6 de novembro de 2008




PARA O POMPEU... NO DIA 5 DE NOVEMBRO (MÊS DE POETAS ESTE NOVEMBRO)



no tempo em que festejamos o dia dos nossos anos
tudo é possível:

a manhã atravessa o silêncio da espera
e beija-nos no rosto inviolável da poesia

uma palavra imensa descobre o seu areal infinito
e faz-se ilha dentro do ventre azul do sonho

no tempo em que festejamos o dia dos nossos anos
tudo é possível:

o sal retoma o seu lugar no coração do tempo
e preserva a memória mais doce

e tudo pode ser reencontrado por dentro de um abraço
até a semente do girassol que nos morreu na boca

4 de novembro de 2008



POEMA COM FOTO DE PEPE (SEGUNDA VERSÃO - TRANSPIRADA)




íamos os dois no mesmo caminho
ignorando o acender da manhã

tínhamos a noite atrás de nós
o esquecimento das coisas infelizes
o silêncio triste e a ferida suturada da distância

íamos os dois na mesma palavra
à procura do mesmo verso

um poema que nos desse o resto do amor
o amor de que apenas conhecemos a respiração
as mãos e uma ou outra música incandescente

íamos os dois na evidência da nossa sede
buscar a água às cidades que desenhámos no nosso sonho

as cidades onde nos permitem voar
as cidades onde as ruas têm candeeiros
como finas heras sobre o medo de estarmos sós

íamos os dois à procura da nossa vida
como se nunca tivéssemos vivido

olhando à volta da nossa frente
todas as coisas pela primeira vez

de mãos atadas e olhos transparentes
para que nenhum instante se perdesse

nunca mais




(4 novembro 2008)

14 de setembro de 2008



há uma cidade exposta
para os nossos sentidos

uma cidade que se revela
na cintilação delicada
do silêncio

há uma cidade em cada caminhada
comungando desta tristeza

apertando-nos o coração
contra o cansaço da saudade




in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe


a cidade prendeu-me a esta janela
e deu-me uma camisa de insónia
para vestir o meu cansaço

olho a cidade que perdeu agora as entrelinhas
as paredes tatuadas nas palavras desidratadas
o peso dos gatos das estrelas
e percebo que a noite é a remissão de todas as misérias

para os velhos cuja fome se dilui
no mistério do sono

para as escadas que deixam de levar
os abreviados os prostrados
as pétalas das rosas impossíveis de despir

e para mim
que tropeço na saudade da árvore onde nasci




in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe


podes estar sozinho
mas a oração do teu silêncio
nunca há-de ser só tua

também as pedras
a fina luz de seda
os bancos alinhados
na solidão

escutam esse começo de deus
que é uma voz sussurrar-se dentro de nós
contra o vazio



in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe


ouves ao longe um estremecer de primavera
no cume do frio da manhã

é uma mulher tocando uma concertina
um alaúde uma árvore de afectos
ou um gato azul

pouco te importa a água em que se move
se o que te prende agora
e te transforma uma vez mais o rosto
é a nitidez honesta do sorriso

uma mulher que te chamou de longe
para te dizer que te conhece
porque o teu sorriso

é como o dela



in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe


há escadas que nos levam para o coração das cidades
como travessias que se inclinam para a raiz da terra

há escadas que tocam a música das casas inabitadas
escadas indigentes escadas panfletos escadas mistérios
violoncelando a inevitável sobrevivência da morte

há escadas ao longo das vitrinas aquosas que nos iluminam
escadas que nos voltam as páginas toldadas de tristeza
e nos expõem alguma paz subtraindo ao odor da solidão
o gosto amargo de estarmos suspensos na mesma palavra

e há escadas lembrando a posição solene das floreiras
que nos sobem e descem a saudade de haver árvores



in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe

23 de julho de 2008

peço desculpa pela ausência: mas dois livros se criaram entretanto -  o tempo e a fortuna dirão se bem vindos ou não.

entretanto a minha vida vai entrar de férias e deslocar-se por aí, festivamente.

um abraço, daniel.

5 de junho de 2008



nem uma palavra aqui deixada quis ser um poema
todas elas vieram ao silêncio
puxar um horizonte de sentidos

uns sobrepostos
outros aladamente soltos

no lilás do sonho

16 de maio de 2008



Caros amigos, convido-vos a assistirem à apresentação de Pompeu Miguel Martins do "meu" livro "dez anos de solidão". Ponte da Barca, 21.30, dia 19 de Maio.

Um abraço a todos!

8 de maio de 2008

(especialmente para AQF - que nenhuma poesia do mundo se perca)



esta é a casa onde hás-de morar
meu querido poema

no meio de tantas palavras
tantas tantas
que não hás-de ser mais que o começo do mundo

ínfimo e distante
perdido no meio do silêncio

de todas as outras
coisas

7 de maio de 2008



é o piano que traz a paz a esta casa
como uma alma de cristal
que inventa a luz por dentro dos nossos corações

e a música que estremece no nosso silêncio
é um sopro que deus deixa nos nossos sonhos

é o piano que nos senta na mesma mesa
e nos dá à boca uma refeição pontual de eternidade

até nos enlaçarmos tanto tanto tanto
que nada mais nos espera lá fora



(para a catarina e a margarida)

2 de maio de 2008


série chagall (terceiro)


podíamos ter chegado a deus
se soubéssemos o nome das flores que colhemos

se no amor nos tivéssemos debotado
como quem põe palavras onde antes havia azul

podíamos ter sido um só anjo
uma só canção

um só verso

série chagall (segundo)


há amantes para todos os tons de azul:

como conchas no insondável mistério da paz
como beijos e beijos na espuma volátil do desejo
como noite como sede como chagall



série chagall (primeiro)


há um mistério em cada azul que pomos no silêncio
uma janela aberta ao coração da noite

tão bela a noite cintilando no mais puro amor
tão bela a noite por onde nos chega a cor do sonho


30 de abril de 2008



podemos estar desfocados pelo tempo
ou perdidos na imensa escuridão do silêncio

podemos adormecer sem saber se vamos acordar
e acordar sem saber se vamos adormecer

podemos esquecer todos os nomes do mundo
e apagar todas as casas onde vivemos

podemos morrer as vezes que quisermos
e nesse esquecimento perder as nossas raízes

podemos ter gasto as nossas forças à procura
e nunca ter encontrado outra paz igual a esta:

um irmão nascido a meio caminho dos sonhos
do mesmo sangue que dá vida à eternidade


(para o pi - 29 de abril)

23 de abril de 2008

UM PENSAMENTO E MEIO


e se as histórias para crianças fossem de leitura obrigatória para os adultos?

seríamos capazes de fazer aquilo que passamos a vida a ensinar?


(josé saramago)

19 de abril de 2008



(no dia do meu aniversário)


caminho sozinho e encontro de frente todo o meu tempo gasto
o que choro de tristeza dá para molhar as calçadas todas das cidades do mundo
mas não estou infeliz

há apenas esta gota de revolta no algodão frágil da felicidade
a nódoa cinzenta de estar sozinho
no lugar que dá para a beleza das coisas mais doces

há apenas este silêncio semibreve como uma canção de inverno
trazendo frio aos pássaros e às pedras das margens do pensamento

há apenas esta solidão que fere e que me fecha a boca
a mesmíssima boca de onde esperas os meus beijos
e os meus poemas e as minhas promessas de amor

que dirás quando tudo se calar?

14 de abril de 2008

podes estar sozinho

mas a oração do teu silêncio

nunca há-de ser só tua

 

também as pedras

a fina luz de seda

os bancos alinhados na solidão

 

escutam esse começo de deus

que é uma voz sussurrar-se dentro de nós

contra o vazio

25 de março de 2008

esta noite se pudesse reparava os meus erros
perdia todas estas manhãs que entretanto se passaram

e dava tudo tudo tudo tudo o que julguei ter ganho

só para vos ver adormecer outra vez

21 de março de 2008

poema com imagem que não tem nada a ver (ou tem?)


Blur
deixado cá por Javali do Deserto.
não importa a cidade a aldeia ou
o buraco no chão

não importa a estação a manhã a tarde
a noite ou a hora apagada

não importa a corda a boneca de trapos
a roda da bicicleta a bicicleta a bicicleta sem roda

não importa os pais a mãe sem pai o pai sem mãe
os pais sem pai nem mãe

não importa a língua o silêncio o grito
o choro o assobio a canção

não importa o canteiro a jarra o saco de sementes
o vaso o jardim a terra a pedra o céu

que as crianças hão de florir de qualquer maneira




para o pepe

7 de março de 2008








quero dar-te a mansarda do meu poema
por onde possas ver o fim do dia
no ângulo mais doce da palavra

e perceber como todos os pássaros 
passam pelo seu coração
e deixam alguma doçura intacta
sobre o silêncio

5 de fevereiro de 2008




sei que posso escrever o último poema do mundo
se for eu o último a habitar este espaço infinito

e olho à minha volta como se me erguesse em asas
e volteasse o meu silêncio com um pôr-do-dia semibreve


(apenas um apontamento)

3 de fevereiro de 2008

26 de janeiro de 2008


um anjo é uma espécie de luz

um coração de luz

que irradia do profundo mistério

que é sermos belos

 

belos na juventude eterna

dos nossos sonhos

 

belos na arte que respira cada um dos gestos

com que prosperamos

neste universo de silêncio

 

um anjo é um corpo de amor

à espera que outra boca

lhe dê ar ou a filigrana para compor

finalmente as asas

 

 

 

para a berlinde

 

daniel gonçalves (com zero 7 - no cume do inverno)

23 de janeiro de 2008



o dia mais feliz da minha vida
só o posso beber desta fonte
a memória presa à transparência
das coisas indeléveis

e sempre sempre
repetidas neste eco de silêncio
que é a saudade ferindo
o fim do dia no cume do inverno

21 de janeiro de 2008



o meu coração explode: que verso mais triste
não há palavra alguma que encontre o coração
dentro deste corpo
que nunca foi tão concha búzio ilha
deste poema sem música
que é o meu sonho acontecer pela metade


(what the hell is this? tells me the crumbling heart)



quase que sou um homem parado no inverno
com a esperança certa de um dia de luz
ao fundo deste cansaço imenso

há sempre maio e talvez junho até
para quem suporta o peso do silêncio


(para o'sanji)


é este o inverno que nos sufoca:
o amplexo do azul gelado do
silêncio

sempre o silêncio
o silêncio
o silêncio

20 de dezembro de 2007

tenho girassóis na mesa onde deixei o silêncio


Sunflowers
deixado cá por danielsg.
tenho girassóis na mesa onde deixei o silêncio
aberto sobre um livro de poesia chinesa

qualquer um poema de qualquer um poeta
antigo como o correr das águas

para dizer muito melhor o que uma natureza morta tem de vivente
ou o que uma natureza morta tem de belo
se nos olhamos no mesmo perfil e estamos sozinhos

10 de dezembro de 2007

poema com fotografia de zdzislav beksinski


zdzislav beksinski
deixado cá por danielsg.
uma vida paralela a esta
mostrando a mesma metade
do que somos?

radiografia do outono


radiografia
deixado cá por danielsg.
por dentro do outono
ainda é verde
o nome das folhas

por dentro do outono
a luz tira uma fotografia
da alma das coisas

por dentro do outono
sei que tenho um poema
à espera da minha boca

em chagall com paris


paris chagall
deixado cá por danielsg.
estou em paris com chagall
(mas tenho mais chagall em mim que paris)

na verdade estou num sonho
com o gato que sempre quis ter

e uma janela de uma casa que desse para a vista mais amorosa
de uma tarde de outono

com cores de uma vida feliz
e o rosto do homem que tem um poço no coração
olhando para trás de tudo isto

como se só permitíssemos ao olhar
um certo chagall
com paris na corrente sanguínea

2 de dezembro de 2007

a restauração do silêncio (1 de dezembro)


malbusca's sunset
deixado cá por danielsg.
se estivesses a meu lado
talvez te comovesses como eu

começavas por pegar no mesmo silêncio
e era um poema que ia correr
das tuas mãos (eu sei
tens a mesma sede que eu)

como um pensamento atravessado de serenidade
ou pontuado pela paz do mundo
dir-me-ias que o paraíso já não existe
porque acabou de se pôr à nossa frente?


para o joão ricardo

a simetria do tempo


roof tiles
deixado cá por danielsg.
subo à cabeça da minha casa
e olho o mundo à minha volta

sou o silêncio mais alto
o ente magnífico que dá sentido
ao tempo

o envelhecer lento do telhado
diz-me que preciso tomar cuidado
com o inverno

e numa simetria impossível de condizer
sinto que também eu me acautele
dos dias indelicados
que hão-de vir

com chuva e vento
e outras tempestades
lembrar-me que os pés precisam
de raízes fortes

18 de novembro de 2007

Vou fechar os meus olhos neste instante: dói-me o corpo de não te ter. Dói-me a chuva de haver sede neste espaço onde habitamos os dois: o espaço de haver flores para cada um dos nossos pensamentos e alguns bancos onde sentarmos as nossas promessas, como um jardim a quem apenas se tiraram os pássaros, porque esses, são muito mais livres que qualquer palavra, mesmo que um poema uma mão como esta os chame, os desenhe, os risque, os invente...
sei que estás no meu coração
és a flor que me traz de volta
o cheiro da nossa infância

porque és o eterno carinho
(uma beleza impossível de decifrar)

porque tens a delicadeza
impressa no teu silêncio

porque vens com a tua boca doce
chamar o nome com que o amor
se disfarça na noite eterna

não é preciso perceber islandês para sonhar

não é preciso nem uma palavra sequer
para a paz nos surpreender
e a emoção completa

a música perfeita da delicadeza
e os gestos enternecidos da
beleza

não é preciso quase nada para sermos
felizes:

basta partilharmos



(para a maria clara do vale)

ESTA NOITE SONHEI CONTIGO


esta noite sonhei contigo 
e foi esta música tatuada nas minhas mãos
que mo disse

esta noite sonhei contigo
e amei o lado luminoso desse carinho

a forma como desqueci toda a distância 
deste mundo silente


um poema para os bons e maus pec(boc)ados






um poema pode dizer um momento
um bom ou mau pecado

um poema pode dizer uma vida
um bom ou mau bocado

um poema pode dizer tudo
mas um livro diz sempre muito mais

um livro diz todos os segundos
os bons e os maus segundos

um livro diz a vida toda
a boa e a má vida (que é sempre bela)
que as mãos levam
tentando escrever
a desmesura da sede






para o joão ricardo lopes

15 de novembro de 2007

Não me esqueço de ti porque respiro. Porque olho para dentro de mim e cada uma das árvores que me segura neste chão sabe o teu nome, como fotossíntese da luz do silêncio.




I'm glad you are a girl
I'm pleased to know you
I like you for you
I'm happy you're growing up

Reach and you won't lose me
Destroy the objective, but still sur- vur- vive
You are angry and that's okay

Forgetful or pretending
Tired, ill, or angry, or cold
More assured of what to do
But I do care for you (What a beautiful gift for me ?)

Reach and you (rejection?) won't lose me
Destroy the objective, but still survive
You are angry and that's okay ... yes
I am not afraid of your anger
What do you need? What do you want?
I love you and I know that you can figure it out




pode uma música ser mais bela?

3 de novembro de 2007




O MEU JARDIM DE ROSAS (poema com paul klee sobre os olhos)


quando acordar e for esse o dia de morrer
hás-de ser tu o meu jardim de rosas

29 de outubro de 2007





SEM TÍTULO (depois de antónio lobo antunes quem ousa inventar títulos?)

tenho para te dizer um estuário de luz que desagua na boca da manhã
tenho para te dizer os lunários e as contradanças do sonho
os anjos que caíram nas asas deste poema

tenho para te dizer qualquer coisa que não sei como trazer no coração das mãos
qualquer coisa que não tem outro movimento
senão no apertado sentido destes versos

como se eu soubesse que tudo isto não passa de um poema
para te dizer precisamente que acordei contigo nos meus olhos

27 de outubro de 2007






a primavera em mim
foi uma cotovia
da manhã

havia velas lilases
uma simpatia serena

dizendo o lá fora



daniel gonçalves


poema com foto de angelicatas


no coração da palavra és o coração da poesia
no coração da ilha és o coração do horizonte

no coração da flor és o coração do sonho
no coração do silêncio és o coração da paz

no coração da praia és o coração do mar
no coração da estrela és o coração da noite

e no coração do amor és o coração da vida
o coração do coração do coração do coração


daniel gonçalves



como um poema (para antónio ramos rosa)



nasceu-me uma rosa no coração
para não ter de regressar ao silêncio

nasceu-me uma rosa no coração
para voltar a entrar na casa da poesia

nasceu-me uma rosa no coração
e os nomes das coisas iluminaram-se

nasceu-me uma rosa no coração
e esqueci-me que tenho uma boca

nasceu-me uma rosa no coração
e é a ti que me dedico o seu perfume




daniel gonçalves



COMO UM POEMA QUE LEMBRASSE MIGUEL TORGA E O ATRAVESSASSE À DISTÂNCIA DE UMA MONTANHA PROFUNDA


o homem tem as mesmas raízes de deus
como se fosse a mesma árvore
que sustenta o céu

o homem vai no mesmo caminho que o seu cão
e leva na sua mão o pedaço de pão
que há-de enganar a fome aos dois

o homem sabe a palavra com que a pedra
escuta os quatro lados do vento
e a pedra sabe a palavra com que o homem
fia o silêncio das constelações pesadas da noite

o homem é o poeta e é o profundo destino do vazio
tem no seu coração a última flor do mundo
e na sua boca apenas outro grito

o homem quis revelar o mistério íntimo da vida
e fê-lo com todas as coisas que o protegeram da morte
todas as coisas que a terra soube dar
como uma bênção que um anjo esqueça propositadamente
no altar da respiração da manhã



daniel gonçalves

22 de outubro de 2007





palavras para a apresentação do livro "dez anos de solidão" em santa maria


esta ilha é uma ilha de solidão mas não é a ilha da solidão
esta ilha é uma ilha de solidão quando olha o mar em sua volta
quando se fecha para dormir sobre a eternidade
quando se leva para fora no silêncio adocicado de quem parte

esta ilha é uma ilha de solidão porque queremos que assim seja
porque se ela pudesse abraçava-nos
pegava em nós e dava-nos o seu pico mais alto para morarmos
e vermos que o mundo em volta é que é pequeno

esta ilha é uma ilha de solidão e gosto dela assim
quando me dá todo este tempo para reviver
quando me aproxima as coisas mais pequenas desta boca que tem tanta sede

esta ilha é uma ilha de solidão mas não nos deixa sozinhos
porque essa solidão é só mais uma maneira de colorir o espaço em branco
o espaço em azul o espaço em verde
o espaço em cor de sonho a cor em espaço

esta ilha é uma ilha tão grande que cabe nela toda a solidão do mundo
porque a solidão do mundo é do tamanho de uma palavra
uma palavra que se tiver que rimar rima com coração
e rima com silêncio e rima com o outono e com o inverno
e com a primavera e com o verão
e rima sobretudo com abraço porque o abraço é que dá descanso à solidão

esta ilha é a ilha de todas as ilhas onde se espera pela manhã seguinte
a ilha onde temos esta solidão virada do avesso
que é pensarmos que ninguém nos ouve
e ninguém quer saber em que parte do oceano estamos

esta ilha é a ilha de todas as ilhas que pensam que são a ilha da solidão
e há tantas ilhas assim e tão mais pequenas
ilhas que às vezes trazemos fechadas nas nossas mãos

esta ilha é tudo isto e tanto mais
porque nenhuma palavra sabe o que dizer
quando tem para dizer o que esta ilha tem para dar

e só me apetece dizer que esta ilha é a ilha do amor
e por ser assim é a ilha da poesia
e das aguarelas que mostram o lado de fora
por dentro do lado íntimo das coisas

e esta ilha somos nós
agora

com a solidão lá fora
à espreita do que estamos aqui a fazer

20 de outubro 2007




amigos: sem outras palavras: obrigado.

15 de outubro de 2007





amigos: depois da felicidade das apresentações em braga e em lisboa, eis que a MINHA ilha me recebe, no sábado, dia 20 de Outubro. Sintam-se convidados: a casa é vossa.

5 de outubro de 2007





um poema para o carlos vaz, a maria do sameiro barroso e a gabriela funk (digníssimos amigos que vão de mãos dadas com este novo livro)


o mundo vem ter comigo como um rumor de sonho
uma existência ténue de luz que soletra a respiração

a poesia está nesse movimento que me abre as mãos
e as palavras vêm ter à boca como pássaros na praia
atordoados pela paz que o mar inventa na rebentação

não sei explicar como a metáfora se prende ao poema
nem como a água da música leva cada um dos sentidos

não sei como dentro de mim há este fogo intermitente
que me deixa dormir enquanto morrem as últimas flores
e o paraíso se completa com os nossos gatos feridos

o mundo atravessa-me o coração para que possas escutar
as mais pequenas coisas que deixas no esquecimento

tantas coisas que eu sei estão à espera da minha boca
ou da minha folha carregando o peso de cada anjo
que para cada um dos males do mundo eu invento

3 de outubro de 2007





que outro tempo nos restará para além deste
que horizonte nos socorrendo na escuridão?


in, dez anos de solidão, daniel gonçalves


para G.S. (seja quem for: pois não identifico de imediato o nome por trás das letras)

1 de outubro de 2007






dez anos de solidão está a ganhar vida: primeira respiração será em Braga. Sinta-se convidado.

Próximas respirações: Lisboa, Livraria Bulhosa, dia 13 de Outubro pelas 17 horas e Santa Maria (Açores) dia 20 de Outubro na Igreja das Vitórias.


Um abraço!
agradeço à LABIRINTO mais um livro: afectos que nos unem, afectos que nos prendem, afectos que nos erguem, tão acima das estrelas

26 de setembro de 2007



dez anos de solidão: um novo livro... porque há amigos num labirinto...


dez anos de solidão ou as horas todas desta vida de silêncio
para encontrar na profundeza da noite a cintilação da manhã

dez anos de solidão para silabar a poesia na luz das palavras
no mesmo carinho com que nos confiamos ao clarão do amor

dez anos de solidão com a boca atada ao cuidado da paz
com o corpo protegendo a delicada promissão do paraíso
com que cada verso se acende contra a inclinação do frio

dez anos de solidão para que me crescessem estas mãos
e houvesse buganvílias anulando a tristeza do fim da tarde
barcos com sonhos na proa e nas asas brancas das velas
levando ao último horizonte as pedras densas do cansaço

dez anos de solidão como uma casa erguida contra o tempo
onde cantasse a língua com as suas primaveras secretas

e fosse possível inventar um poema contra o esquecimento
ou o cume do inverno que é termos a morte à nossa espera



(para eles)

25 de setembro de 2007




a noite estrelada está presa ao nosso coração
viemos de muito longe à procura do nosso silêncio
e encontramo-lo na constelação dos nossos sonhos

é tão bela a luzente paz das nossas bocas
como se tivessem dito já todas as palavras
e sobrasse apenas poesia
para gastar até ao fim do tempo

23 de agosto de 2007


lagoinhas
deixado cá por danielsg.
não estão junto a estas mãos
nem perto desta minha sombra caindo lentamente com a tarde

não estão de outro lado nem estarão em casa
esperando por mim

não estão deste lado do mundo sequer
que este mundo é de quem sonha o entardecer
e deixa o corpo voar num tempo onde tudo existiu
numa perfeição impossível de repetir

aí estavam vocês
comendo um gelado
sentadas na beira da estrada

com tudo isto por trás

sem título de momento (para sempre)


santa maria
deixado cá por danielsg.
há um entardecer preso ao silêncio
neste verão

há um espaço onde as asas cabem com os sonhos
do mundo

há uma palavra que se esquece do seu peso
e voa até ti

(diz que o fim da tarde é o perdão do sol
às coisas imperfeitas)






OBSERVAÇÃO: o último verso foi inspirado num verso de um poeta que não lembro agora mas que vou homenagear em breve... dizia: a névoa é o perdão do sol às coisas imperfeitas... quem me dera ter inventado isto!)

4 de agosto de 2007

o post menos poético de todos os posts menos poéticos

era aqui que eu queria estar
no momento em que van gogh
sonhou perpetuar a noite

em arles:

se possível sozinho na primeira hora
e contigo para o resto do verão