1 de outubro de 2009

versão 5

depois de alguns dias à volta deste poema, vestiu-se desta forma: a estrutura está pronta, falta, porventura limpar alguma imprecisão. tenho de o dedicar à sandra, obviamente, pela cumplicidade nas leituras. obrigado.


o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor

saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão

inútil como uma palavra à roda de um poema que não se iluminou


o vestido que trazes arruinou a sua bainha e desfiou-se a chorar

parece um jornal amarrotado uma película translúcida de silêncio

deixando ver as feridas nos joelhos o coração resistindo ao vento


passou de moda porque deixaste de te despir com a luz acesa

e o espelho já não alcança a parede onde havia um outro retrato


já não te serve porque esqueceste de mudar a água aos girassóis

e agora há uma escuridão que se enovela à volta da tua tristeza

pesando sobre os teus olhos como uma pedra tirada a um poço

ou uma música de embalar de onde se perdeu a letra e o sonhar


o vestido que trazes está perfumado de pérolas que se partiram

num excesso das sombras que musicam a vaivência da solidão


e como uma vinha a quem se arrancou o chão antes da vindima

pareces-me abreviada despida exangue impossível descosturada


28 de setembro de 2009

versão 4 (mais um detalhe à procura do fim)

o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor

saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão

inútil como uma palavra à roda de um poema que não se iluminou


o vestido que trazes arruinou a sua bainha e desfiou-se a chorar

parece um jornal amarrotado uma película translúcida de silêncio

deixando ver as feridas nos joelhos o coração resistindo ao vento


passou de moda porque deixaste de te despir com a luz acesa

e o espelho já não alcança a parede onde havia um outro retrato


já não te serve porque esqueceste de mudar a água aos girassóis

e agora há uma escuridão que se enovela à volta da tua tristeza

pesando sobre os teus olhos como uma pedra tirada a um poço

ou uma música de embalar de onde se perdeu a letra e o sonhar


o vestido que trazes está perfumado de pérolas que se partiram

num excesso das sombras que musicam a vaivência da solidão


e dói como dói

VERSÃO 3 (DEDICADA À SANDRA)


o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor

saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão

inútil como uma palavra à roda de um poema que não se iluminou


o vestido que trazes arruinou a sua bainha e desfiou-se a chorar

parece um jornal amarrotado uma película translúcida de silêncio

deixando ver as feridas nos joelhos o coração resistindo ao vento


passou de moda porque deixaste de te despir com a luz acesa

e o espelho já não alcança a parede onde havia um outro retrato


já não te serve porque esqueceste de mudar a água aos girassóis

e agora há uma escuridão que se enovela à volta da tua tristeza

pesando sobre os teus olhos como uma pedra tirada a um poço


24 de setembro de 2009



DO POEMÁRIO DO POEMÁRIO...

Partilho convosco a construção deste poema, momento a momento, até ser alguma coisa, próxima daquilo que foi o seu sonho.


DIA UM:



o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor

saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão

inútil como uma palavra à roda de um poema que não se iluminou


o vestido que trazes já não é teu há tanto tempo que o seu pretérito

é mais perfeito que a primeira vez que deixaste de ser transparente



DIA DOIS:



o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor

saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão

inútil como uma palavra à roda de um poema que não se iluminou


o vestido que trazes arruinou a sua bainha e desfiou-se a chorar

parece um jornal amarrotado uma película translúcida de silêncio

deixando ver as feridas nos joelhos o coração resistindo ao vento


passou de moda porque deixaste de te despir com a luz acesa

e o espelho já não alcança a parede onde havia um outro retrato


21 de setembro de 2009



há uma criança brincando no baú das memórias

devastando o silêncio solene do esquecimento

de repente as coisas que antes eram portas fechadas

agora são cores que nos libertam da dor de morrer



17 de setembro de 2009




porque lá fora talvez encontres a razão de teres acordado
olhas da janela como se ainda não soubesses quem és

mas a verdade é que não vale a pena perder tempo à procura
daquilo que certamente trouxeste atado às mãos

um nome de um lugar que sonhaste esta noite
e uma casa noutro lugar onde tudo podia ser diferente

excepto o teu nome com cheiro de rosas e precipício de mar
capaz de abraçar o céu e inventar uma nova palavra

por isso fá-la tua e escreve um caminho na tua manhã

e sai

10 de setembro de 2009


UM POEMA PARA O PAI DO PAULO E PARA A MÃE DA PAULA



a árvore da vida assenta no chão fecundo do amor
e à volta dela todas as pequenas coisas contam
se o coração é puro e as asas continuam por achar

a árvore da vida cresce no meio das nossas promessas
e deixa-nos à sombra daquilo que poderíamos ter sido

a árvore da vida tem frutos que são pássaros
e pássaros que são palavras refulgentes

os nomes que havemos de dar aos nossos filhos
ou os livros com que o nosso ventre
há-de aprender a cerzir outra forma de sermos eternos

a árvore da vida é o passadiço para a morte subir até deus e dizer
afinal nada tem um fim e tudo isto é apenas outra forma de viver






(porque o peso das palavras é grande
preferia o abraço)

9 de setembro de 2009




capacito-me para o fim do verão
recolhendo as últimas imagens

cosendo as partes líquidas de um naufrágio
que se faz de uma tentação sem oceano

e adormeço antes que a noite se arboresça sobre nós
antes que a música se cale

e o frio regresse

5 de setembro de 2009





vejo-te como uma palavra a quem ainda não se deu um nome
uma altíssima constelação
cega do peso todo da noite

e no entanto quero abraçar-te
render-te nas minhas mãos e contar-te os lugares onde fui ver
se o mundo era apenas um búzio fechado

revela-te abre uma boca no teu rosto e diz-me
se és rosa papel argila ou pedra

que eu estou cego e já não vejo para além
da luz inicial da paixão


14 de agosto de 2009

NOVO LIVRO DE DANIEL GONÇALVES


Será lançado, durante o 25º Festival Maré de Agosto, o livro de fotografia de Pepe Brix e de poesia de daniel gonçalves. São 30 fotos de uma exposição sobre a Europa de Leste e poemas inspirados por esses lugares. Uma edição Labirinto. O lançamento ocorrerá dia 21 de Agosto na Ermida de Santo Amaro, Ilha de Santa Maria.





é uma viagem que não sabes como deflagrou

um espaço imenso à tua volta

que te incendeia os sentidos



fotografias que estão do outro lado do espelho

e uma música que solta a bombordo da tua alma

o pedaço de silêncio que te faltava



são sobretudo as palavras que te minavam as mãos

se quisesses mostrar o teu coração a alguém



e uma conta infinita de sonhos

cada um deles como uma árvore acabada de florir







(para adquirir o livro visite a casa da editora Labirinto, aqui)

21 de julho de 2009

amigos: iniciei um novo projecto, está apenas numa fase inicial, mas pode ser acompanhado em:

http://poemasvestidos.blogspot.com


um abraço, daniel.

16 de julho de 2009





a música é a poesia no seu expoente máximo
de loucura

porque irradia sem misericórdia
pela infinitude do universo

porque nos atravessa
e deixa um gosto amargo

a eternidade




TRIVIA: Fui a um concerto dos The Durutti Column, um espectáculo em homenagem a Tony Wilson, o mentor desta banda e fundador da mítica Factory Records. Estava lá na frente, a um metro dos músicos. I'm a lucky guy these days.


13 de julho de 2009





a voz é arrancada do coração
e solta no emerso amplexo
da noite

cala-se quando devia arrastar consigo
os pássaros todos do mundo

o coração de onde veio
tinha morrido de tristeza



TRIVIA: assisti à Premiére da Ópera PRIMA DONNA de Rufus Wainwright, na Opera Pallace Theatre em Manchester. Rufus estava lá, travestido de Verdi e o seu namorado de Puccini, glamorous!


9 de julho de 2009

momento com wordsworth em grasmere


Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass, of glory in the flower;
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind.

PS: os cemitérios em inglaterra são locais aprazíveis...
momento com sylvia plath em heptonstahl



I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful ‚
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.

4 de julho de 2009


INSTANTES EM ALBION:



1: Não se paga para visitar um museu.





2: Os anglicanos são mesmo cool.





3: Os Beatles estão presos ao merchandising louco de Liverpool.






4: Haja dinheiro para gastar...






5: O tempo cabe todo nesta terra.



Vi o concerto/espectáculo mais belo da minha vida. Creio que jamais verei outro assim. Foi absolutamente overwhelming! Antony cantou como só ele canta, mas a Camerata Orchestra of Manchester fez um trabalho fantástico com os arranjos de Nico Muhly e o espectáculo visual de Paul Normandale, Carl Robertshaw, Chris Levine e Emma Westerberg. Aquilo foi como estar emerso num sonho! Quem me dera dizer o que senti num poema: nunca mais escreveria outro.

PS: Manchester rules! É a capital da mini saia!

26 de junho de 2009



CARÍSSIMOS LEITORES E AMIGOS,


De 28 de Junho a 25 de Julho estarei em Manchester (UK) a frequentar um Curso de Escrita Criativa na Universidade de Manchester. A todos um bom verão com muita poesia e bons sonhos!

Um abraço, Daniel.

14 de junho de 2009






a terra dá-nos tudo o que
precisamos

e tudo aquilo de que estamos
à espera

basta amar as pedras
e as sementes

e os pássaros

e as abelhas


6 de junho de 2009