17 de maio de 2009





é uma viagem que tu não sabes como começou
um espaço imenso à tua volta
que te incendeia os sentidos

são fotografias que estão do outro lado do espelho
e uma música que solta a bombordo da tua alma
o pedaço de silêncio que te faltava

são sobretudo as palavras que te minavam as mãos
se quisesses mostrar o teu coração a alguém

e uma conta infinita de sonhos
cada um deles como uma árvore acabada de florir





16 de maio de 2009



Partilho convosco uma pequena maravilha... um presente de fim-de-semana. Enjoy!



I was lying in my bed last night
Staring at a ceiling full of stars
When it suddenly hit me
I just have to let you know how I feel

We live together in a photograph of time
I look into your eyes
And the seas open up to me
I tell you I love you
And I always will

And I know that you can't tell me
And I know that you can't tell me

So I'm left to pick up
The hints, the little symbols of your devotion
So I'm left to pick up
The hints, the little symbols of your devotion

I feel your fists
And I know it's out of love
And I feel the whip
And I know it's out of love
I feel your burning eyes burning holes
Straight through my heart

It's out of love
It's out of love

I accept and I collect upon my body
The memories of your devotion

I accept and I collect upon my body
The memories of your devotion

I feel your fists
And I know it's out of love
And I feel the whip
And I know it's out of love
I feel your burning eyes burning holes
Straight through my heart

It's out of love
It's out of love...

14 de maio de 2009






pões a tua mão nas coisas
simples do mundo

e a primavera acontece

como se bastasse apenas
acertar o jeito a algumas palavras
e às flores sobre a mesa



(parabéns susaninha)



Esta versão ao vivo da banda islandesa mostra como a poesia cabe em todo o lado!




há um caminho que nos faz acreditar
que nenhum esforço é vão

que todos os passos nos levam a um outro abraço
sempre maior

ou a outra fonte
onde a sede se apaga
como uma criança que adormece no meio do choro

há um caminho que espera por nós
e se faz dos nossos sonhos
enquanto estamos parados no meio do inverno

com as mãos frias e o coração fechado
como um ninho de melros à espera de outra canção

eu sei que a primavera é pontual como toda a manhã
e que não se importa com quantas árvores
o mundo a espera

mesmo que chova e que num ou noutro andamento
pareça que mova o mundo de lugar



(ensaio para um pensamento sobre a primavera)

10 de maio de 2009




No Espaço Contagiarte no Porto, está patente uma Exposição Fotográfica de Pepe, com textos da minha autoria. É o projecto embrionário que dará à luz em forma de livro-álbum, brevemente.

2 de maio de 2009



musée d'orsay



tudo pode caber
numa casa

uma gare para as mil
locomotivas dos
sonhos

um búzio
para os tesouros
do mundo

um relógio do tamanho
do tempo

vendo passar o rio
e a luz da
cidade




in "a casadescrita" - poema para a beta

27 de abril de 2009

Obrigado pelo amável interesse no meu livrinho "casadescrita"... fico feliz por saber que há alguém desse lado. Partilho convosco, um dos textos:



a casa escrita


a casa escrita

abre a sua grande janela

musical


deixa volutear as suas cortinas

brancas


como a orla de uma dança

cristalina


e chama as cotovias

a água primordial

do dia


o gato azul


para se sentar

no colo do poeta

24 de abril de 2009




Compus recentemente um livrinho de poemas com o nome "a casadescrita". É uma edição de autor, limitada a 25 exemplares. OFERTA para os cinco primeiros interessados deste blogue, basta escrever um mail para malbusca@me.com

15 de abril de 2009







talvez seja verdade que os pássaros morrem longe
que ninguém os vê abraçarem a eternidade
e largarem as asas para tomarem uma palavra
uma gota comunicante com a orla do infinito

talvez seja verdade que tudo o que basta é uma janela
um outro lado para onde possamos olhar
um espaço onde a luz ainda é feita a partir da paz
ou de outra qualquer forma encontrada com a manhã

talvez seja verdade que temos as mesmas asas dos pássaros
e que podemos ficar tão sós que nem a morte nos reconheça
tão inteiros como nenhuma outra árvore
tão sinceros como nenhum outro poema





todos os artistas criam
obras de arte

cânticos
bordados
peças tiradas à boca dos pássaros

brancura intacta de deus
a pedra crescente
um corpo imenso ocupando o silêncio

tecidos escritos à mão
e outras asas para prender o desejo
de ver tudo

todos os artistas criam
obras de arte

mas é tão pequeno este lugar
e ainda mais pequeno
o tempo que nos dão para amar o mundo

e todos os seus artistas
e todas as suas obras de arte

2 de abril de 2009

1 de abril de 2009





até amanhã
amanhã
quando voltarmos
a este lugar

com outro olhar
outro sabor no coração
outra palavra
para habitarmos
o poema

até amanhã
que sempre havemos de ser
amanhã

que não há limite
nem horizonte
para quem acredita

que fecha os olhos
e escolhe um sonho
para acordar
outra vez

31 de março de 2009



acabamos sempre sozinhos
desenlacemos as mãos
fitemos as árvores do mundo
a água que inunda a última margem
do litoral

acabamos sempre sozinhos
enlacemos as mãos
sonhemos com os últimos grãos puros
da nossa sede

façamos desta morte suspensa
um poema para regressarmos
ao nosso primeiro beijo

acabamos sempre sozinhos
cortemos as nossas mãos
façamos delas trapézios para o desejo
e depois naufraguemos no primeiro instante feliz

acabamos sempre sozinhos
e o amor acaba sempre por ter razão

nunca se ama para possuir
ama-se para perseguir o sonho

de termos asas e alguma esperança
(quanto antes)










tirei de mim o mais útil segredo
e agora estou despido
com o mar à porta

nem cesariny me pode salvar
do silêncio


(versos evidentes: com radiohead)

29 de março de 2009



(depois de ver o filme THE DOG PROBLEM)



a vida é uma negociação delicada
e o amor é uma moeda
com que podemos pagar
a inventação do futuro

certos de que é preciso sair de casa
e deixar tudo para trás

certos de que alguém espera por nós
um cão um livro um lugar uma pessoa


28 de março de 2009




poema com jackson pollock


estamos os dois sem saber o que fazer
com as mãos

ouvindo música por dentro do vazio
escutando a voz de um dos deuses
que nos criaram

estamos os dois à espera que amanheça
ou que o novelo do caos
regresse à sua maré cheia

e nos deixe mais próximos do silêncio
porque é aí que se pode morrer em paz

porque é aí que o traço vago ganha o seu poema
e a palavra hesitante encontra a sua cor








eu sou pequeno
tão ínfimo
na minha palavra
minúscula

tão quase nada
que o universo
quase não dá
por mim

tão redondo
tão liso
que a água
passa por mim

e o vento
passa por mim
e passa por mim
a borboleta
e a estrela
cadente

mas existo
ainda assim
nesta boca pérola
com o búzio
silêncio




para os visitantes deste blogue, obrigado

27 de março de 2009


(ensaio para uma confissão do ciúme)


possuo-te como se não fosses apenas minha
como uma árvore de onde nasce a luz da manhã
feita de raízes dentro do meu coração
para a claridade de todo o mundo

és de todos quantos te querem ver
e se eu pudesse fechava-te no meu búzio
numa escuridão que acabava por te secar

24 de março de 2009




sei que há um gato algures que te quer mimar
um gato com coração de gaivota

um gato ave ou gato anjo
que tanto faz se a asa é para voar
ou para inventar a luz numa oração

sei que tenho de me chegar a ti
enquanto há primavera e vale a pena ver-te à janela
enquanto não te fechas dentro de casa
ou dentro de outro gomo do coração

sei que um gato algures podia ajudar-me
e quem diz um gato diz um poema

e quem diz um poema diz este
abraço




para a margarida flor





21 de março de 2009



a poesia veio ter comigo num dia de chuva
tinha o corpo molhado até à palavra mais ínfima
diria que era um dia triste
um dia para se morrer contra a janela do esquecimento

olhei para a poesia como quem fita o âmago de uma candeia acesa
mas no lugar da luz estava uma canção
no lugar da chama estava um bicho da seda
e dali saía o manto branco com que me vesti

aos poucos fui perdendo o frio
o sangue coagulado com a tristeza de haver apenas silêncio

comecei a acreditar no mistério do meu nome
na estrela que faz a noite parecer mais azul do que o mar
e com ele fui-me chamando para junto das flores e das pedras
como uma palavra acabada de caiar

enrolei-me na minha sombra
e esse casulo criou um verso para eu falar aos anjos

a partir desse dia nunca mais fiquei sozinho
e os anjos esses
apareceram com mais frequência à janela da minha casa






ao anjo joão pinto e aos anjos que me têm mostrado novas palavras

10 de março de 2009


as mãos criam o mundo
devagar

puxam da terra as estrelas
a pequenas coisas
que nos ajudam a sonhar

as mãos fiam e fiam
tudo o que nos há-de
cobrir

as roupas com que dançamos
o suor com que lavramos
os campos por florir

as mãos guardam os mistérios
as memórias e as cores
da tradição

guardam o nome das coisas
como quem protege um beijo
no coração

as mãos criam o mundo
devagar

e hão-de ser sempre elas
dobando e alando o caminho
com que havemos de perdurar

1 de março de 2009



piolhinho piolhaço vou-te fazer coçar todo o mês de março...

ó infância, onde andas?

22 de fevereiro de 2009




(porta aberta para revolutionary road)



o que queres que a tua vida seja?
que casa queres habitar
e que aniversário prender na correnteza do tempo
que imagem de ti que abraço que sonho?

o que podes desejar se tens à tua frente
todos os sonhos possíveis
expostos como as folhas que caem
porque o outono arrefece o coração das árvores?

o que queres que a tua vida seja?
um desenho numa folha branca
uma porção de luz salvando a noite do vazio
um caminho que se faz desligando o olhar?

o que podes desejar se tens à tua frente
precisamente aquilo que foste buscar à terra
a mesma oração com que sagraste a casa
os filhos que tomaste do silêncio?

o que queres que a tua vida seja?
achas que podes desligar o peso de deus nestas coisas
que não há anjos te guiando o precipício
puxando para trás soprando-te para a frente?

o que podes desejar se tens à tua frente
o peso da morte com o peso do esquecimento
lembrando-te o poema com que acordas
a respiração que te faz quem és?

o que queres que a tua vida seja?
não tens outra não há outra
só esta que já é menos a cada instante
à espera que aproveites o que te é dado

e deseja então não mais que o que já tens
as desgraças todas e mais as dos outros
o mundo tal como ele é
onde todo o amor é possível


21 de fevereiro de 2009



encontrei finalmente o meu coração
não estava dentro do meu peito
batendo serenamente contra a morte
nem sequer no botão de rosa
fulgurosa metáfora de paixão

encontrei finalmente o meu coração
depois de tantas palavras a guardá-lo
e de todas as músicas que o encolheram
até não ser mais que uma estrela
com a sua infinita cintilação

encontrei finalmente o meu coração
e não era nada do que os poetas diziam
não era capaz de guardar a eternidade
quando muito um segundo incendiado
um momento tirado do ventre do verão

encontrei finalmente o meu coração
pintei-o de luz: um vermelho inviolável
uma centelha tirada do fundo da terra
depois estendi-o no meu colo deitei-lhe água
dei-lhe uma semente e envolvi-o em algodão



20 de fevereiro de 2009


não digo a cor

que essa tem a sua asa solta no mar

por mais que uma ilha seja feita de flores

ou de pedras ou de torpor

 

não digo a cor

que a noite também a guarda

por mais que durmamos no relento do cansaço

e um anjo se tenha prometido na carne do amor

 

não digo a cor

que o vestido com que te foste embora

ficou nas palavras com que te acenaste

e no silêncio sussurrado ao pormenor

 

não digo a cor

digo o espaço digo o imenso horizonte

digo o soluço que me prende as mãos

e no lugar da palavra deixa um rumor



(primeira versão: para o joão pinto)

5 de fevereiro de 2009




(no dia das amigas - coisa açoriana...)



amo-te da mesma maneira como respiro
esse amor que uns chamam de rosas no inverno
e outros a quem ousam pôr asas e ternura de algodão




4 de fevereiro de 2009

(poema com mário cesariny: como uma canção desesperada)




estou a dizer-te que já todos os poetas inventaram o amor
que nas minhas mãos o amor é apenas silêncio que vaza

que o amor não pode ser mais belo do que este verso:
antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa

estou a dizer-te que se tinha que te escrever uma carícia
nenhuma palavra há que não tenha quebrado já a sua asa

talvez acabes por perceber na doçura de todo este carinho
que não tenho mais música por onde possas subir até mim
ou madressilvas para te estenderes por todo o meu verão

estou a dizer-te que nunca soube dizer-te como te amar
como se regressasse a um instante em que fui apenas pedra
ou borboleta impassível colorindo o seu efémero coração

estou a dar-te à boca as poucas carícias que saem da minha
como se eu pudesse inventar um verso no lugar de um beijo
e talvez acreditasse que o amor tem sempre um novo aluvião




poema publicado na antologia OS DIAS DO AMOR - depois da generosidade da Inês Ramos

28 de janeiro de 2009





há uma dor que atravessa os anos acumulados
a fome do tempo que nenhuma eternidade promete

uma ferida aberta aos sentidos deslocados
amplexos desfocados de sofrimento

e uma canção que dói
quando todas as outras já não suportam
terem sido um momento feliz

e uma canção que dói
como todos os gestos que já não cabem mais
nesse corpo que morre

tão devagar que dá para sentir
a sombra ondulante da morte se chegando

como as pétalas da primeira ovação
quando o mundo sabia o teu nome
como quem sabe os acordes de um verão quente


19 de janeiro de 2009



Ela sorriu e ele foi atrás

Ela despiu-o e ela o satisfaz

Passa a noite

passa o dia devagar

já é dia

já é hora de voltar

Aqui ao luar ao pé de ti

ao pé do mar

só o sonho fica

só ele pode ficar





MORRER COM 39 ANOS? Isso é crime!

18 de janeiro de 2009




o tempo tem uma forma estranha de nos dizer
que estamos a mais num dado segundo

puxa-nos pela mão e afasta-nos violentamente das coisas que amamos
apaga-nos a música que estávamos ouvindo
o instante em que tudo parecia perfeito

e o sol no cume de novembro
mais doce que o primeiro amor

assim como quem nos bate com a porta na cara
de uma casa que sempre foi nossa
e que agora nem podemos ver de fora

assim como quem risca da nossa frente
o caminho que tínhamos escolhido

deixando tudo para trás: até o berlinde mais pequeno
até o berlinde mais gasto
rodando
rodando


rufus está na minha manhã como o vento
deste inverno furioso

e é o chá tomado entre as mãos
um carinho efémero em cada instante eterno


14 de janeiro de 2009



dentro do teu corpo
há um barco que te puxa

as mãos que são as tuas asas
a boca que é a tua rosa aberta
à procura do fogo

dentro do teu corpo
há um barco que te navega

as palavras que não dizes
o silêncio com que tropeças
na solidão

dentro do teu corpo 
há um barco que te rodeia

o sangue que te respira
o amor que desenhas
com um suspiro



(para o pepe - ensaio primeiro)

3 de janeiro de 2009

já que não estavas ao pé de mim
fui buscar-te ao poema
onde te escondi pela primeira vez

o vinicius sabe bem como é o cântico
a página onde parámos os dois
para ver o sol girar
já estava à espera que nos voltássemos a encontrar
assim me mantive vivo nos últimos anos

deixei-me ficar nesta rua
nesta rua onde foste a mais lilás das assombrações

e acabei por me parecer com a paragem do autocarro
onde todos se abrigam e protegem do tempo que passa

foram apenas alguns anos
apenas uma vida que dava para habitar todo um sonho
uma vida que somada ao silêncio
fazia o livro de poesia mais triste de sempre

e contudo bastou para que me crescessem estas asas
que batem agora contra o vento do inverno

como uma árvore que interrompe
a respiração da cidade

a mesma cidade onde fomos felizes por um instante
um instante apenas

tão pouco tão pouco
tão pouco



25 de dezembro de 2008





muitos só poderão ver o filme SEVEN POUNDS em 2009: senti-me um daqueles que decidi o que é oscarizável ou não: for your consideration only. tudo para dizer que chorei com três meses de antecedência. e o óscar ia direitinho para este filme. assim. sem mais interferências.



23 de dezembro de 2008

volta tudo ao mesmo lugar
ao mesmo nome com que chamamos as nossas rosas

volta tudo ao mesmo sentido imperceptível da tristeza
ao quarto fechado pela lado impossível da noite

volta tudo a ter uma mão por onde se puxe o soluço
por onde a chuva doa mais
como um vidro que nos amputa a palavra

e deixamos de ter a poesia do nosso lado
para escutarmos apenas o silêncio
não posso dizer outra coisa
que não seja esta porção de palavras
acostumadas à sombra

e deixar a minha voz suspender-se
como o outono atrás de mim

sem outro ofício que o da tristeza
que é feliz
como todas as outras formas
de arte
não entendo esta língua
não lhe encontro a raiz
a casa o ancoradouro a asa

ouço-lhe a música
fito-lhe a vibração
a doçura

e deixo-me desentender
de todos sentidos

pondo o meu coração
à escuta




já que não estavas ao pé de mim
fui buscar-te ao poema
onde te escondi pela primeira vez

o vinicius sabe bem como é o cântico
a página onde parámos os dois
para ver o sol girar

22 de dezembro de 2008




não gosto do natal: sou mesmo contra o natal
detesto esta confusão que se faz entre o sagrado e o profano
onde um é pretexto para o outro
e onde o outro mede a tristeza e o engano todo deste mundo

não gosto de ver os presépios montados com os reis magos
e com o menino jesus todo sueco
e são josé e maria vestidos como fidalgos renascentistas
e tanta estupidez à volta de luzes 
que piscam e piscam para distrair o povo da miséria

mas o que eu detesto mesmo são mensagens de natal
daquelas que vêm formatadas às centenas
a bater no telemóvel

e o que detesto ainda mais
mesmo mesmo mais

é estar tão longe do são joão
isso sim é que é festa

com luzes alegria e sobretudo
verão

21 de dezembro de 2008





tudo começa com a involuntária loucura das mãos
a revelação encoberta da arte
que nos aproxima demasiado do paraíso

e depois vem a libélula de deus
colocar um centro magnífico
na espera da luz

para que vejamos de onde tudo parte
para que tudo tenha um nome

para que saibamos que há pedras neste mundo
e rosas também

sobretudo rosas
(de ninguém)





para o carlos vaz (com imagem de emerenciano)




o que eu precisava agora
era de um pessegueiro
e de um céu carregado de nada

leve (tudo leve)
para não sentir mais nada

apenas o perfume exacto da
natureza

a terra crescendo na sua medida
certa

e eu por baixo
a sonhar


(para o alberto caeiro: com sortilégio)

6 de novembro de 2008




PARA O POMPEU... NO DIA 5 DE NOVEMBRO (MÊS DE POETAS ESTE NOVEMBRO)



no tempo em que festejamos o dia dos nossos anos
tudo é possível:

a manhã atravessa o silêncio da espera
e beija-nos no rosto inviolável da poesia

uma palavra imensa descobre o seu areal infinito
e faz-se ilha dentro do ventre azul do sonho

no tempo em que festejamos o dia dos nossos anos
tudo é possível:

o sal retoma o seu lugar no coração do tempo
e preserva a memória mais doce

e tudo pode ser reencontrado por dentro de um abraço
até a semente do girassol que nos morreu na boca

4 de novembro de 2008



POEMA COM FOTO DE PEPE (SEGUNDA VERSÃO - TRANSPIRADA)




íamos os dois no mesmo caminho
ignorando o acender da manhã

tínhamos a noite atrás de nós
o esquecimento das coisas infelizes
o silêncio triste e a ferida suturada da distância

íamos os dois na mesma palavra
à procura do mesmo verso

um poema que nos desse o resto do amor
o amor de que apenas conhecemos a respiração
as mãos e uma ou outra música incandescente

íamos os dois na evidência da nossa sede
buscar a água às cidades que desenhámos no nosso sonho

as cidades onde nos permitem voar
as cidades onde as ruas têm candeeiros
como finas heras sobre o medo de estarmos sós

íamos os dois à procura da nossa vida
como se nunca tivéssemos vivido

olhando à volta da nossa frente
todas as coisas pela primeira vez

de mãos atadas e olhos transparentes
para que nenhum instante se perdesse

nunca mais




(4 novembro 2008)

14 de setembro de 2008



há uma cidade exposta
para os nossos sentidos

uma cidade que se revela
na cintilação delicada
do silêncio

há uma cidade em cada caminhada
comungando desta tristeza

apertando-nos o coração
contra o cansaço da saudade




in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe


a cidade prendeu-me a esta janela
e deu-me uma camisa de insónia
para vestir o meu cansaço

olho a cidade que perdeu agora as entrelinhas
as paredes tatuadas nas palavras desidratadas
o peso dos gatos das estrelas
e percebo que a noite é a remissão de todas as misérias

para os velhos cuja fome se dilui
no mistério do sono

para as escadas que deixam de levar
os abreviados os prostrados
as pétalas das rosas impossíveis de despir

e para mim
que tropeço na saudade da árvore onde nasci




in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe


podes estar sozinho
mas a oração do teu silêncio
nunca há-de ser só tua

também as pedras
a fina luz de seda
os bancos alinhados
na solidão

escutam esse começo de deus
que é uma voz sussurrar-se dentro de nós
contra o vazio



in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe


ouves ao longe um estremecer de primavera
no cume do frio da manhã

é uma mulher tocando uma concertina
um alaúde uma árvore de afectos
ou um gato azul

pouco te importa a água em que se move
se o que te prende agora
e te transforma uma vez mais o rosto
é a nitidez honesta do sorriso

uma mulher que te chamou de longe
para te dizer que te conhece
porque o teu sorriso

é como o dela



in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe


há escadas que nos levam para o coração das cidades
como travessias que se inclinam para a raiz da terra

há escadas que tocam a música das casas inabitadas
escadas indigentes escadas panfletos escadas mistérios
violoncelando a inevitável sobrevivência da morte

há escadas ao longo das vitrinas aquosas que nos iluminam
escadas que nos voltam as páginas toldadas de tristeza
e nos expõem alguma paz subtraindo ao odor da solidão
o gosto amargo de estarmos suspensos na mesma palavra

e há escadas lembrando a posição solene das floreiras
que nos sobem e descem a saudade de haver árvores



in "rumores para a transparência do silêncio" 2008 - com foto pepe

23 de julho de 2008

peço desculpa pela ausência: mas dois livros se criaram entretanto -  o tempo e a fortuna dirão se bem vindos ou não.

entretanto a minha vida vai entrar de férias e deslocar-se por aí, festivamente.

um abraço, daniel.

5 de junho de 2008



nem uma palavra aqui deixada quis ser um poema
todas elas vieram ao silêncio
puxar um horizonte de sentidos

uns sobrepostos
outros aladamente soltos

no lilás do sonho

16 de maio de 2008



Caros amigos, convido-vos a assistirem à apresentação de Pompeu Miguel Martins do "meu" livro "dez anos de solidão". Ponte da Barca, 21.30, dia 19 de Maio.

Um abraço a todos!

8 de maio de 2008

(especialmente para AQF - que nenhuma poesia do mundo se perca)



esta é a casa onde hás-de morar
meu querido poema

no meio de tantas palavras
tantas tantas
que não hás-de ser mais que o começo do mundo

ínfimo e distante
perdido no meio do silêncio

de todas as outras
coisas

7 de maio de 2008



é o piano que traz a paz a esta casa
como uma alma de cristal
que inventa a luz por dentro dos nossos corações

e a música que estremece no nosso silêncio
é um sopro que deus deixa nos nossos sonhos

é o piano que nos senta na mesma mesa
e nos dá à boca uma refeição pontual de eternidade

até nos enlaçarmos tanto tanto tanto
que nada mais nos espera lá fora



(para a catarina e a margarida)

2 de maio de 2008


série chagall (terceiro)


podíamos ter chegado a deus
se soubéssemos o nome das flores que colhemos

se no amor nos tivéssemos debotado
como quem põe palavras onde antes havia azul

podíamos ter sido um só anjo
uma só canção

um só verso

série chagall (segundo)


há amantes para todos os tons de azul:

como conchas no insondável mistério da paz
como beijos e beijos na espuma volátil do desejo
como noite como sede como chagall



série chagall (primeiro)


há um mistério em cada azul que pomos no silêncio
uma janela aberta ao coração da noite

tão bela a noite cintilando no mais puro amor
tão bela a noite por onde nos chega a cor do sonho


30 de abril de 2008



podemos estar desfocados pelo tempo
ou perdidos na imensa escuridão do silêncio

podemos adormecer sem saber se vamos acordar
e acordar sem saber se vamos adormecer

podemos esquecer todos os nomes do mundo
e apagar todas as casas onde vivemos

podemos morrer as vezes que quisermos
e nesse esquecimento perder as nossas raízes

podemos ter gasto as nossas forças à procura
e nunca ter encontrado outra paz igual a esta:

um irmão nascido a meio caminho dos sonhos
do mesmo sangue que dá vida à eternidade


(para o pi - 29 de abril)

23 de abril de 2008

UM PENSAMENTO E MEIO


e se as histórias para crianças fossem de leitura obrigatória para os adultos?

seríamos capazes de fazer aquilo que passamos a vida a ensinar?


(josé saramago)

19 de abril de 2008



(no dia do meu aniversário)


caminho sozinho e encontro de frente todo o meu tempo gasto
o que choro de tristeza dá para molhar as calçadas todas das cidades do mundo
mas não estou infeliz

há apenas esta gota de revolta no algodão frágil da felicidade
a nódoa cinzenta de estar sozinho
no lugar que dá para a beleza das coisas mais doces

há apenas este silêncio semibreve como uma canção de inverno
trazendo frio aos pássaros e às pedras das margens do pensamento

há apenas esta solidão que fere e que me fecha a boca
a mesmíssima boca de onde esperas os meus beijos
e os meus poemas e as minhas promessas de amor

que dirás quando tudo se calar?

14 de abril de 2008

podes estar sozinho

mas a oração do teu silêncio

nunca há-de ser só tua

 

também as pedras

a fina luz de seda

os bancos alinhados na solidão

 

escutam esse começo de deus

que é uma voz sussurrar-se dentro de nós

contra o vazio

25 de março de 2008

esta noite se pudesse reparava os meus erros
perdia todas estas manhãs que entretanto se passaram

e dava tudo tudo tudo tudo o que julguei ter ganho

só para vos ver adormecer outra vez

21 de março de 2008

poema com imagem que não tem nada a ver (ou tem?)


Blur
deixado cá por Javali do Deserto.
não importa a cidade a aldeia ou
o buraco no chão

não importa a estação a manhã a tarde
a noite ou a hora apagada

não importa a corda a boneca de trapos
a roda da bicicleta a bicicleta a bicicleta sem roda

não importa os pais a mãe sem pai o pai sem mãe
os pais sem pai nem mãe

não importa a língua o silêncio o grito
o choro o assobio a canção

não importa o canteiro a jarra o saco de sementes
o vaso o jardim a terra a pedra o céu

que as crianças hão de florir de qualquer maneira




para o pepe

7 de março de 2008








quero dar-te a mansarda do meu poema
por onde possas ver o fim do dia
no ângulo mais doce da palavra

e perceber como todos os pássaros 
passam pelo seu coração
e deixam alguma doçura intacta
sobre o silêncio