8 de setembro de 2010




numa noite como esta são transparentes as flores
e equidistantes os esquecimentos e as candeias
com que vemos ao longe os nossos primeiros passos

numa noite como esta o tempo pensa na eternidade
e todos os horizontes vêem a sua morte adiada
como as árvores têm música quando chega abril

numa noite como esta é possível encontrar o amor
como se deus viesse de novo ocupar a sua casa
e pôr no sítio certo as palavras deixadas ao acaso 

numa noite como esta em que ambos adormecemos
como na última noite em que a nossa infância se deitou

voltamos a acreditar que a lua é apenas outro anjo
outro cavalo outro baloiço outro sorriso outra oração


31 de agosto de 2010





em setembro ponho o meu corpo sobre o relvado do jardim
como um lençol de linho quase muito antigo
aproveitando as últimas gotas do sol do verão

e fico ali pasmado com o lento recuar do dia
e alguns pássaros que começam a voar
tranquilos de não terem ainda de morrer

em setembro começo a poupar nas palavras
e amealho na boca todos os frutos que imagino caírem ao chão

acredito então que um poema pode ser como um doce
no pão ressequido do silêncio





22 de junho de 2010





vou desistir desta ilha de silêncio e de sabores de prata
vou desamordaçar os meus sentidos de tanto preto e branco
e o amor vou soltá-lo da palavra
da árvore e do chão

vou para o sul do sul
vou com os pássaros que vão passando velozes
e mesmo assim reparam em mim

como um poste solitário no meio do nada
com o corpo do avesso e o coração parado

28 de maio de 2010



esse rio na selva é o único poço onde podes ser transparente
o rio que te obriga a despir a inquietação de seres pequeno
e te permite ser deus com apenas dois remos e uma candeia

nessa viagem compreendes as coisas que sempre te pesaram
aceita-las como quem concorda com a hora da morte e sorri
esvazia os bolsos e acrescenta os trocos mal geridos da vida

o rio é muito mais que uma artéria serpenteando e circulando
corpo de água que nunca irrompeu nem nunca se dissolveu
escrinventando nas margens as raízes com que o teu silêncio
há-de crescer até ser a única meditação que te arrepia a pele

os teus sentidos são uma chama que respira nas tuas mãos
fechas as mãos e apagas tudo quanto te desacomoda a alma

e depois és igual a uma canoa que prospera na escuridão
um corpo que é um poema líquido doçura solvente de sonho






in "um segundo é passado" daniel gonçalves 2010

14 de maio de 2010




assim como quem se deita na terra e fica a olhar o céu
sem nenhum peso no olhar
além do conforto de saber que as nuvens jamais cairão sobre nós

assim como quem mergulha no mar
e se deixa ir ao fundo
recolhendo a imensa paz que vem de sermos apenas uma gota

assim como quem se cala na imensa catedral do silêncio
e fica a escutar um a um o sopro que o coração debita sobre
os nossos sonhos

assim desta maneira
me guardo para ti

para estar limpo e inviolável
na hora de te abraçar



(Susana, desculpa ter passado a hora de te dizer os parabéns: mas tu sabes que o meu amor por ti não tem hora, nem dia...)

6 de maio de 2010


como um búzio perfeito proteges o teu coração
deitas-te na terra e escutas o primeiro sinal do amor

enquanto o mundo procura arrancar-te as asas
e dilacerar-te com o silêncio o ardor do teu desejo

19 de abril de 2010







tanta coisa à minha volta tudo sempre girando
tanta coisa para saber tanta coisa para aprender

e tanto te posso contar tanto te posso ir revelando
tanta coisa de tanta coisa que nem eu sei dizer

tudo isto tem um nome? tudo isto tem um lugar?
de onde vem tudo isto? hei-de um dia saber?

para tudo há um propósito com tudo te vais admirar
que a vida é um mistério que fica por responder...

achas que sou capaz de chegar ali? e ali? ali e ali?
quero ir a todo o lado... a todo o lado quero chegar...

tu és grande... vais ver que a grandeza está em ti...
às vezes basta fechar os olhos e querer sonhar...

10 de abril de 2010




antes era sempre tudo melhor
havia todo o espaço do mundo à nossa frente
agora esse espaço somos nós
a ocupar cada centímetro quadrado desse sonho
e ver que não sobra espaço para acordarmos

antes era sempre tudo melhor
até aquilo que ainda não era
que agora há este travo amargo na boca
de termos deixado arrefecer a comida
e o vinho ter azedado para lá da embriaguez

antes era sempre tudo melhor
davas-te conta que eu existia em toda a tua volta
e agora apenas tropeças em mim
se tens de correr para adormecer sozinha
ou precisas de alguém para te pintar a casa

antes era sempre tudo melhor
por isso se morrer agora não me importa nada
fui feliz antes de o ser e pude antecipar
com a triste amargura de quem sabe
que nada se repete nem nada se aperfeiçoa

4 de abril de 2010







Há uma casa. A casa é pequena e as suas janelas ainda a fecham mais porque o que se vê lá fora é muito longe. Dentro da casa estão os livros e a música que toca sem ocupar espaço nas prateleiras. Dentro da casa metade das coisas podiam arder agora mesmo. Ele não chorava. Ele está parado a pensar se há-de dormir ou pegar fogo a metade das coisas que o rodeiam. Pegava em tudo e fazia uma escada de fogo até ao céu, bem no centro do ainda mais pequeno jardim, acabando de vez com a azálea que nunca deu flor.
Ele está a pensar em tudo isto e dá-se conta que isso tudo é afinal mais uma porção do nada que foi o seu dia. Um dia empurrando a carroça pesada do silêncio. O estar só. O querer estar só como uma sobriedade arrancada à força do chão, com pouca terra a sujar as mãos, apenas uns fios transparentes, lembrando raízes de água. Ele fecha o livro. Nunca mais o acaba. É pesado para as suas mãos cansadas. Passaram o dia a medir o desconsolo dos olhos e da boca, quem sabe dos ombros que já não carregam mais nada. O tempo. Apenas o tempo que passa tão devagar, tão devagar... que dava para lhe sentir o gosto a eternidade.

27 de março de 2010





a primavera hoje deu de si e esvaziou o seu coração de chuva
sobre mim

estou agora como uma flor de lótus do avesso
mergulhada na irrespiração do silêncio

estou agora como uma árvore sem nome
sem sombra

à espera do verão



26 de março de 2010





talvez nunca tenha amado
talvez nunca tenha saído deste círculo
onde o amor é uma fotografia boiando numa fonte

talvez nunca tenhas sido mais que uma canção
daquelas que nos repartem o coração
com o lado mais inclinado do silêncio

talvez tenha perdido tempo à espera de saber
se o amor é aquilo que nos prende à vida
e se a morte é apenas outra inspiração

talvez nunca tenha amado
talvez tenha esquecido que amar
é uma sorte que apenas chama os loucos

e que os loucos lembram tão mal
que são felizes

23 de março de 2010

DUAS SEQUÊNCIAS DEPOIS DE "MARY & MAX"





há sempre alguém que tem uma vida miserável
muito mais que a tua
e mesmo que morras há sempre alguém que morre ainda mais que tu

há sempre alguém que despercebe o mundo mais do que alguma vez
despercebeste

há sempre alguém que tem mais dúvidas que tu e nessas dúvidas
consegue sonhar mais do que alguma vez sonhaste

há sempre alguém do outro lado do mundo
a ver as mesmas coisas que tu

e nesse lado do mundo fica a pensar que o mundo
não passa daquela porta

há sempre alguém muito mais pequeno que tu
tão pequeno que consegue ser ainda mais nada que tu

por isso faz a única coisa que te pode salvar
vá lá

come um chocolate
UM DIA NA PRAIA



um dia na praia havemos de contar as vezes
que fomos felizes

teremos o mar que for preciso
para compor o que nos faltou

e o tempo de uma tarde que finge ser eterna
para nos anteciparmos à morte
e desenharmos o resto da nossa vida

18 de março de 2010

sei que não vale a pena dizer nada
o nada está feito do que é

PENSAMENTO COM AGATHA BELAYA (para a Sandra)



a nossa casa podia ser do tamanho das vezes que a quisemos grande
uma enorme cúpula de água sobre o nosso amor

ou apenas uma janela aberta

e uma cadeira para escutarmos a primavera lá fora
e ronronarmos com o perfume de não haver mais nada

15 de março de 2010





VOU DIZER-TE ESTE QUADRO DE CHAGALL



primeiro: eu estou no quadro e sou tudo quanto vês
a aparente felicidade o amor umbilical a minha juventude
exposta como uma buganvília que ganha asas de um dos lados da casa

segundo: tu também estás no quadro mas não és a óbvia mulher que flutua
estás no meu coração onde te sou fiel
e o teu nome é o poema contínuo que não me deixa morrer

terceiro: uma cidade ou uma aldeia que importa agora
se estamos a meio do verão
com tempo para ver crescer a ilusão de que somos eternos





14 de março de 2010




há muito que eu não sou um corpo
sou uma ilha

e no centro de mim tenho um mar que se afunda
e me alisa o rosto

aos poucos vou encolhendo como um vestido
que se usou na comunhão solene

e não falta muito deixará de servir
e não falta muito será apenas uma recordação

muito antiga

11 de março de 2010


imagem de piinnkkii



o que faz de mim um bom ou um mau poeta?
o grande poeta dizia que como ele havia cem mil génios se concebendo em sonhos
e eu nem isso

os meus sonhos são mais simples:
tenho um pomar libertado ainda ontem no meu quintal
fruta que há-de dar sombra e água na boca do chão

contudo sou poeta
dizem-me que ando distraído e perdoam-me por isso
e por causa disso também me sorriem como se eu fosse anormal
acenando às nuvens ou às flores ou a outra coisa
que prenda o olhar dos distraídos

bom ou mau? quem diz afinal?
o próprio poema quando se perfila contra o silêncio
o blogue do crítico a selecção do jornal
ou o telefonema do editor a dizer que a dívida está paga?

8 de março de 2010




basta pensar no teu nome no teu nome rodeado pelo teu rosto
e as tuas mãos como água na minha boca
calando para sempre a minha tristeza

basta pensar no teu lilás profundo na noite maravilhosa
eterna como cada vestido que tiras do teu coração

basta pensar na música (uma estação de metro no deserto da noite
e uma cidade vazia) e a nossa dança tão ansiosa por chegar a casa

basta pensar no tempo que foi nosso e na nossa vida
passada num instante de quase nada
basta ter havido o teu amor

(bastou isso)

5 de março de 2010




Mais uma vez tive o prazer de fazer parte de um programa da RTP Açores e desta vez foi no formato do programa PROVA DAS NOVE. O responsável pelo convite foi o jornalista e escritor Rui Goulart: a ele o meu agradecimento e louvor pela qualidade do programa. Confesso que estava muito ansioso (leia-se nervoso) pois aquilo era em directo e os temas algo distantes daquilo que motiva o poeta e, afinal de contas, terá sido o poeta a ser convidado. Fica aqui um cheirinho.