18 de fevereiro de 2010

APRESENTAÇÃO DA OBRA " rumores para a transparência do silêncio" em destaque no programa AÇORES VIP (RTP AÇORES)



Esta semana fui distinguido com o Prémio de Poesia Manuel Alegre (Instituto Politécnico de Leiria)! Sinto-me muito feliz pelo reconhecimento e ao mesmo tempo orgulhoso por ter este poeta (o meu presidente), que tanto estimo, associado a um trabalho meu. O livro "um coração simples" contém cinco andamentos: um coração simples, palavras no recontorno da cor (com emerenciano), a casadescrita e poemas vestidos - há ainda um último, mas existe como epígrafe, apenas, para dizer "ainda bem que existem poetas melhores que eu".

Para todos aqueles que visitam este espaço o meu obrigado pelo apoio e a partilha do prémio, também.

9 de fevereiro de 2010

POEMA (QUASE) COM TOULOUSE-LAUTREC



dir-te-ia que as minhas mãos sabem bem o que é uma mulher nua
com o tempo foram sonhando esse deslumbramento
como dois cometas pincelando uma coisa extraordinária

dir-te-ia que não é preciso expor todos os detalhes
que a mulher é transparente na sua silhueta errante
quando se move no quarto à procura do perfume do amor


28 de janeiro de 2010



estou cansado como quem acabou de saber que tinha morrido
a vida toda nos meus braços e com ela
todo o tempo que podia ter sido

sento-me nos escombros da casa que não acabei
desfaço as mãos as palavras
agora que não preciso mais delas

se fosse possível adormecia ao contrário
prendia-me a um pássaro e ia cair longe
no meio de uma árvore incandescente

no entanto nada é fácil e tudo se avoluma
como uma tarde que está prestes a cair redonda em chuva

sento-me calo-me fumo um cigarro a meias com o silêncio
engasgo-me na tristeza e arrependo-me de ter envelhecido


17 de janeiro de 2010




o inverno dura quase todo o ano assim que fechas a porta de casa
talvez porque a casa é grande demais para o que esperas da noite
ou deixaste de acreditar que depois da morte há um lugar melhor

enrolas-te no cobertor e acendes a lareira com os livros de viagens
a música faz-te alguma companhia às vezes pareces falar sozinho
o disco que acabou de girar riscando o silêncio no trapézio do frio

adormeces tão lentamente que reconheces como tudo acontece
sílaba a sílaba um pensamento tranquilo desliza na água do sonho

de dia tens tudo para andar apressado mas as tuas pernas pesam
a tua cabeça anda ocupada a contar árvores e avenidas despidas
procuras alguém como tu mas é difícil perceber quem passa feliz
os nomes das pessoas ficam cabisbaixos no meio de tanta chuva

contudo há sempre um café onde salvas uma porção de felicidade
ninguém te espera mas é assim mesmo que se saboreia um café

depois tens o fim de tarde com os cães dos outros o vento gelado
o cachecol ronronando em vez de um gato à volta do teu pescoço

15 de janeiro de 2010

ELEGIA COM UM CHARCO ACESO DE CHUVA (e outras observações)


a chuva é a mais óbvia metáfora da tristeza
e por causa disso é que os poetas já não a trazem para
um poema que falasse - sei lá - de amor ou de inexistência

os poetas agora são muito cuidadosos em pôr apenas
aquilo que porventura camões nunca terá ousado pensar
num soneto ou num amanhecer a bordo da nau
que o naufragou de volta a lisboa

a chuva é uma coisa bonita de se ver
e quando se junta num charco é como uma palavra perfeita

os poetas agora têm medo de palavras perfeitas
e preferem as palavras que ouvem em qualquer rua
rastejando à porta dos cafés com a porcaria do chão

a chuva é uma palavra que vem do céu
e traz com ela uma rima interessante
expletiva - logo divina - sem mão que a tivesse desatado
da deslumbrada nuvem

os poetas agora gostam de ser eles a desatar o que é poesia ou não
e depois olham para trás e julgam os outros poetas
olhando-os de uma janela que não caberia
em casas que não foram feitas para terem janelas
quando muito uma mansarda cega
virada para a miséria do silêncio

a chuva encharcou-se de repente à minha volta
e apeteceu-me chorar
que é como quem diz - lembrar-me do tempo
em que não me importava de ser esta figura triste e destroçada
porque quando chegava a casa sabia que podia escrever-te um poema
que falava disso tudo com apenas uma ou duas palavras
tiradas precisamente à chuva
e tu entendias e tu adoravas porque sabias que era de ti que falava

agora os poetas preferem sentar-se à mesa dos cafés
e troçar das pessoas que tropeçam nos charcos do chão
fazendo poemas como quem acrescenta mais um corpo
ao obituário dos dias
sem que ninguém perceba alguma música algum recado
algum sentido

12 de janeiro de 2010



o inverno cai sobre mim vindo de todos os lados
corroendo a música que restou do natal
como uma pedra que nos cobre
e cujo peso não sabemos se nos mata ou nos esquece




11 de janeiro de 2010

POEMA PARA ME PERDOAR DA MINHA AUSÊNCIA (OU NÃO)


estou deste lado
fui eu quem me trouxe até aqui
eras pequena demasiado pequena para me segurar as pernas
e dizer-me uma palavra que me travasse a loucura

estou deste lado e deste lado te tenho visto crescer
ora turva ora mágica
a tua estatura se fazendo do brilho com que o teu rosto
se imaginou dentro de mim

e tudo o resto foi sendo apenas um lugar perene
um verso de uma palavra só
sem rima nem peso na arquitectura do silêncio

estou deste lado e é deste lado que sempre te amei
sem poder dizer-to no preciso momento em que adormeces
que é quando essas coisas contam
pois não há nada a perdoar-se nem ninguém a ser perdoado

apenas o sonho que se aproxima
e os cobertores que aconchegam a curva escura do cansaço

estou deste lado e deste lado
fui lamentando toda a vida o lugar onde estou

porque estive aí
tão perto

e vim-me embora

5 de janeiro de 2010

POEMA DE ANO NOVO COM ROBERT DOISNEAU




tenho um poema para te dizer
enquanto há tempo para nos redimirmos
do tempo que perdemos
à espera um do outro

tenho um poema para te dizer
como não sei nenhum outro poema
para além deste

que tudo quanto te posso dar
é a minha mão
aliviada da dor de pensar

como um papel suturado pelo silêncio
de o amor ser uma arte difícil

e não haver palavras que carreguem o peso
de não sabermos como amar como
da primeira vez





PS: Para maccc e Ana Lamego

3 de janeiro de 2010



10 COISAS QUE QUERO FAZER EM 2010

1. Usar o fio dental de uma vez por todas;
2. Ver o fim da série LOST;
3. Queimar a buzina do meu carro quando o Benfica for campeão;
4. Montar os meus IKEAS sem me sobrar nenhuma peça (tenho a casa toda para mobilar assim);
5. Jogar à bola sem trazer para casa uma rotura muscular;
6. Fazer 35 anos e não pensar que no tempo em que festejavam o dia dos meus anos é que era bom;
7. Acabar de ler o romance O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS (vai para dez anos que o comecei);
8. Usar a bicicleta e ter uma desculpa para comprar uns ténis novos (obviamente por desgaste);
9. Usar menos a internet;
10. Vender mais de 10 livros.

PS: Podem dar uma ajudinha? Passem por uma livraria! Um abraço!

27 de dezembro de 2009



Terça-feira, dia 29 de Dezembro, pelas 18 horas, na Livraria Capítulos Soltos, o poeta João Ricardo Lopes apresenta o poemário fotográfico de minha autoria (parceria com o fotógrafo Pepe Brix).

Apareçam!

26 de dezembro de 2009



O ano de 2009 foi como qualquer outro. Com coisas boas e coisas menos boas. Como sempre sobra o que esteve perto da poesia... Guardo com carinho a recente amizade com Luandino Vieira e os lançamentos do livro RUMORES (Santa Maria, Lisboa, Santo Tirso). Espero que 2010 seja um ano de poesia, também!

17 de dezembro de 2009

LANÇAMENTOS EM DOSE DUPLA









Depois da apresentação em Lisboa, na Livraria Pó dos Livros, no passado dia 21 de Novembro, eis que o meu mais recente livro será apresentado no Norte, finalmente. Em Santo Tirso é já no dia 22 de Dezembro, pelas 19 horas na Biblioteca Municipal, com apresentação do Professor António Oliveira e sete dias depois, a 29 de Dezembro, em Braga, na Livraria Capítulos Soltos, pelas 18 horas, estando a apresentação a cargo do poeta João Ricardo Lopes.

Os livros estarão à venda a um preço especial de lançamento na Biblioteca de Santo Tirso. Apareçam e levem uma prenda de Natal convosco!

Um abraço natalício, Daniel.

29 de novembro de 2009

REGRESSAR À NORMALIDADE


Decidi há dias regressar ao tempo em que comunicava por carta. Decidi regressar à normalidade de um tempo em que os amigos eram verdadeiros e a única coisa virtual era a própria palavra virtual. Amigos eram os que correspondiam e se davam ao trabalho de colar um selo com a sua língua...

Acabei com o Facebook e com o Twitter. Não doeu nada, pelo contrário, senti uma espécie de alívio. Não vou ter pena dos duzentos e tal amigos... deixei lá o meu endereço. Quando sentirem a minha falta, é só escreverem-me. Contam-me então todas as coisas que os deixam felizes, apenas aquelas que interessam e nada de quintas virtuais! E depois eu respondo sempre, sempre e mando prendinhas também.

Mantenho-me, contudo, neste blogue. É uma coisa minha nem que seja apenas para mim, embora saiba que há muitas pessoas que o lêem. A elas deixo o meu carinho e a vontade que me escrevam, também. E depois, já sabem, respondo sempre.

Um abraço, Daniel.

12 de novembro de 2009






nem sempre estamos juntos
nem sempre nos recolhemos na mesma concha

nem sempre percorremos o mesmo mapa
nem sempre apanhamos as mesmas pedras do caminho

nem sempre beijamos com a mesma boca
nem sempre nem sempre

nem sempre escutamos o tempo desavindo
nem sempre repetimos a nossa manhã perfeita

nem sempre havemos de compreender porquê
porquê nem sempre porquê nem sempre




(para a BETA)

8 de novembro de 2009




tenho estado à espera de um beijo teu
como se nada mais importasse neste mundo injusto


5 de novembro de 2009



lembra-me da primeira vez
era inverno pela metade ainda
a noite tão longa e tão pouco tempo

lembra-me da primeira vez
havia incensos e velas que estavam apagadas na sua cintilação
mas iluminavam de maçã e canela o teu quarto

lembra-me da primeira vez
o teu quarto era a tua casa
cabiam os teus livros as minhas cartas a nossa espera

lembra-me da primeira vez
desenhámos nas nossas mãos o caminho que queríamos traçar
o mapa que depois havíamos de entornar sobre as nossas próprias bocas

lembra-me da primeira vez
eu lembro apenas que quase esqueci


24 de outubro de 2009


Ut liceat nobis tota perducere uita

aeternum hoco sanctae foedus amicitiae.


e que nos seja dado, a vida inteira, sempre

este pacto viver de amor sagrado.


(Catulo)



e se não tenho mais nada

que tenha ao menos

esta palavra


guardada como o único beijo

que sobrou do silêncio


uma palavra como um

gerânio


contra toda a ferocidade

do inverno


uma palavra: o teu

nome



16 de outubro de 2009

quase que esqueci o verão
agora que tropeço nas folhas breves
os cheiros nómadas dos dióspiros

só me resta a mão fechada
e dentro dela

a última ameia da praia

1 de outubro de 2009

versão 5

depois de alguns dias à volta deste poema, vestiu-se desta forma: a estrutura está pronta, falta, porventura limpar alguma imprecisão. tenho de o dedicar à sandra, obviamente, pela cumplicidade nas leituras. obrigado.


o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor

saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão

inútil como uma palavra à roda de um poema que não se iluminou


o vestido que trazes arruinou a sua bainha e desfiou-se a chorar

parece um jornal amarrotado uma película translúcida de silêncio

deixando ver as feridas nos joelhos o coração resistindo ao vento


passou de moda porque deixaste de te despir com a luz acesa

e o espelho já não alcança a parede onde havia um outro retrato


já não te serve porque esqueceste de mudar a água aos girassóis

e agora há uma escuridão que se enovela à volta da tua tristeza

pesando sobre os teus olhos como uma pedra tirada a um poço

ou uma música de embalar de onde se perdeu a letra e o sonhar


o vestido que trazes está perfumado de pérolas que se partiram

num excesso das sombras que musicam a vaivência da solidão


e como uma vinha a quem se arrancou o chão antes da vindima

pareces-me abreviada despida exangue impossível descosturada