6 de novembro de 2010






Este blogue faz hoje sete anos. Apetece-me festejar e dizer que aqui encontrei alguns amigos. Bem bom!

3 de novembro de 2010





apenas a música desta vez
a falar

de ti



faço o filme na palma da minha mão e trago para junto de mim
um piano com yann thiersen

a música é suave flutuarejante redonda

estou à tua espera
e aperto o meu coração para não te amar demais

chegas a entristecer aos bocados
(nunca quiseste ser triste à minha
beira)

pergunto-te como é possível
teres o coração tão apressado
se voas como um pássaro delicado
numa folha de papel

choras-me em silêncio o relógio que perdeste
(era nele que vias o tempo
de estarmos perto)

tinha matrioscas
e assim como assim
um tempo secreto dentro do nosso tempo secreto

tinha matrioscas que se iam enroscando
até não termos de pensar no amanhã

mas perdeste esse relógio
e eu não pude fazer nada

mesmo que anos depois
continue a ir de marcha a ré
procurando pelo chão o tiquetaque que perdemos

não volta ao teu pulso
nem a tua mão à minha

25 de outubro de 2010



erguemos a nossa casa
no meio do jardim

demos-lhe a água da luz
e a seda do jasmim

fizemos dos gatos nossas janelas
e do verão nossa poesia

e se borboletas houve que nos visitaram
elas eram o movimento do dia

22 de outubro de 2010



digo-te que a música é o perdão de deus
pelo nosso tamanho

que deixamos assim de ser apenas
pétalas que prosperam
pedras que regulam a altura do chão

e que voamos e chegamos onde moram os anjos
para perguntar porque temos de voltar

17 de outubro de 2010



tenho dois gatos em casa
cada um com a sua janela magnífica
sobre o coração do outono

tenho dois gatos em casa
dois poemas que se aninham no meu colo

6 de outubro de 2010



podia dar-te tudo quanto vi
ou apenas uma memória

um momento
um estarrecimento

qualquer coisa de nada
que me tenha arrepiado
as mãos

(como quando me vi
com o pollock
pela primeira vez)

17 de setembro de 2010





naquele dia escrevi-te um poema de amor
um poema de amor tão longo que poetas houve neste mundo
que não escreveram livros inteiros tão longos

um poema que tinha três quatro palavras
(tão longo nem lembro bem)
três ou quatro palavras que se repetiam
repetiam e repetiam
ao expoente da loucura e da eternidade

e nesse dia deixaste de ser apenas um desejo
uma mulher posando rosa ou buganvília no jardim de outra casa
um perfume a esvair-se de ar e água
sempre tão efémero
sempre tão pequeno

8 de setembro de 2010

Se tiverem curiosidade, poderão espreitar como vai o meu próximo livro, vencedor do Prémio de Poesia Manuel Alegre. Não sei ainda quando será publicado, dado que o IPL detém os direitos da primeira edição da obra.






para ti as rosas
como as que ricardo reis
cuidava

sozinho ou desatado
do seu lugar no mundo

para ti as rosas
como as que ricardo reis
perfumava

com a fina tristeza
de saber que o tempo 
consome a poesia

e todas as palavras
do amor





um inverno assim
quando o cansaço
redemora o pulso da respiração

ou a tristeza está nas mãos
que arrefecem
com o fim do dia

um inverno assim
com o mar feito 
de algodão e água de música

e o fim da tarde
alagando a distância
e o vazio




numa noite como esta são transparentes as flores
e equidistantes os esquecimentos e as candeias
com que vemos ao longe os nossos primeiros passos

numa noite como esta o tempo pensa na eternidade
e todos os horizontes vêem a sua morte adiada
como as árvores têm música quando chega abril

numa noite como esta é possível encontrar o amor
como se deus viesse de novo ocupar a sua casa
e pôr no sítio certo as palavras deixadas ao acaso 

numa noite como esta em que ambos adormecemos
como na última noite em que a nossa infância se deitou

voltamos a acreditar que a lua é apenas outro anjo
outro cavalo outro baloiço outro sorriso outra oração


31 de agosto de 2010





em setembro ponho o meu corpo sobre o relvado do jardim
como um lençol de linho quase muito antigo
aproveitando as últimas gotas do sol do verão

e fico ali pasmado com o lento recuar do dia
e alguns pássaros que começam a voar
tranquilos de não terem ainda de morrer

em setembro começo a poupar nas palavras
e amealho na boca todos os frutos que imagino caírem ao chão

acredito então que um poema pode ser como um doce
no pão ressequido do silêncio





22 de junho de 2010





vou desistir desta ilha de silêncio e de sabores de prata
vou desamordaçar os meus sentidos de tanto preto e branco
e o amor vou soltá-lo da palavra
da árvore e do chão

vou para o sul do sul
vou com os pássaros que vão passando velozes
e mesmo assim reparam em mim

como um poste solitário no meio do nada
com o corpo do avesso e o coração parado

28 de maio de 2010



esse rio na selva é o único poço onde podes ser transparente
o rio que te obriga a despir a inquietação de seres pequeno
e te permite ser deus com apenas dois remos e uma candeia

nessa viagem compreendes as coisas que sempre te pesaram
aceita-las como quem concorda com a hora da morte e sorri
esvazia os bolsos e acrescenta os trocos mal geridos da vida

o rio é muito mais que uma artéria serpenteando e circulando
corpo de água que nunca irrompeu nem nunca se dissolveu
escrinventando nas margens as raízes com que o teu silêncio
há-de crescer até ser a única meditação que te arrepia a pele

os teus sentidos são uma chama que respira nas tuas mãos
fechas as mãos e apagas tudo quanto te desacomoda a alma

e depois és igual a uma canoa que prospera na escuridão
um corpo que é um poema líquido doçura solvente de sonho






in "um segundo é passado" daniel gonçalves 2010

14 de maio de 2010




assim como quem se deita na terra e fica a olhar o céu
sem nenhum peso no olhar
além do conforto de saber que as nuvens jamais cairão sobre nós

assim como quem mergulha no mar
e se deixa ir ao fundo
recolhendo a imensa paz que vem de sermos apenas uma gota

assim como quem se cala na imensa catedral do silêncio
e fica a escutar um a um o sopro que o coração debita sobre
os nossos sonhos

assim desta maneira
me guardo para ti

para estar limpo e inviolável
na hora de te abraçar



(Susana, desculpa ter passado a hora de te dizer os parabéns: mas tu sabes que o meu amor por ti não tem hora, nem dia...)

6 de maio de 2010


como um búzio perfeito proteges o teu coração
deitas-te na terra e escutas o primeiro sinal do amor

enquanto o mundo procura arrancar-te as asas
e dilacerar-te com o silêncio o ardor do teu desejo

19 de abril de 2010







tanta coisa à minha volta tudo sempre girando
tanta coisa para saber tanta coisa para aprender

e tanto te posso contar tanto te posso ir revelando
tanta coisa de tanta coisa que nem eu sei dizer

tudo isto tem um nome? tudo isto tem um lugar?
de onde vem tudo isto? hei-de um dia saber?

para tudo há um propósito com tudo te vais admirar
que a vida é um mistério que fica por responder...

achas que sou capaz de chegar ali? e ali? ali e ali?
quero ir a todo o lado... a todo o lado quero chegar...

tu és grande... vais ver que a grandeza está em ti...
às vezes basta fechar os olhos e querer sonhar...

10 de abril de 2010




antes era sempre tudo melhor
havia todo o espaço do mundo à nossa frente
agora esse espaço somos nós
a ocupar cada centímetro quadrado desse sonho
e ver que não sobra espaço para acordarmos

antes era sempre tudo melhor
até aquilo que ainda não era
que agora há este travo amargo na boca
de termos deixado arrefecer a comida
e o vinho ter azedado para lá da embriaguez

antes era sempre tudo melhor
davas-te conta que eu existia em toda a tua volta
e agora apenas tropeças em mim
se tens de correr para adormecer sozinha
ou precisas de alguém para te pintar a casa

antes era sempre tudo melhor
por isso se morrer agora não me importa nada
fui feliz antes de o ser e pude antecipar
com a triste amargura de quem sabe
que nada se repete nem nada se aperfeiçoa

4 de abril de 2010







Há uma casa. A casa é pequena e as suas janelas ainda a fecham mais porque o que se vê lá fora é muito longe. Dentro da casa estão os livros e a música que toca sem ocupar espaço nas prateleiras. Dentro da casa metade das coisas podiam arder agora mesmo. Ele não chorava. Ele está parado a pensar se há-de dormir ou pegar fogo a metade das coisas que o rodeiam. Pegava em tudo e fazia uma escada de fogo até ao céu, bem no centro do ainda mais pequeno jardim, acabando de vez com a azálea que nunca deu flor.
Ele está a pensar em tudo isto e dá-se conta que isso tudo é afinal mais uma porção do nada que foi o seu dia. Um dia empurrando a carroça pesada do silêncio. O estar só. O querer estar só como uma sobriedade arrancada à força do chão, com pouca terra a sujar as mãos, apenas uns fios transparentes, lembrando raízes de água. Ele fecha o livro. Nunca mais o acaba. É pesado para as suas mãos cansadas. Passaram o dia a medir o desconsolo dos olhos e da boca, quem sabe dos ombros que já não carregam mais nada. O tempo. Apenas o tempo que passa tão devagar, tão devagar... que dava para lhe sentir o gosto a eternidade.