28 de maio de 2009





a cidade faz-se de subterrâneas noites

suturando as partes desavindas da arquitectura

 

a cidade faz-se de candeeiros desabrigados

fingindo uma sombra sobre a solidão das horas

 

a cidade faz-se de palavras reservadas

aguardando a olorosa inquietação dos poetas

 

a cidade faz-se de escadas cambaleantes

abrindo um pórtico no chão do silêncio

20 de maio de 2009




hás-de me dizer
com quantas mãos
nos esquecemos

com quantas mãos
nos amamos

com quantas mãos
nos devolvemos
ao amor do silêncio







moinho de vento (qualquer um: de pé e alante)



és um pássaro de pedra

atado ao chão


não fosse o peso

do teu coração


o mesmo vento que

te meneia

na tua precisa

sonolência


no teu inquieto

murmúrio


levar-te-ia além da

colina


onde é possível

tocar a raiz do azul



in "a casadescrita"

19 de maio de 2009




Há dias por uma diferença de apenas dois votos e duas abstenções foi reprovado um diploma na Assembleia Legislativa Regional dos Açores que visava a legalização da Sorte de Varas na Ilha Terceira. Parece impossível como é que um assunto de tão óbvia barbárie mereça sequer discussão. Ainda bem que o assunto morreu na praia.

PS: Sei que este blogue é dedicado a outras palavras, normalmente em minúsculas incursões ao sonho da poesia, mas a vida dos animais também é poesia, perguntem ao São Francisco de Assis.

17 de maio de 2009





Acabou hoje o sufoco de quatro temporadas de Prison Break. Custou, mas a liberdade teve um preço, o preço que todos temos de pagar se queremos um mundo melhor.



tenho para te dar o meu corpo
despido de todas as palavras

o meu corpo como uma folha branca
para escrever nele o teu nome

e deixares que te cubra
se o inverno ainda te persegue







é uma viagem que tu não sabes como começou
um espaço imenso à tua volta
que te incendeia os sentidos

são fotografias que estão do outro lado do espelho
e uma música que solta a bombordo da tua alma
o pedaço de silêncio que te faltava

são sobretudo as palavras que te minavam as mãos
se quisesses mostrar o teu coração a alguém

e uma conta infinita de sonhos
cada um deles como uma árvore acabada de florir





16 de maio de 2009



Partilho convosco uma pequena maravilha... um presente de fim-de-semana. Enjoy!



I was lying in my bed last night
Staring at a ceiling full of stars
When it suddenly hit me
I just have to let you know how I feel

We live together in a photograph of time
I look into your eyes
And the seas open up to me
I tell you I love you
And I always will

And I know that you can't tell me
And I know that you can't tell me

So I'm left to pick up
The hints, the little symbols of your devotion
So I'm left to pick up
The hints, the little symbols of your devotion

I feel your fists
And I know it's out of love
And I feel the whip
And I know it's out of love
I feel your burning eyes burning holes
Straight through my heart

It's out of love
It's out of love

I accept and I collect upon my body
The memories of your devotion

I accept and I collect upon my body
The memories of your devotion

I feel your fists
And I know it's out of love
And I feel the whip
And I know it's out of love
I feel your burning eyes burning holes
Straight through my heart

It's out of love
It's out of love...

14 de maio de 2009






pões a tua mão nas coisas
simples do mundo

e a primavera acontece

como se bastasse apenas
acertar o jeito a algumas palavras
e às flores sobre a mesa



(parabéns susaninha)



Esta versão ao vivo da banda islandesa mostra como a poesia cabe em todo o lado!




há um caminho que nos faz acreditar
que nenhum esforço é vão

que todos os passos nos levam a um outro abraço
sempre maior

ou a outra fonte
onde a sede se apaga
como uma criança que adormece no meio do choro

há um caminho que espera por nós
e se faz dos nossos sonhos
enquanto estamos parados no meio do inverno

com as mãos frias e o coração fechado
como um ninho de melros à espera de outra canção

eu sei que a primavera é pontual como toda a manhã
e que não se importa com quantas árvores
o mundo a espera

mesmo que chova e que num ou noutro andamento
pareça que mova o mundo de lugar



(ensaio para um pensamento sobre a primavera)

10 de maio de 2009




No Espaço Contagiarte no Porto, está patente uma Exposição Fotográfica de Pepe, com textos da minha autoria. É o projecto embrionário que dará à luz em forma de livro-álbum, brevemente.

2 de maio de 2009



musée d'orsay



tudo pode caber
numa casa

uma gare para as mil
locomotivas dos
sonhos

um búzio
para os tesouros
do mundo

um relógio do tamanho
do tempo

vendo passar o rio
e a luz da
cidade




in "a casadescrita" - poema para a beta

27 de abril de 2009

Obrigado pelo amável interesse no meu livrinho "casadescrita"... fico feliz por saber que há alguém desse lado. Partilho convosco, um dos textos:



a casa escrita


a casa escrita

abre a sua grande janela

musical


deixa volutear as suas cortinas

brancas


como a orla de uma dança

cristalina


e chama as cotovias

a água primordial

do dia


o gato azul


para se sentar

no colo do poeta

24 de abril de 2009




Compus recentemente um livrinho de poemas com o nome "a casadescrita". É uma edição de autor, limitada a 25 exemplares. OFERTA para os cinco primeiros interessados deste blogue, basta escrever um mail para malbusca@me.com

15 de abril de 2009







talvez seja verdade que os pássaros morrem longe
que ninguém os vê abraçarem a eternidade
e largarem as asas para tomarem uma palavra
uma gota comunicante com a orla do infinito

talvez seja verdade que tudo o que basta é uma janela
um outro lado para onde possamos olhar
um espaço onde a luz ainda é feita a partir da paz
ou de outra qualquer forma encontrada com a manhã

talvez seja verdade que temos as mesmas asas dos pássaros
e que podemos ficar tão sós que nem a morte nos reconheça
tão inteiros como nenhuma outra árvore
tão sinceros como nenhum outro poema





todos os artistas criam
obras de arte

cânticos
bordados
peças tiradas à boca dos pássaros

brancura intacta de deus
a pedra crescente
um corpo imenso ocupando o silêncio

tecidos escritos à mão
e outras asas para prender o desejo
de ver tudo

todos os artistas criam
obras de arte

mas é tão pequeno este lugar
e ainda mais pequeno
o tempo que nos dão para amar o mundo

e todos os seus artistas
e todas as suas obras de arte

2 de abril de 2009

1 de abril de 2009





até amanhã
amanhã
quando voltarmos
a este lugar

com outro olhar
outro sabor no coração
outra palavra
para habitarmos
o poema

até amanhã
que sempre havemos de ser
amanhã

que não há limite
nem horizonte
para quem acredita

que fecha os olhos
e escolhe um sonho
para acordar
outra vez