o amor que desenhas
com um suspiro



(para o pepe - ensaio primeiro)

3 de janeiro de 2009

já que não estavas ao pé de mim
fui buscar-te ao poema
onde te escondi pela primeira vez

o vinicius sabe bem como é o cântico
a página onde parámos os dois
para ver o sol girar
já estava à espera que nos voltássemos a encontrar
assim me mantive vivo nos últimos anos

deixei-me ficar nesta rua
nesta rua onde foste a mais lilás das assombrações

e acabei por me parecer com a paragem do autocarro
onde todos se abrigam e protegem do tempo que passa

foram apenas alguns anos
apenas uma vida que dava para habitar todo um sonho
uma vida que somada ao silêncio
fazia o livro de poesia mais triste de sempre

e contudo bastou para que me crescessem estas asas
que batem agora contra o vento do inverno

como uma árvore que interrompe
a respiração da cidade

a mesma cidade onde fomos felizes por um instante
um instante apenas

tão pouco tão pouco
tão pouco



25 de dezembro de 2008





muitos só poderão ver o filme SEVEN POUNDS em 2009: senti-me um daqueles que decidi o que é oscarizável ou não: for your consideration only. tudo para dizer que chorei com três meses de antecedência. e o óscar ia direitinho para este filme. assim. sem mais interferências.



23 de dezembro de 2008

volta tudo ao mesmo lugar
ao mesmo nome com que chamamos as nossas rosas

volta tudo ao mesmo sentido imperceptível da tristeza
ao quarto fechado pela lado impossível da noite

volta tudo a ter uma mão por onde se puxe o soluço
por onde a chuva doa mais
como um vidro que nos amputa a palavra

e deixamos de ter a poesia do nosso lado
para escutarmos apenas o silêncio
não posso dizer outra coisa
que não seja esta porção de palavras
acostumadas à sombra

e deixar a minha voz suspender-se
como o outono atrás de mim

sem outro ofício que o da tristeza
que é feliz
como todas as outras formas
de arte
não entendo esta língua
não lhe encontro a raiz
a casa o ancoradouro a asa

ouço-lhe a música
fito-lhe a vibração
a doçura

e deixo-me desentender
de todos sentidos

pondo o meu coração
à escuta




já que não estavas ao pé de mim
fui buscar-te ao poema
onde te escondi pela primeira vez

o vinicius sabe bem como é o cântico
a página onde parámos os dois
para ver o sol girar

22 de dezembro de 2008




não gosto do natal: sou mesmo contra o natal
detesto esta confusão que se faz entre o sagrado e o profano
onde um é pretexto para o outro
e onde o outro mede a tristeza e o engano todo deste mundo

não gosto de ver os presépios montados com os reis magos
e com o menino jesus todo sueco
e são josé e maria vestidos como fidalgos renascentistas
e tanta estupidez à volta de luzes 
que piscam e piscam para distrair o povo da miséria

mas o que eu detesto mesmo são mensagens de natal
daquelas que vêm formatadas às centenas
a bater no telemóvel

e o que detesto ainda mais
mesmo mesmo mais

é estar tão longe do são joão
isso sim é que é festa

com luzes alegria e sobretudo
verão

21 de dezembro de 2008





tudo começa com a involuntária loucura das mãos
a revelação encoberta da arte
que nos aproxima demasiado do paraíso

e depois vem a libélula de deus
colocar um centro magnífico
na espera da luz

para que vejamos de onde tudo parte
para que tudo tenha um nome

para que saibamos que há pedras neste mundo
e rosas também

sobretudo rosas
(de ninguém)





para o carlos vaz (com imagem de emerenciano)




o que eu precisava agora
era de um pessegueiro
e de um céu carregado de nada

leve (tudo leve)
para não sentir mais nada

apenas o perfume exacto da
natureza

a terra crescendo na sua medida
certa

e eu por baixo
a sonhar


(para o alberto caeiro: com sortilégio)

6 de novembro de 2008




PARA O POMPEU... NO DIA 5 DE NOVEMBRO (MÊS DE POETAS ESTE NOVEMBRO)



no tempo em que festejamos o dia dos nossos anos
tudo é possível:

a manhã atravessa o silêncio da espera
e beija-nos no rosto inviolável da poesia

uma palavra imensa descobre o seu areal infinito
e faz-se ilha dentro do ventre azul do sonho

no tempo em que festejamos o dia dos nossos anos
tudo é possível:

o sal retoma o seu lugar no coração do tempo
e preserva a memória mais doce

e tudo pode ser reencontrado por dentro de um abraço
até a semente do girassol que nos morreu na boca

4 de novembro de 2008



POEMA COM FOTO DE PEPE (SEGUNDA VERSÃO - TRANSPIRADA)




íamos os dois no mesmo caminho
ignorando o acender da manhã

tínhamos a noite atrás de nós
o esquecimento das coisas infelizes
o silêncio triste e a ferida suturada da distância

íamos os dois na mesma palavra
à procura do mesmo verso

um poema que nos desse o resto do amor
o amor de que apenas conhecemos a respiração
as mãos e uma ou outra música incandescente

íamos os dois na evidência da nossa sede
buscar a água às cidades que desenhámos no nosso sonho

as cidades onde nos permitem voar
as cidades onde as ruas têm candeeiros
como finas heras sobre o medo de estarmos sós

íamos os dois à procura da nossa vida
como se nunca tivéssemos vivido

olhando à volta da nossa frente
todas as coisas pela primeira vez

de mãos atadas e olhos transparentes
para que nenhum instante se perdesse

nunca mais




(4 novembro 2008)

14 de setembro de 2008



há uma cidade exposta
para os nossos sentidos

uma cidade que se revela
na cintilação delicada
do silêncio

há uma cidade em cada caminhada
comungando desta tristeza

apertando-nos o coração
contra o cansaço da saudade




in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe


a cidade prendeu-me a esta janela
e deu-me uma camisa de insónia
para vestir o meu cansaço

olho a cidade que perdeu agora as entrelinhas
as paredes tatuadas nas palavras desidratadas
o peso dos gatos das estrelas
e percebo que a noite é a remissão de todas as misérias

para os velhos cuja fome se dilui
no mistério do sono

para as escadas que deixam de levar
os abreviados os prostrados
as pétalas das rosas impossíveis de despir

e para mim
que tropeço na saudade da árvore onde nasci




in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe


podes estar sozinho
mas a oração do teu silêncio
nunca há-de ser só tua

também as pedras
a fina luz de seda
os bancos alinhados
na solidão

escutam esse começo de deus
que é uma voz sussurrar-se dentro de nós
contra o vazio



in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe


ouves ao longe um estremecer de primavera
no cume do frio da manhã

é uma mulher tocando uma concertina
um alaúde uma árvore de afectos
ou um gato azul

pouco te importa a água em que se move
se o que te prende agora
e te transforma uma vez mais o rosto
é a nitidez honesta do sorriso

uma mulher que te chamou de longe
para te dizer que te conhece
porque o teu sorriso

é como o dela



in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe


há escadas que nos levam para o coração das cidades
como travessias que se inclinam para a raiz da terra

há escadas que tocam a música das casas inabitadas
escadas indigentes escadas panfletos escadas mistérios
violoncelando a inevitável sobrevivência da morte

há escadas ao longo das vitrinas aquosas que nos iluminam
escadas que nos voltam as páginas toldadas de tristeza
e nos expõem alguma paz subtraindo ao odor da solidão
o gosto amargo de estarmos suspensos na mesma palavra

e há escadas lembrando a posição solene das floreiras
que nos sobem e descem a saudade de haver árvores



in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe