14 de maio de 2009

há um caminho que nos faz acreditar
que nenhum esforço é vão
que todos os passos nos levam a um outro abraço
sempre maior
ou a outra fonte
onde a sede se apaga
como uma criança que adormece no meio do choro
há um caminho que espera por nós
e se faz dos nossos sonhos
enquanto estamos parados no meio do inverno
com as mãos frias e o coração fechado
como um ninho de melros à espera de outra canção
eu sei que a primavera é pontual como toda a manhã
e que não se importa com quantas árvores
o mundo a espera
mesmo que chova e que num ou noutro andamento
pareça que mova o mundo de lugar
(ensaio para um pensamento sobre a primavera)
10 de maio de 2009
2 de maio de 2009
27 de abril de 2009
Obrigado pelo amável interesse no meu livrinho "casadescrita"... fico feliz por saber que há alguém desse lado. Partilho convosco, um dos textos:
a casa escrita
a casa escrita
abre a sua grande janela
musical
deixa volutear as suas cortinas
brancas
como a orla de uma dança
cristalina
e chama as cotovias
a água primordial
do dia
o gato azul
para se sentar
no colo do poeta
24 de abril de 2009
15 de abril de 2009

talvez seja verdade que os pássaros morrem longe
que ninguém os vê abraçarem a eternidade
e largarem as asas para tomarem uma palavra
uma gota comunicante com a orla do infinito
talvez seja verdade que tudo o que basta é uma janela
um outro lado para onde possamos olhar
um espaço onde a luz ainda é feita a partir da paz
ou de outra qualquer forma encontrada com a manhã
talvez seja verdade que temos as mesmas asas dos pássaros
e que podemos ficar tão sós que nem a morte nos reconheça
tão inteiros como nenhuma outra árvore
tão sinceros como nenhum outro poema

todos os artistas criam
obras de arte
cânticos
bordados
peças tiradas à boca dos pássaros
brancura intacta de deus
a pedra crescente
um corpo imenso ocupando o silêncio
tecidos escritos à mão
e outras asas para prender o desejo
de ver tudo
todos os artistas criam
obras de arte
mas é tão pequeno este lugar
e ainda mais pequeno
o tempo que nos dão para amar o mundo
e todos os seus artistas
e todas as suas obras de arte
1 de abril de 2009
31 de março de 2009
acabamos sempre sozinhos
desenlacemos as mãos
fitemos as árvores do mundo
a água que inunda a última margem
do litoral
acabamos sempre sozinhos
enlacemos as mãos
sonhemos com os últimos grãos puros
da nossa sede
façamos desta morte suspensa
um poema para regressarmos
ao nosso primeiro beijo
acabamos sempre sozinhos
cortemos as nossas mãos
façamos delas trapézios para o desejo
e depois naufraguemos no primeiro instante feliz
acabamos sempre sozinhos
e o amor acaba sempre por ter razão
nunca se ama para possuir
ama-se para perseguir o sonho
de termos asas e alguma esperança
(quanto antes)
29 de março de 2009
28 de março de 2009

poema com jackson pollock
estamos os dois sem saber o que fazer
com as mãos
ouvindo música por dentro do vazio
escutando a voz de um dos deuses
que nos criaram
estamos os dois à espera que amanheça
ou que o novelo do caos
regresse à sua maré cheia
e nos deixe mais próximos do silêncio
porque é aí que se pode morrer em paz
porque é aí que o traço vago ganha o seu poema
e a palavra hesitante encontra a sua cor

eu sou pequeno
tão ínfimo
na minha palavra
minúscula
tão quase nada
que o universo
quase não dá
por mim
tão redondo
tão liso
que a água
passa por mim
e o vento
passa por mim
e passa por mim
a borboleta
e a estrela
cadente
mas existo
ainda assim
nesta boca pérola
com o búzio
silêncio
para os visitantes deste blogue, obrigado
27 de março de 2009

(ensaio para uma confissão do ciúme)
possuo-te como se não fosses apenas minha
como uma árvore de onde nasce a luz da manhã
feita de raízes dentro do meu coração
para a claridade de todo o mundo
és de todos quantos te querem ver
e se eu pudesse fechava-te no meu búzio
numa escuridão que acabava por te secar
24 de março de 2009

sei que há um gato algures que te quer mimar
um gato com coração de gaivota
um gato ave ou gato anjo
que tanto faz se a asa é para voar
ou para inventar a luz numa oração
sei que tenho de me chegar a ti
enquanto há primavera e vale a pena ver-te à janela
enquanto não te fechas dentro de casa
ou dentro de outro gomo do coração
sei que um gato algures podia ajudar-me
e quem diz um gato diz um poema
e quem diz um poema diz este
abraço
para a margarida flor
21 de março de 2009

a poesia veio ter comigo num dia de chuva
tinha o corpo molhado até à palavra mais ínfima
diria que era um dia triste
um dia para se morrer contra a janela do esquecimento
olhei para a poesia como quem fita o âmago de uma candeia acesa
mas no lugar da luz estava uma canção
no lugar da chama estava um bicho da seda
e dali saía o manto branco com que me vesti
aos poucos fui perdendo o frio
o sangue coagulado com a tristeza de haver apenas silêncio
comecei a acreditar no mistério do meu nome
na estrela que faz a noite parecer mais azul do que o mar
e com ele fui-me chamando para junto das flores e das pedras
como uma palavra acabada de caiar
enrolei-me na minha sombra
e esse casulo criou um verso para eu falar aos anjos
a partir desse dia nunca mais fiquei sozinho
e os anjos esses
apareceram com mais frequência à janela da minha casa
ao anjo joão pinto e aos anjos que me têm mostrado novas palavras
10 de março de 2009

as mãos criam o mundo
devagar
puxam da terra as estrelas
a pequenas coisas
que nos ajudam a sonhar
as mãos fiam e fiam
tudo o que nos há-de
cobrir
as roupas com que dançamos
o suor com que lavramos
os campos por florir
as mãos guardam os mistérios
as memórias e as cores
da tradição
guardam o nome das coisas
como quem protege um beijo
no coração
as mãos criam o mundo
devagar
e hão-de ser sempre elas
dobando e alando o caminho
com que havemos de perdurar
Subscrever:
Mensagens (Atom)





