21 de setembro de 2009



há uma criança brincando no baú das memórias

devastando o silêncio solene do esquecimento

de repente as coisas que antes eram portas fechadas

agora são cores que nos libertam da dor de morrer



17 de setembro de 2009




porque lá fora talvez encontres a razão de teres acordado
olhas da janela como se ainda não soubesses quem és

mas a verdade é que não vale a pena perder tempo à procura
daquilo que certamente trouxeste atado às mãos

um nome de um lugar que sonhaste esta noite
e uma casa noutro lugar onde tudo podia ser diferente

excepto o teu nome com cheiro de rosas e precipício de mar
capaz de abraçar o céu e inventar uma nova palavra

por isso fá-la tua e escreve um caminho na tua manhã

e sai

10 de setembro de 2009


UM POEMA PARA O PAI DO PAULO E PARA A MÃE DA PAULA



a árvore da vida assenta no chão fecundo do amor
e à volta dela todas as pequenas coisas contam
se o coração é puro e as asas continuam por achar

a árvore da vida cresce no meio das nossas promessas
e deixa-nos à sombra daquilo que poderíamos ter sido

a árvore da vida tem frutos que são pássaros
e pássaros que são palavras refulgentes

os nomes que havemos de dar aos nossos filhos
ou os livros com que o nosso ventre
há-de aprender a cerzir outra forma de sermos eternos

a árvore da vida é o passadiço para a morte subir até deus e dizer
afinal nada tem um fim e tudo isto é apenas outra forma de viver






(porque o peso das palavras é grande
preferia o abraço)

9 de setembro de 2009




capacito-me para o fim do verão
recolhendo as últimas imagens

cosendo as partes líquidas de um naufrágio
que se faz de uma tentação sem oceano

e adormeço antes que a noite se arboresça sobre nós
antes que a música se cale

e o frio regresse

5 de setembro de 2009





vejo-te como uma palavra a quem ainda não se deu um nome
uma altíssima constelação
cega do peso todo da noite

e no entanto quero abraçar-te
render-te nas minhas mãos e contar-te os lugares onde fui ver
se o mundo era apenas um búzio fechado

revela-te abre uma boca no teu rosto e diz-me
se és rosa papel argila ou pedra

que eu estou cego e já não vejo para além
da luz inicial da paixão


14 de agosto de 2009

NOVO LIVRO DE DANIEL GONÇALVES


Será lançado, durante o 25º Festival Maré de Agosto, o livro de fotografia de Pepe Brix e de poesia de daniel gonçalves. São 30 fotos de uma exposição sobre a Europa de Leste e poemas inspirados por esses lugares. Uma edição Labirinto. O lançamento ocorrerá dia 21 de Agosto na Ermida de Santo Amaro, Ilha de Santa Maria.





é uma viagem que não sabes como deflagrou

um espaço imenso à tua volta

que te incendeia os sentidos



fotografias que estão do outro lado do espelho

e uma música que solta a bombordo da tua alma

o pedaço de silêncio que te faltava



são sobretudo as palavras que te minavam as mãos

se quisesses mostrar o teu coração a alguém



e uma conta infinita de sonhos

cada um deles como uma árvore acabada de florir







(para adquirir o livro visite a casa da editora Labirinto, aqui)

21 de julho de 2009

amigos: iniciei um novo projecto, está apenas numa fase inicial, mas pode ser acompanhado em:

http://poemasvestidos.blogspot.com


um abraço, daniel.

16 de julho de 2009





a música é a poesia no seu expoente máximo
de loucura

porque irradia sem misericórdia
pela infinitude do universo

porque nos atravessa
e deixa um gosto amargo

a eternidade




TRIVIA: Fui a um concerto dos The Durutti Column, um espectáculo em homenagem a Tony Wilson, o mentor desta banda e fundador da mítica Factory Records. Estava lá na frente, a um metro dos músicos. I'm a lucky guy these days.


13 de julho de 2009





a voz é arrancada do coração
e solta no emerso amplexo
da noite

cala-se quando devia arrastar consigo
os pássaros todos do mundo

o coração de onde veio
tinha morrido de tristeza



TRIVIA: assisti à Premiére da Ópera PRIMA DONNA de Rufus Wainwright, na Opera Pallace Theatre em Manchester. Rufus estava lá, travestido de Verdi e o seu namorado de Puccini, glamorous!


9 de julho de 2009

momento com wordsworth em grasmere


Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass, of glory in the flower;
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind.

PS: os cemitérios em inglaterra são locais aprazíveis...
momento com sylvia plath em heptonstahl



I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful ‚
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.

4 de julho de 2009


INSTANTES EM ALBION:



1: Não se paga para visitar um museu.





2: Os anglicanos são mesmo cool.





3: Os Beatles estão presos ao merchandising louco de Liverpool.






4: Haja dinheiro para gastar...






5: O tempo cabe todo nesta terra.



Vi o concerto/espectáculo mais belo da minha vida. Creio que jamais verei outro assim. Foi absolutamente overwhelming! Antony cantou como só ele canta, mas a Camerata Orchestra of Manchester fez um trabalho fantástico com os arranjos de Nico Muhly e o espectáculo visual de Paul Normandale, Carl Robertshaw, Chris Levine e Emma Westerberg. Aquilo foi como estar emerso num sonho! Quem me dera dizer o que senti num poema: nunca mais escreveria outro.

PS: Manchester rules! É a capital da mini saia!

26 de junho de 2009



CARÍSSIMOS LEITORES E AMIGOS,


De 28 de Junho a 25 de Julho estarei em Manchester (UK) a frequentar um Curso de Escrita Criativa na Universidade de Manchester. A todos um bom verão com muita poesia e bons sonhos!

Um abraço, Daniel.

14 de junho de 2009






a terra dá-nos tudo o que
precisamos

e tudo aquilo de que estamos
à espera

basta amar as pedras
e as sementes

e os pássaros

e as abelhas


6 de junho de 2009

28 de maio de 2009





a cidade faz-se de subterrâneas noites

suturando as partes desavindas da arquitectura

 

a cidade faz-se de candeeiros desabrigados

fingindo uma sombra sobre a solidão das horas

 

a cidade faz-se de palavras reservadas

aguardando a olorosa inquietação dos poetas

 

a cidade faz-se de escadas cambaleantes

abrindo um pórtico no chão do silêncio

20 de maio de 2009




hás-de me dizer
com quantas mãos
nos esquecemos

com quantas mãos
nos amamos

com quantas mãos
nos devolvemos
ao amor do silêncio







moinho de vento (qualquer um: de pé e alante)



és um pássaro de pedra

atado ao chão


não fosse o peso

do teu coração


o mesmo vento que

te meneia

na tua precisa

sonolência


no teu inquieto

murmúrio


levar-te-ia além da

colina


onde é possível

tocar a raiz do azul



in "a casadescrita"