Mais uma vez tive o prazer de fazer parte de um programa da RTP Açores e desta vez foi no formato do programa PROVA DAS NOVE. O responsável pelo convite foi o jornalista e escritor Rui Goulart: a ele o meu agradecimento e louvor pela qualidade do programa. Confesso que estava muito ansioso (leia-se nervoso) pois aquilo era em directo e os temas algo distantes daquilo que motiva o poeta e, afinal de contas, terá sido o poeta a ser convidado. Fica aqui um cheirinho.
5 de março de 2010
26 de fevereiro de 2010
Reportagem Telejornal (24 de Fevereiro)
Amigos, não é por vaidade que partilho isto... mas há tanta gente por terras de Viriato que me tem pedido para ver as reportagens da RTP Açores acerca do que vou fazendo por cá. Aqui vai. Com um abraço e muita saudade, como sempre.
Reportagem Telejornal (22 de Fevereiro)
Apontamento no programa "Bom Dia Açores"
19 de fevereiro de 2010

ir ao musée d'orsay é colher um lenço enorme de seda
que nos cobre as lágrimas quando nos cortamos
ou nos dói a tristeza (a nossa ou a de alguém que nos
deu a mão para que a escutássemos - respirando com dificuldade
porque a ferida nasce no coração e sai pelos sete buracos da cabeça)
foi assim há dois verões: lembro-me como se fosse agora mesmo
o degas e os outros todos mas sobretudo o degas e as suas bailarinas
tão pequeninas tão rodopiantes tão vivas tão azuis
neste momento preciso tanto dessa memória alada
preciso que ela me ajude a aquecer este chá de tília
(o mesmo que tomavas quando resumias o lado mais infeliz da tua vida)
preciso que degas me acompanhe neste silêncio
e me murmure pelo menos uma palavra que aqueça este inverno
uma palavra que podia ser um movimento um perfume uma chama
uma palavra que coubesse na minha mão e te ajudasse a correr de novo
e se calhar conseguisse que o teu coração voltasse a ser grande
maior que o teu corpo inteiro
essa árvore com que chegas ao céu e ficas à procura dos teus anjos
PARA A AUGUSTA
18 de fevereiro de 2010

Esta semana fui distinguido com o Prémio de Poesia Manuel Alegre (Instituto Politécnico de Leiria)! Sinto-me muito feliz pelo reconhecimento e ao mesmo tempo orgulhoso por ter este poeta (o meu presidente), que tanto estimo, associado a um trabalho meu. O livro "um coração simples" contém cinco andamentos: um coração simples, palavras no recontorno da cor (com emerenciano), a casadescrita e poemas vestidos - há ainda um último, mas existe como epígrafe, apenas, para dizer "ainda bem que existem poetas melhores que eu".
Para todos aqueles que visitam este espaço o meu obrigado pelo apoio e a partilha do prémio, também.
9 de fevereiro de 2010
POEMA (QUASE) COM TOULOUSE-LAUTREC

dir-te-ia que as minhas mãos sabem bem o que é uma mulher nua
com o tempo foram sonhando esse deslumbramento
como dois cometas pincelando uma coisa extraordinária
dir-te-ia que não é preciso expor todos os detalhes
que a mulher é transparente na sua silhueta errante
quando se move no quarto à procura do perfume do amor
28 de janeiro de 2010

estou cansado como quem acabou de saber que tinha morrido
a vida toda nos meus braços e com ela
todo o tempo que podia ter sido
sento-me nos escombros da casa que não acabei
desfaço as mãos as palavras
agora que não preciso mais delas
se fosse possível adormecia ao contrário
prendia-me a um pássaro e ia cair longe
no meio de uma árvore incandescente
no entanto nada é fácil e tudo se avoluma
como uma tarde que está prestes a cair redonda em chuva
sento-me calo-me fumo um cigarro a meias com o silêncio
engasgo-me na tristeza e arrependo-me de ter envelhecido
17 de janeiro de 2010

o inverno dura quase todo o ano assim que fechas a porta de casa
talvez porque a casa é grande demais para o que esperas da noite
ou deixaste de acreditar que depois da morte há um lugar melhor
enrolas-te no cobertor e acendes a lareira com os livros de viagens
a música faz-te alguma companhia às vezes pareces falar sozinho
o disco que acabou de girar riscando o silêncio no trapézio do frio
adormeces tão lentamente que reconheces como tudo acontece
sílaba a sílaba um pensamento tranquilo desliza na água do sonho
de dia tens tudo para andar apressado mas as tuas pernas pesam
a tua cabeça anda ocupada a contar árvores e avenidas despidas
procuras alguém como tu mas é difícil perceber quem passa feliz
os nomes das pessoas ficam cabisbaixos no meio de tanta chuva
contudo há sempre um café onde salvas uma porção de felicidade
ninguém te espera mas é assim mesmo que se saboreia um café
depois tens o fim de tarde com os cães dos outros o vento gelado
o cachecol ronronando em vez de um gato à volta do teu pescoço
talvez porque a casa é grande demais para o que esperas da noite
ou deixaste de acreditar que depois da morte há um lugar melhor
enrolas-te no cobertor e acendes a lareira com os livros de viagens
a música faz-te alguma companhia às vezes pareces falar sozinho
o disco que acabou de girar riscando o silêncio no trapézio do frio
adormeces tão lentamente que reconheces como tudo acontece
sílaba a sílaba um pensamento tranquilo desliza na água do sonho
de dia tens tudo para andar apressado mas as tuas pernas pesam
a tua cabeça anda ocupada a contar árvores e avenidas despidas
procuras alguém como tu mas é difícil perceber quem passa feliz
os nomes das pessoas ficam cabisbaixos no meio de tanta chuva
contudo há sempre um café onde salvas uma porção de felicidade
ninguém te espera mas é assim mesmo que se saboreia um café
depois tens o fim de tarde com os cães dos outros o vento gelado
o cachecol ronronando em vez de um gato à volta do teu pescoço
15 de janeiro de 2010
ELEGIA COM UM CHARCO ACESO DE CHUVA (e outras observações)

a chuva é a mais óbvia metáfora da tristeza
e por causa disso é que os poetas já não a trazem para
um poema que falasse - sei lá - de amor ou de inexistência
os poetas agora são muito cuidadosos em pôr apenas
aquilo que porventura camões nunca terá ousado pensar
num soneto ou num amanhecer a bordo da nau
que o naufragou de volta a lisboa
a chuva é uma coisa bonita de se ver
e quando se junta num charco é como uma palavra perfeita
os poetas agora têm medo de palavras perfeitas
e preferem as palavras que ouvem em qualquer rua
rastejando à porta dos cafés com a porcaria do chão
a chuva é uma palavra que vem do céu
e traz com ela uma rima interessante
expletiva - logo divina - sem mão que a tivesse desatado
da deslumbrada nuvem
os poetas agora gostam de ser eles a desatar o que é poesia ou não
e depois olham para trás e julgam os outros poetas
olhando-os de uma janela que não caberia
em casas que não foram feitas para terem janelas
quando muito uma mansarda cega
virada para a miséria do silêncio
a chuva encharcou-se de repente à minha volta
e apeteceu-me chorar
que é como quem diz - lembrar-me do tempo
em que não me importava de ser esta figura triste e destroçada
porque quando chegava a casa sabia que podia escrever-te um poema
que falava disso tudo com apenas uma ou duas palavras
tiradas precisamente à chuva
e tu entendias e tu adoravas porque sabias que era de ti que falava
agora os poetas preferem sentar-se à mesa dos cafés
e troçar das pessoas que tropeçam nos charcos do chão
fazendo poemas como quem acrescenta mais um corpo
ao obituário dos dias
sem que ninguém perceba alguma música algum recado
algum sentido
12 de janeiro de 2010
11 de janeiro de 2010
POEMA PARA ME PERDOAR DA MINHA AUSÊNCIA (OU NÃO)

estou deste lado
fui eu quem me trouxe até aqui
eras pequena demasiado pequena para me segurar as pernas
e dizer-me uma palavra que me travasse a loucura
estou deste lado e deste lado te tenho visto crescer
ora turva ora mágica
a tua estatura se fazendo do brilho com que o teu rosto
se imaginou dentro de mim
e tudo o resto foi sendo apenas um lugar perene
um verso de uma palavra só
sem rima nem peso na arquitectura do silêncio
estou deste lado e é deste lado que sempre te amei
sem poder dizer-to no preciso momento em que adormeces
que é quando essas coisas contam
pois não há nada a perdoar-se nem ninguém a ser perdoado
apenas o sonho que se aproxima
e os cobertores que aconchegam a curva escura do cansaço
estou deste lado e deste lado
fui lamentando toda a vida o lugar onde estou
porque estive aí
tão perto
e vim-me embora
5 de janeiro de 2010
POEMA DE ANO NOVO COM ROBERT DOISNEAU

tenho um poema para te dizer
enquanto há tempo para nos redimirmos
do tempo que perdemos
à espera um do outro
tenho um poema para te dizer
como não sei nenhum outro poema
para além deste
que tudo quanto te posso dar
é a minha mão
aliviada da dor de pensar
como um papel suturado pelo silêncio
de o amor ser uma arte difícil
e não haver palavras que carreguem o peso
de não sabermos como amar como
da primeira vez
PS: Para maccc e Ana Lamego
3 de janeiro de 2010

10 COISAS QUE QUERO FAZER EM 2010
1. Usar o fio dental de uma vez por todas;
2. Ver o fim da série LOST;
3. Queimar a buzina do meu carro quando o Benfica for campeão;
4. Montar os meus IKEAS sem me sobrar nenhuma peça (tenho a casa toda para mobilar assim);
5. Jogar à bola sem trazer para casa uma rotura muscular;
6. Fazer 35 anos e não pensar que no tempo em que festejavam o dia dos meus anos é que era bom;
7. Acabar de ler o romance O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS (vai para dez anos que o comecei);
8. Usar a bicicleta e ter uma desculpa para comprar uns ténis novos (obviamente por desgaste);
9. Usar menos a internet;
10. Vender mais de 10 livros.
PS: Podem dar uma ajudinha? Passem por uma livraria! Um abraço!
27 de dezembro de 2009
26 de dezembro de 2009
17 de dezembro de 2009
LANÇAMENTOS EM DOSE DUPLA


Depois da apresentação em Lisboa, na Livraria Pó dos Livros, no passado dia 21 de Novembro, eis que o meu mais recente livro será apresentado no Norte, finalmente. Em Santo Tirso é já no dia 22 de Dezembro, pelas 19 horas na Biblioteca Municipal, com apresentação do Professor António Oliveira e sete dias depois, a 29 de Dezembro, em Braga, na Livraria Capítulos Soltos, pelas 18 horas, estando a apresentação a cargo do poeta João Ricardo Lopes.
Os livros estarão à venda a um preço especial de lançamento na Biblioteca de Santo Tirso. Apareçam e levem uma prenda de Natal convosco!
Um abraço natalício, Daniel.
29 de novembro de 2009
REGRESSAR À NORMALIDADE

Decidi há dias regressar ao tempo em que comunicava por carta. Decidi regressar à normalidade de um tempo em que os amigos eram verdadeiros e a única coisa virtual era a própria palavra virtual. Amigos eram os que correspondiam e se davam ao trabalho de colar um selo com a sua língua...
Acabei com o Facebook e com o Twitter. Não doeu nada, pelo contrário, senti uma espécie de alívio. Não vou ter pena dos duzentos e tal amigos... deixei lá o meu endereço. Quando sentirem a minha falta, é só escreverem-me. Contam-me então todas as coisas que os deixam felizes, apenas aquelas que interessam e nada de quintas virtuais! E depois eu respondo sempre, sempre e mando prendinhas também.
Mantenho-me, contudo, neste blogue. É uma coisa minha nem que seja apenas para mim, embora saiba que há muitas pessoas que o lêem. A elas deixo o meu carinho e a vontade que me escrevam, também. E depois, já sabem, respondo sempre.
Um abraço, Daniel.
12 de novembro de 2009

nem sempre estamos juntos
nem sempre nos recolhemos na mesma concha
nem sempre percorremos o mesmo mapa
nem sempre apanhamos as mesmas pedras do caminho
nem sempre beijamos com a mesma boca
nem sempre nem sempre
nem sempre escutamos o tempo desavindo
nem sempre repetimos a nossa manhã perfeita
nem sempre havemos de compreender porquê
porquê nem sempre porquê nem sempre
(para a BETA)
5 de novembro de 2009

lembra-me da primeira vez
era inverno pela metade ainda
a noite tão longa e tão pouco tempo
lembra-me da primeira vez
havia incensos e velas que estavam apagadas na sua cintilação
mas iluminavam de maçã e canela o teu quarto
lembra-me da primeira vez
o teu quarto era a tua casa
cabiam os teus livros as minhas cartas a nossa espera
lembra-me da primeira vez
desenhámos nas nossas mãos o caminho que queríamos traçar
o mapa que depois havíamos de entornar sobre as nossas próprias bocas
lembra-me da primeira vez
eu lembro apenas que quase esqueci
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