18 de fevereiro de 2010



Esta semana fui distinguido com o Prémio de Poesia Manuel Alegre (Instituto Politécnico de Leiria)! Sinto-me muito feliz pelo reconhecimento e ao mesmo tempo orgulhoso por ter este poeta (o meu presidente), que tanto estimo, associado a um trabalho meu. O livro "um coração simples" contém cinco andamentos: um coração simples, palavras no recontorno da cor (com emerenciano), a casadescrita e poemas vestidos - há ainda um último, mas existe como epígrafe, apenas, para dizer "ainda bem que existem poetas melhores que eu".

Para todos aqueles que visitam este espaço o meu obrigado pelo apoio e a partilha do prémio, também.

9 de fevereiro de 2010

POEMA (QUASE) COM TOULOUSE-LAUTREC



dir-te-ia que as minhas mãos sabem bem o que é uma mulher nua
com o tempo foram sonhando esse deslumbramento
como dois cometas pincelando uma coisa extraordinária

dir-te-ia que não é preciso expor todos os detalhes
que a mulher é transparente na sua silhueta errante
quando se move no quarto à procura do perfume do amor


28 de janeiro de 2010



estou cansado como quem acabou de saber que tinha morrido
a vida toda nos meus braços e com ela
todo o tempo que podia ter sido

sento-me nos escombros da casa que não acabei
desfaço as mãos as palavras
agora que não preciso mais delas

se fosse possível adormecia ao contrário
prendia-me a um pássaro e ia cair longe
no meio de uma árvore incandescente

no entanto nada é fácil e tudo se avoluma
como uma tarde que está prestes a cair redonda em chuva

sento-me calo-me fumo um cigarro a meias com o silêncio
engasgo-me na tristeza e arrependo-me de ter envelhecido


17 de janeiro de 2010




o inverno dura quase todo o ano assim que fechas a porta de casa
talvez porque a casa é grande demais para o que esperas da noite
ou deixaste de acreditar que depois da morte há um lugar melhor

enrolas-te no cobertor e acendes a lareira com os livros de viagens
a música faz-te alguma companhia às vezes pareces falar sozinho
o disco que acabou de girar riscando o silêncio no trapézio do frio

adormeces tão lentamente que reconheces como tudo acontece
sílaba a sílaba um pensamento tranquilo desliza na água do sonho

de dia tens tudo para andar apressado mas as tuas pernas pesam
a tua cabeça anda ocupada a contar árvores e avenidas despidas
procuras alguém como tu mas é difícil perceber quem passa feliz
os nomes das pessoas ficam cabisbaixos no meio de tanta chuva

contudo há sempre um café onde salvas uma porção de felicidade
ninguém te espera mas é assim mesmo que se saboreia um café

depois tens o fim de tarde com os cães dos outros o vento gelado
o cachecol ronronando em vez de um gato à volta do teu pescoço

15 de janeiro de 2010

ELEGIA COM UM CHARCO ACESO DE CHUVA (e outras observações)


a chuva é a mais óbvia metáfora da tristeza
e por causa disso é que os poetas já não a trazem para
um poema que falasse - sei lá - de amor ou de inexistência

os poetas agora são muito cuidadosos em pôr apenas
aquilo que porventura camões nunca terá ousado pensar
num soneto ou num amanhecer a bordo da nau
que o naufragou de volta a lisboa

a chuva é uma coisa bonita de se ver
e quando se junta num charco é como uma palavra perfeita

os poetas agora têm medo de palavras perfeitas
e preferem as palavras que ouvem em qualquer rua
rastejando à porta dos cafés com a porcaria do chão

a chuva é uma palavra que vem do céu
e traz com ela uma rima interessante
expletiva - logo divina - sem mão que a tivesse desatado
da deslumbrada nuvem

os poetas agora gostam de ser eles a desatar o que é poesia ou não
e depois olham para trás e julgam os outros poetas
olhando-os de uma janela que não caberia
em casas que não foram feitas para terem janelas
quando muito uma mansarda cega
virada para a miséria do silêncio

a chuva encharcou-se de repente à minha volta
e apeteceu-me chorar
que é como quem diz - lembrar-me do tempo
em que não me importava de ser esta figura triste e destroçada
porque quando chegava a casa sabia que podia escrever-te um poema
que falava disso tudo com apenas uma ou duas palavras
tiradas precisamente à chuva
e tu entendias e tu adoravas porque sabias que era de ti que falava

agora os poetas preferem sentar-se à mesa dos cafés
e troçar das pessoas que tropeçam nos charcos do chão
fazendo poemas como quem acrescenta mais um corpo
ao obituário dos dias
sem que ninguém perceba alguma música algum recado
algum sentido

12 de janeiro de 2010



o inverno cai sobre mim vindo de todos os lados
corroendo a música que restou do natal
como uma pedra que nos cobre
e cujo peso não sabemos se nos mata ou nos esquece




11 de janeiro de 2010

POEMA PARA ME PERDOAR DA MINHA AUSÊNCIA (OU NÃO)


estou deste lado
fui eu quem me trouxe até aqui
eras pequena demasiado pequena para me segurar as pernas
e dizer-me uma palavra que me travasse a loucura

estou deste lado e deste lado te tenho visto crescer
ora turva ora mágica
a tua estatura se fazendo do brilho com que o teu rosto
se imaginou dentro de mim

e tudo o resto foi sendo apenas um lugar perene
um verso de uma palavra só
sem rima nem peso na arquitectura do silêncio

estou deste lado e é deste lado que sempre te amei
sem poder dizer-to no preciso momento em que adormeces
que é quando essas coisas contam
pois não há nada a perdoar-se nem ninguém a ser perdoado

apenas o sonho que se aproxima
e os cobertores que aconchegam a curva escura do cansaço

estou deste lado e deste lado
fui lamentando toda a vida o lugar onde estou

porque estive aí
tão perto

e vim-me embora

5 de janeiro de 2010

POEMA DE ANO NOVO COM ROBERT DOISNEAU




tenho um poema para te dizer
enquanto há tempo para nos redimirmos
do tempo que perdemos
à espera um do outro

tenho um poema para te dizer
como não sei nenhum outro poema
para além deste

que tudo quanto te posso dar
é a minha mão
aliviada da dor de pensar

como um papel suturado pelo silêncio
de o amor ser uma arte difícil

e não haver palavras que carreguem o peso
de não sabermos como amar como
da primeira vez





PS: Para maccc e Ana Lamego

3 de janeiro de 2010



10 COISAS QUE QUERO FAZER EM 2010

1. Usar o fio dental de uma vez por todas;
2. Ver o fim da série LOST;
3. Queimar a buzina do meu carro quando o Benfica for campeão;
4. Montar os meus IKEAS sem me sobrar nenhuma peça (tenho a casa toda para mobilar assim);
5. Jogar à bola sem trazer para casa uma rotura muscular;
6. Fazer 35 anos e não pensar que no tempo em que festejavam o dia dos meus anos é que era bom;
7. Acabar de ler o romance O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS (vai para dez anos que o comecei);
8. Usar a bicicleta e ter uma desculpa para comprar uns ténis novos (obviamente por desgaste);
9. Usar menos a internet;
10. Vender mais de 10 livros.

PS: Podem dar uma ajudinha? Passem por uma livraria! Um abraço!

27 de dezembro de 2009



Terça-feira, dia 29 de Dezembro, pelas 18 horas, na Livraria Capítulos Soltos, o poeta João Ricardo Lopes apresenta o poemário fotográfico de minha autoria (parceria com o fotógrafo Pepe Brix).

Apareçam!

26 de dezembro de 2009



O ano de 2009 foi como qualquer outro. Com coisas boas e coisas menos boas. Como sempre sobra o que esteve perto da poesia... Guardo com carinho a recente amizade com Luandino Vieira e os lançamentos do livro RUMORES (Santa Maria, Lisboa, Santo Tirso). Espero que 2010 seja um ano de poesia, também!

17 de dezembro de 2009

LANÇAMENTOS EM DOSE DUPLA









Depois da apresentação em Lisboa, na Livraria Pó dos Livros, no passado dia 21 de Novembro, eis que o meu mais recente livro será apresentado no Norte, finalmente. Em Santo Tirso é já no dia 22 de Dezembro, pelas 19 horas na Biblioteca Municipal, com apresentação do Professor António Oliveira e sete dias depois, a 29 de Dezembro, em Braga, na Livraria Capítulos Soltos, pelas 18 horas, estando a apresentação a cargo do poeta João Ricardo Lopes.

Os livros estarão à venda a um preço especial de lançamento na Biblioteca de Santo Tirso. Apareçam e levem uma prenda de Natal convosco!

Um abraço natalício, Daniel.

29 de novembro de 2009

REGRESSAR À NORMALIDADE


Decidi há dias regressar ao tempo em que comunicava por carta. Decidi regressar à normalidade de um tempo em que os amigos eram verdadeiros e a única coisa virtual era a própria palavra virtual. Amigos eram os que correspondiam e se davam ao trabalho de colar um selo com a sua língua...

Acabei com o Facebook e com o Twitter. Não doeu nada, pelo contrário, senti uma espécie de alívio. Não vou ter pena dos duzentos e tal amigos... deixei lá o meu endereço. Quando sentirem a minha falta, é só escreverem-me. Contam-me então todas as coisas que os deixam felizes, apenas aquelas que interessam e nada de quintas virtuais! E depois eu respondo sempre, sempre e mando prendinhas também.

Mantenho-me, contudo, neste blogue. É uma coisa minha nem que seja apenas para mim, embora saiba que há muitas pessoas que o lêem. A elas deixo o meu carinho e a vontade que me escrevam, também. E depois, já sabem, respondo sempre.

Um abraço, Daniel.

12 de novembro de 2009






nem sempre estamos juntos
nem sempre nos recolhemos na mesma concha

nem sempre percorremos o mesmo mapa
nem sempre apanhamos as mesmas pedras do caminho

nem sempre beijamos com a mesma boca
nem sempre nem sempre

nem sempre escutamos o tempo desavindo
nem sempre repetimos a nossa manhã perfeita

nem sempre havemos de compreender porquê
porquê nem sempre porquê nem sempre




(para a BETA)

8 de novembro de 2009




tenho estado à espera de um beijo teu
como se nada mais importasse neste mundo injusto


5 de novembro de 2009



lembra-me da primeira vez
era inverno pela metade ainda
a noite tão longa e tão pouco tempo

lembra-me da primeira vez
havia incensos e velas que estavam apagadas na sua cintilação
mas iluminavam de maçã e canela o teu quarto

lembra-me da primeira vez
o teu quarto era a tua casa
cabiam os teus livros as minhas cartas a nossa espera

lembra-me da primeira vez
desenhámos nas nossas mãos o caminho que queríamos traçar
o mapa que depois havíamos de entornar sobre as nossas próprias bocas

lembra-me da primeira vez
eu lembro apenas que quase esqueci


24 de outubro de 2009


Ut liceat nobis tota perducere uita

aeternum hoco sanctae foedus amicitiae.


e que nos seja dado, a vida inteira, sempre

este pacto viver de amor sagrado.


(Catulo)



e se não tenho mais nada

que tenha ao menos

esta palavra


guardada como o único beijo

que sobrou do silêncio


uma palavra como um

gerânio


contra toda a ferocidade

do inverno


uma palavra: o teu

nome



16 de outubro de 2009

quase que esqueci o verão
agora que tropeço nas folhas breves
os cheiros nómadas dos dióspiros

só me resta a mão fechada
e dentro dela

a última ameia da praia

1 de outubro de 2009

versão 5

depois de alguns dias à volta deste poema, vestiu-se desta forma: a estrutura está pronta, falta, porventura limpar alguma imprecisão. tenho de o dedicar à sandra, obviamente, pela cumplicidade nas leituras. obrigado.


o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor

saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão

inútil como uma palavra à roda de um poema que não se iluminou


o vestido que trazes arruinou a sua bainha e desfiou-se a chorar

parece um jornal amarrotado uma película translúcida de silêncio

deixando ver as feridas nos joelhos o coração resistindo ao vento


passou de moda porque deixaste de te despir com a luz acesa

e o espelho já não alcança a parede onde havia um outro retrato


já não te serve porque esqueceste de mudar a água aos girassóis

e agora há uma escuridão que se enovela à volta da tua tristeza

pesando sobre os teus olhos como uma pedra tirada a um poço

ou uma música de embalar de onde se perdeu a letra e o sonhar


o vestido que trazes está perfumado de pérolas que se partiram

num excesso das sombras que musicam a vaivência da solidão


e como uma vinha a quem se arrancou o chão antes da vindima

pareces-me abreviada despida exangue impossível descosturada


28 de setembro de 2009

versão 4 (mais um detalhe à procura do fim)

o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor

saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão

inútil como uma palavra à roda de um poema que não se iluminou


o vestido que trazes arruinou a sua bainha e desfiou-se a chorar

parece um jornal amarrotado uma película translúcida de silêncio

deixando ver as feridas nos joelhos o coração resistindo ao vento


passou de moda porque deixaste de te despir com a luz acesa

e o espelho já não alcança a parede onde havia um outro retrato


já não te serve porque esqueceste de mudar a água aos girassóis

e agora há uma escuridão que se enovela à volta da tua tristeza

pesando sobre os teus olhos como uma pedra tirada a um poço

ou uma música de embalar de onde se perdeu a letra e o sonhar


o vestido que trazes está perfumado de pérolas que se partiram

num excesso das sombras que musicam a vaivência da solidão


e dói como dói

VERSÃO 3 (DEDICADA À SANDRA)


o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor

saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão

inútil como uma palavra à roda de um poema que não se iluminou


o vestido que trazes arruinou a sua bainha e desfiou-se a chorar

parece um jornal amarrotado uma película translúcida de silêncio

deixando ver as feridas nos joelhos o coração resistindo ao vento


passou de moda porque deixaste de te despir com a luz acesa

e o espelho já não alcança a parede onde havia um outro retrato


já não te serve porque esqueceste de mudar a água aos girassóis

e agora há uma escuridão que se enovela à volta da tua tristeza

pesando sobre os teus olhos como uma pedra tirada a um poço


24 de setembro de 2009



DO POEMÁRIO DO POEMÁRIO...

Partilho convosco a construção deste poema, momento a momento, até ser alguma coisa, próxima daquilo que foi o seu sonho.


DIA UM:



o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor

saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão

inútil como uma palavra à roda de um poema que não se iluminou


o vestido que trazes já não é teu há tanto tempo que o seu pretérito

é mais perfeito que a primeira vez que deixaste de ser transparente



DIA DOIS:



o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor

saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão

inútil como uma palavra à roda de um poema que não se iluminou


o vestido que trazes arruinou a sua bainha e desfiou-se a chorar

parece um jornal amarrotado uma película translúcida de silêncio

deixando ver as feridas nos joelhos o coração resistindo ao vento


passou de moda porque deixaste de te despir com a luz acesa

e o espelho já não alcança a parede onde havia um outro retrato


21 de setembro de 2009



há uma criança brincando no baú das memórias

devastando o silêncio solene do esquecimento

de repente as coisas que antes eram portas fechadas

agora são cores que nos libertam da dor de morrer



17 de setembro de 2009




porque lá fora talvez encontres a razão de teres acordado
olhas da janela como se ainda não soubesses quem és

mas a verdade é que não vale a pena perder tempo à procura
daquilo que certamente trouxeste atado às mãos

um nome de um lugar que sonhaste esta noite
e uma casa noutro lugar onde tudo podia ser diferente

excepto o teu nome com cheiro de rosas e precipício de mar
capaz de abraçar o céu e inventar uma nova palavra

por isso fá-la tua e escreve um caminho na tua manhã

e sai

10 de setembro de 2009


UM POEMA PARA O PAI DO PAULO E PARA A MÃE DA PAULA



a árvore da vida assenta no chão fecundo do amor
e à volta dela todas as pequenas coisas contam
se o coração é puro e as asas continuam por achar

a árvore da vida cresce no meio das nossas promessas
e deixa-nos à sombra daquilo que poderíamos ter sido

a árvore da vida tem frutos que são pássaros
e pássaros que são palavras refulgentes

os nomes que havemos de dar aos nossos filhos
ou os livros com que o nosso ventre
há-de aprender a cerzir outra forma de sermos eternos

a árvore da vida é o passadiço para a morte subir até deus e dizer
afinal nada tem um fim e tudo isto é apenas outra forma de viver






(porque o peso das palavras é grande
preferia o abraço)

9 de setembro de 2009




capacito-me para o fim do verão
recolhendo as últimas imagens

cosendo as partes líquidas de um naufrágio
que se faz de uma tentação sem oceano

e adormeço antes que a noite se arboresça sobre nós
antes que a música se cale

e o frio regresse

5 de setembro de 2009





vejo-te como uma palavra a quem ainda não se deu um nome
uma altíssima constelação
cega do peso todo da noite

e no entanto quero abraçar-te
render-te nas minhas mãos e contar-te os lugares onde fui ver
se o mundo era apenas um búzio fechado

revela-te abre uma boca no teu rosto e diz-me
se és rosa papel argila ou pedra

que eu estou cego e já não vejo para além
da luz inicial da paixão


14 de agosto de 2009

NOVO LIVRO DE DANIEL GONÇALVES


Será lançado, durante o 25º Festival Maré de Agosto, o livro de fotografia de Pepe Brix e de poesia de daniel gonçalves. São 30 fotos de uma exposição sobre a Europa de Leste e poemas inspirados por esses lugares. Uma edição Labirinto. O lançamento ocorrerá dia 21 de Agosto na Ermida de Santo Amaro, Ilha de Santa Maria.





é uma viagem que não sabes como deflagrou

um espaço imenso à tua volta

que te incendeia os sentidos



fotografias que estão do outro lado do espelho

e uma música que solta a bombordo da tua alma

o pedaço de silêncio que te faltava



são sobretudo as palavras que te minavam as mãos

se quisesses mostrar o teu coração a alguém



e uma conta infinita de sonhos

cada um deles como uma árvore acabada de florir







(para adquirir o livro visite a casa da editora Labirinto, aqui)

21 de julho de 2009

amigos: iniciei um novo projecto, está apenas numa fase inicial, mas pode ser acompanhado em:

http://poemasvestidos.blogspot.com


um abraço, daniel.

16 de julho de 2009





a música é a poesia no seu expoente máximo
de loucura

porque irradia sem misericórdia
pela infinitude do universo

porque nos atravessa
e deixa um gosto amargo

a eternidade




TRIVIA: Fui a um concerto dos The Durutti Column, um espectáculo em homenagem a Tony Wilson, o mentor desta banda e fundador da mítica Factory Records. Estava lá na frente, a um metro dos músicos. I'm a lucky guy these days.


13 de julho de 2009





a voz é arrancada do coração
e solta no emerso amplexo
da noite

cala-se quando devia arrastar consigo
os pássaros todos do mundo

o coração de onde veio
tinha morrido de tristeza



TRIVIA: assisti à Premiére da Ópera PRIMA DONNA de Rufus Wainwright, na Opera Pallace Theatre em Manchester. Rufus estava lá, travestido de Verdi e o seu namorado de Puccini, glamorous!


9 de julho de 2009

momento com wordsworth em grasmere


Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass, of glory in the flower;
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind.

PS: os cemitérios em inglaterra são locais aprazíveis...
momento com sylvia plath em heptonstahl



I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful ‚
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.

4 de julho de 2009


INSTANTES EM ALBION:



1: Não se paga para visitar um museu.





2: Os anglicanos são mesmo cool.





3: Os Beatles estão presos ao merchandising louco de Liverpool.






4: Haja dinheiro para gastar...






5: O tempo cabe todo nesta terra.



Vi o concerto/espectáculo mais belo da minha vida. Creio que jamais verei outro assim. Foi absolutamente overwhelming! Antony cantou como só ele canta, mas a Camerata Orchestra of Manchester fez um trabalho fantástico com os arranjos de Nico Muhly e o espectáculo visual de Paul Normandale, Carl Robertshaw, Chris Levine e Emma Westerberg. Aquilo foi como estar emerso num sonho! Quem me dera dizer o que senti num poema: nunca mais escreveria outro.

PS: Manchester rules! É a capital da mini saia!

26 de junho de 2009



CARÍSSIMOS LEITORES E AMIGOS,


De 28 de Junho a 25 de Julho estarei em Manchester (UK) a frequentar um Curso de Escrita Criativa na Universidade de Manchester. A todos um bom verão com muita poesia e bons sonhos!

Um abraço, Daniel.

14 de junho de 2009






a terra dá-nos tudo o que
precisamos

e tudo aquilo de que estamos
à espera

basta amar as pedras
e as sementes

e os pássaros

e as abelhas


6 de junho de 2009





a casa abriu o seu coração
à força da tarde

e deixou entrar
um pássaro de luz


28 de maio de 2009





a cidade faz-se de subterrâneas noites

suturando as partes desavindas da arquitectura

 

a cidade faz-se de candeeiros desabrigados

fingindo uma sombra sobre a solidão das horas

 

a cidade faz-se de palavras reservadas

aguardando a olorosa inquietação dos poetas

 

a cidade faz-se de escadas cambaleantes

abrindo um pórtico no chão do silêncio

20 de maio de 2009




hás-de me dizer
com quantas mãos
nos esquecemos

com quantas mãos
nos amamos

com quantas mãos
nos devolvemos
ao amor do silêncio







moinho de vento (qualquer um: de pé e alante)



és um pássaro de pedra

atado ao chão


não fosse o peso

do teu coração


o mesmo vento que

te meneia

na tua precisa

sonolência


no teu inquieto

murmúrio


levar-te-ia além da

colina


onde é possível

tocar a raiz do azul



in "a casadescrita"

19 de maio de 2009




Há dias por uma diferença de apenas dois votos e duas abstenções foi reprovado um diploma na Assembleia Legislativa Regional dos Açores que visava a legalização da Sorte de Varas na Ilha Terceira. Parece impossível como é que um assunto de tão óbvia barbárie mereça sequer discussão. Ainda bem que o assunto morreu na praia.

PS: Sei que este blogue é dedicado a outras palavras, normalmente em minúsculas incursões ao sonho da poesia, mas a vida dos animais também é poesia, perguntem ao São Francisco de Assis.

17 de maio de 2009





Acabou hoje o sufoco de quatro temporadas de Prison Break. Custou, mas a liberdade teve um preço, o preço que todos temos de pagar se queremos um mundo melhor.



tenho para te dar o meu corpo
despido de todas as palavras

o meu corpo como uma folha branca
para escrever nele o teu nome

e deixares que te cubra
se o inverno ainda te persegue







é uma viagem que tu não sabes como começou
um espaço imenso à tua volta
que te incendeia os sentidos

são fotografias que estão do outro lado do espelho
e uma música que solta a bombordo da tua alma
o pedaço de silêncio que te faltava

são sobretudo as palavras que te minavam as mãos
se quisesses mostrar o teu coração a alguém

e uma conta infinita de sonhos
cada um deles como uma árvore acabada de florir





16 de maio de 2009



Partilho convosco uma pequena maravilha... um presente de fim-de-semana. Enjoy!



I was lying in my bed last night
Staring at a ceiling full of stars
When it suddenly hit me
I just have to let you know how I feel

We live together in a photograph of time
I look into your eyes
And the seas open up to me
I tell you I love you
And I always will

And I know that you can't tell me
And I know that you can't tell me

So I'm left to pick up
The hints, the little symbols of your devotion
So I'm left to pick up
The hints, the little symbols of your devotion

I feel your fists
And I know it's out of love
And I feel the whip
And I know it's out of love
I feel your burning eyes burning holes
Straight through my heart

It's out of love
It's out of love

I accept and I collect upon my body
The memories of your devotion

I accept and I collect upon my body
The memories of your devotion

I feel your fists
And I know it's out of love
And I feel the whip
And I know it's out of love
I feel your burning eyes burning holes
Straight through my heart

It's out of love
It's out of love...

14 de maio de 2009






pões a tua mão nas coisas
simples do mundo

e a primavera acontece

como se bastasse apenas
acertar o jeito a algumas palavras
e às flores sobre a mesa



(parabéns susaninha)



Esta versão ao vivo da banda islandesa mostra como a poesia cabe em todo o lado!




há um caminho que nos faz acreditar
que nenhum esforço é vão

que todos os passos nos levam a um outro abraço
sempre maior

ou a outra fonte
onde a sede se apaga
como uma criança que adormece no meio do choro

há um caminho que espera por nós
e se faz dos nossos sonhos
enquanto estamos parados no meio do inverno

com as mãos frias e o coração fechado
como um ninho de melros à espera de outra canção

eu sei que a primavera é pontual como toda a manhã
e que não se importa com quantas árvores
o mundo a espera

mesmo que chova e que num ou noutro andamento
pareça que mova o mundo de lugar



(ensaio para um pensamento sobre a primavera)

10 de maio de 2009




No Espaço Contagiarte no Porto, está patente uma Exposição Fotográfica de Pepe, com textos da minha autoria. É o projecto embrionário que dará à luz em forma de livro-álbum, brevemente.

2 de maio de 2009



musée d'orsay



tudo pode caber
numa casa

uma gare para as mil
locomotivas dos
sonhos

um búzio
para os tesouros
do mundo

um relógio do tamanho
do tempo

vendo passar o rio
e a luz da
cidade




in "a casadescrita" - poema para a beta