15 de abril de 2009







talvez seja verdade que os pássaros morrem longe
que ninguém os vê abraçarem a eternidade
e largarem as asas para tomarem uma palavra
uma gota comunicante com a orla do infinito

talvez seja verdade que tudo o que basta é uma janela
um outro lado para onde possamos olhar
um espaço onde a luz ainda é feita a partir da paz
ou de outra qualquer forma encontrada com a manhã

talvez seja verdade que temos as mesmas asas dos pássaros
e que podemos ficar tão sós que nem a morte nos reconheça
tão inteiros como nenhuma outra árvore
tão sinceros como nenhum outro poema





todos os artistas criam
obras de arte

cânticos
bordados
peças tiradas à boca dos pássaros

brancura intacta de deus
a pedra crescente
um corpo imenso ocupando o silêncio

tecidos escritos à mão
e outras asas para prender o desejo
de ver tudo

todos os artistas criam
obras de arte

mas é tão pequeno este lugar
e ainda mais pequeno
o tempo que nos dão para amar o mundo

e todos os seus artistas
e todas as suas obras de arte

2 de abril de 2009

1 de abril de 2009





até amanhã
amanhã
quando voltarmos
a este lugar

com outro olhar
outro sabor no coração
outra palavra
para habitarmos
o poema

até amanhã
que sempre havemos de ser
amanhã

que não há limite
nem horizonte
para quem acredita

que fecha os olhos
e escolhe um sonho
para acordar
outra vez

31 de março de 2009



acabamos sempre sozinhos
desenlacemos as mãos
fitemos as árvores do mundo
a água que inunda a última margem
do litoral

acabamos sempre sozinhos
enlacemos as mãos
sonhemos com os últimos grãos puros
da nossa sede

façamos desta morte suspensa
um poema para regressarmos
ao nosso primeiro beijo

acabamos sempre sozinhos
cortemos as nossas mãos
façamos delas trapézios para o desejo
e depois naufraguemos no primeiro instante feliz

acabamos sempre sozinhos
e o amor acaba sempre por ter razão

nunca se ama para possuir
ama-se para perseguir o sonho

de termos asas e alguma esperança
(quanto antes)










tirei de mim o mais útil segredo
e agora estou despido
com o mar à porta

nem cesariny me pode salvar
do silêncio


(versos evidentes: com radiohead)

29 de março de 2009



(depois de ver o filme THE DOG PROBLEM)



a vida é uma negociação delicada
e o amor é uma moeda
com que podemos pagar
a inventação do futuro

certos de que é preciso sair de casa
e deixar tudo para trás

certos de que alguém espera por nós
um cão um livro um lugar uma pessoa


28 de março de 2009




poema com jackson pollock


estamos os dois sem saber o que fazer
com as mãos

ouvindo música por dentro do vazio
escutando a voz de um dos deuses
que nos criaram

estamos os dois à espera que amanheça
ou que o novelo do caos
regresse à sua maré cheia

e nos deixe mais próximos do silêncio
porque é aí que se pode morrer em paz

porque é aí que o traço vago ganha o seu poema
e a palavra hesitante encontra a sua cor








eu sou pequeno
tão ínfimo
na minha palavra
minúscula

tão quase nada
que o universo
quase não dá
por mim

tão redondo
tão liso
que a água
passa por mim

e o vento
passa por mim
e passa por mim
a borboleta
e a estrela
cadente

mas existo
ainda assim
nesta boca pérola
com o búzio
silêncio




para os visitantes deste blogue, obrigado

27 de março de 2009


(ensaio para uma confissão do ciúme)


possuo-te como se não fosses apenas minha
como uma árvore de onde nasce a luz da manhã
feita de raízes dentro do meu coração
para a claridade de todo o mundo

és de todos quantos te querem ver
e se eu pudesse fechava-te no meu búzio
numa escuridão que acabava por te secar

24 de março de 2009




sei que há um gato algures que te quer mimar
um gato com coração de gaivota

um gato ave ou gato anjo
que tanto faz se a asa é para voar
ou para inventar a luz numa oração

sei que tenho de me chegar a ti
enquanto há primavera e vale a pena ver-te à janela
enquanto não te fechas dentro de casa
ou dentro de outro gomo do coração

sei que um gato algures podia ajudar-me
e quem diz um gato diz um poema

e quem diz um poema diz este
abraço




para a margarida flor





21 de março de 2009



a poesia veio ter comigo num dia de chuva
tinha o corpo molhado até à palavra mais ínfima
diria que era um dia triste
um dia para se morrer contra a janela do esquecimento

olhei para a poesia como quem fita o âmago de uma candeia acesa
mas no lugar da luz estava uma canção
no lugar da chama estava um bicho da seda
e dali saía o manto branco com que me vesti

aos poucos fui perdendo o frio
o sangue coagulado com a tristeza de haver apenas silêncio

comecei a acreditar no mistério do meu nome
na estrela que faz a noite parecer mais azul do que o mar
e com ele fui-me chamando para junto das flores e das pedras
como uma palavra acabada de caiar

enrolei-me na minha sombra
e esse casulo criou um verso para eu falar aos anjos

a partir desse dia nunca mais fiquei sozinho
e os anjos esses
apareceram com mais frequência à janela da minha casa






ao anjo joão pinto e aos anjos que me têm mostrado novas palavras

10 de março de 2009


as mãos criam o mundo
devagar

puxam da terra as estrelas
a pequenas coisas
que nos ajudam a sonhar

as mãos fiam e fiam
tudo o que nos há-de
cobrir

as roupas com que dançamos
o suor com que lavramos
os campos por florir

as mãos guardam os mistérios
as memórias e as cores
da tradição

guardam o nome das coisas
como quem protege um beijo
no coração

as mãos criam o mundo
devagar

e hão-de ser sempre elas
dobando e alando o caminho
com que havemos de perdurar

1 de março de 2009



piolhinho piolhaço vou-te fazer coçar todo o mês de março...

ó infância, onde andas?

22 de fevereiro de 2009




(porta aberta para revolutionary road)



o que queres que a tua vida seja?
que casa queres habitar
e que aniversário prender na correnteza do tempo
que imagem de ti que abraço que sonho?

o que podes desejar se tens à tua frente
todos os sonhos possíveis
expostos como as folhas que caem
porque o outono arrefece o coração das árvores?

o que queres que a tua vida seja?
um desenho numa folha branca
uma porção de luz salvando a noite do vazio
um caminho que se faz desligando o olhar?

o que podes desejar se tens à tua frente
precisamente aquilo que foste buscar à terra
a mesma oração com que sagraste a casa
os filhos que tomaste do silêncio?

o que queres que a tua vida seja?
achas que podes desligar o peso de deus nestas coisas
que não há anjos te guiando o precipício
puxando para trás soprando-te para a frente?

o que podes desejar se tens à tua frente
o peso da morte com o peso do esquecimento
lembrando-te o poema com que acordas
a respiração que te faz quem és?

o que queres que a tua vida seja?
não tens outra não há outra
só esta que já é menos a cada instante
à espera que aproveites o que te é dado

e deseja então não mais que o que já tens
as desgraças todas e mais as dos outros
o mundo tal como ele é
onde todo o amor é possível


21 de fevereiro de 2009



encontrei finalmente o meu coração
não estava dentro do meu peito
batendo serenamente contra a morte
nem sequer no botão de rosa
fulgurosa metáfora de paixão

encontrei finalmente o meu coração
depois de tantas palavras a guardá-lo
e de todas as músicas que o encolheram
até não ser mais que uma estrela
com a sua infinita cintilação

encontrei finalmente o meu coração
e não era nada do que os poetas diziam
não era capaz de guardar a eternidade
quando muito um segundo incendiado
um momento tirado do ventre do verão

encontrei finalmente o meu coração
pintei-o de luz: um vermelho inviolável
uma centelha tirada do fundo da terra
depois estendi-o no meu colo deitei-lhe água
dei-lhe uma semente e envolvi-o em algodão



20 de fevereiro de 2009


não digo a cor

que essa tem a sua asa solta no mar

por mais que uma ilha seja feita de flores

ou de pedras ou de torpor

 

não digo a cor

que a noite também a guarda

por mais que durmamos no relento do cansaço

e um anjo se tenha prometido na carne do amor

 

não digo a cor

que o vestido com que te foste embora

ficou nas palavras com que te acenaste

e no silêncio sussurrado ao pormenor

 

não digo a cor

digo o espaço digo o imenso horizonte

digo o soluço que me prende as mãos

e no lugar da palavra deixa um rumor



(primeira versão: para o joão pinto)

5 de fevereiro de 2009




(no dia das amigas - coisa açoriana...)



amo-te da mesma maneira como respiro
esse amor que uns chamam de rosas no inverno
e outros a quem ousam pôr asas e ternura de algodão




4 de fevereiro de 2009

(poema com mário cesariny: como uma canção desesperada)




estou a dizer-te que já todos os poetas inventaram o amor
que nas minhas mãos o amor é apenas silêncio que vaza

que o amor não pode ser mais belo do que este verso:
antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa

estou a dizer-te que se tinha que te escrever uma carícia
nenhuma palavra há que não tenha quebrado já a sua asa

talvez acabes por perceber na doçura de todo este carinho
que não tenho mais música por onde possas subir até mim
ou madressilvas para te estenderes por todo o meu verão

estou a dizer-te que nunca soube dizer-te como te amar
como se regressasse a um instante em que fui apenas pedra
ou borboleta impassível colorindo o seu efémero coração

estou a dar-te à boca as poucas carícias que saem da minha
como se eu pudesse inventar um verso no lugar de um beijo
e talvez acreditasse que o amor tem sempre um novo aluvião




poema publicado na antologia OS DIAS DO AMOR - depois da generosidade da Inês Ramos

28 de janeiro de 2009





há uma dor que atravessa os anos acumulados
a fome do tempo que nenhuma eternidade promete

uma ferida aberta aos sentidos deslocados
amplexos desfocados de sofrimento

e uma canção que dói
quando todas as outras já não suportam
terem sido um momento feliz

e uma canção que dói
como todos os gestos que já não cabem mais
nesse corpo que morre

tão devagar que dá para sentir
a sombra ondulante da morte se chegando

como as pétalas da primeira ovação
quando o mundo sabia o teu nome
como quem sabe os acordes de um verão quente