18 de novembro de 2010




venice, at night




you can not miss
if your love
is a candle
in the evening rain

you can not miss
if words
are sweet songs
who give us wings

you can not miss
if you have an arm and a hand
that will extend
your heart




Veneza (em lá estando - II)



o que o homem faz de melhor
é acrescentar espaço
onde antes havia apenas um lugar

e o lugar passou a ser uma candeia
para iluminar a noite
da tristeza

e a candeia passou a mostrar o caminho
à musica

e a música está agora
no meu coração



(Veneza, em lá estando)


nada do que dizem pode ser verdade
porque a verdade flutua e muda
conforme olhamos
a cidade

e se é tudo água
todo o resto é água também

não porque chove
ou porque o grande canal
amansa as horas

é porque a ausência de ruído
acalma e acaricia

conforta e aproxima

até não querermos mais estar sós
e abraçar a primeira pessoa que vemos

15 de novembro de 2010




VENEZA (antes de lá ter estado)



parece-me plana
com altos cumes de luz
invadindo o rosto da manhã

parece-me serena
com ondulação de música antiga
flutuando todas as pessoas
até não serem mais que poemas
boiando no grande canal

parece-me mulher
una donna
olhando-me com uma boca doce
e o corpo carregado de água

11 de novembro de 2010




desenha na mão uma estrela
e saberás que é impossível esquecer
a palavra que deves resgatar
do silêncio



(para o carlos luis)

10 de novembro de 2010





enquanto ouvíamos um disco de frank sinatra
deixamos tudo por fazer

ficamos sentados a abrir uma página em branco
no nosso tempo

e depois olhá-la como quem espera desenhar
toda uma vida

com todas as correcções
e com todas as coisas que julgamos
ser fundamentais

nós os dois e uma música
leve

leve

leve

i got a woman crazy for me
she's funny that way





6 de novembro de 2010






Este blogue faz hoje sete anos. Apetece-me festejar e dizer que aqui encontrei alguns amigos. Bem bom!

3 de novembro de 2010





apenas a música desta vez
a falar

de ti



faço o filme na palma da minha mão e trago para junto de mim
um piano com yann thiersen

a música é suave flutuarejante redonda

estou à tua espera
e aperto o meu coração para não te amar demais

chegas a entristecer aos bocados
(nunca quiseste ser triste à minha
beira)

pergunto-te como é possível
teres o coração tão apressado
se voas como um pássaro delicado
numa folha de papel

choras-me em silêncio o relógio que perdeste
(era nele que vias o tempo
de estarmos perto)

tinha matrioscas
e assim como assim
um tempo secreto dentro do nosso tempo secreto

tinha matrioscas que se iam enroscando
até não termos de pensar no amanhã

mas perdeste esse relógio
e eu não pude fazer nada

mesmo que anos depois
continue a ir de marcha a ré
procurando pelo chão o tiquetaque que perdemos

não volta ao teu pulso
nem a tua mão à minha

25 de outubro de 2010



erguemos a nossa casa
no meio do jardim

demos-lhe a água da luz
e a seda do jasmim

fizemos dos gatos nossas janelas
e do verão nossa poesia

e se borboletas houve que nos visitaram
elas eram o movimento do dia

22 de outubro de 2010



digo-te que a música é o perdão de deus
pelo nosso tamanho

que deixamos assim de ser apenas
pétalas que prosperam
pedras que regulam a altura do chão

e que voamos e chegamos onde moram os anjos
para perguntar porque temos de voltar

17 de outubro de 2010



tenho dois gatos em casa
cada um com a sua janela magnífica
sobre o coração do outono

tenho dois gatos em casa
dois poemas que se aninham no meu colo

6 de outubro de 2010



podia dar-te tudo quanto vi
ou apenas uma memória

um momento
um estarrecimento

qualquer coisa de nada
que me tenha arrepiado
as mãos

(como quando me vi
com o pollock
pela primeira vez)

17 de setembro de 2010





naquele dia escrevi-te um poema de amor
um poema de amor tão longo que poetas houve neste mundo
que não escreveram livros inteiros tão longos

um poema que tinha três quatro palavras
(tão longo nem lembro bem)
três ou quatro palavras que se repetiam
repetiam e repetiam
ao expoente da loucura e da eternidade

e nesse dia deixaste de ser apenas um desejo
uma mulher posando rosa ou buganvília no jardim de outra casa
um perfume a esvair-se de ar e água
sempre tão efémero
sempre tão pequeno

8 de setembro de 2010

Se tiverem curiosidade, poderão espreitar como vai o meu próximo livro, vencedor do Prémio de Poesia Manuel Alegre. Não sei ainda quando será publicado, dado que o IPL detém os direitos da primeira edição da obra.






para ti as rosas
como as que ricardo reis
cuidava

sozinho ou desatado
do seu lugar no mundo

para ti as rosas
como as que ricardo reis
perfumava

com a fina tristeza
de saber que o tempo 
consome a poesia

e todas as palavras
do amor





um inverno assim
quando o cansaço
redemora o pulso da respiração

ou a tristeza está nas mãos
que arrefecem
com o fim do dia

um inverno assim
com o mar feito 
de algodão e água de música

e o fim da tarde
alagando a distância
e o vazio




numa noite como esta são transparentes as flores
e equidistantes os esquecimentos e as candeias
com que vemos ao longe os nossos primeiros passos

numa noite como esta o tempo pensa na eternidade
e todos os horizontes vêem a sua morte adiada
como as árvores têm música quando chega abril

numa noite como esta é possível encontrar o amor
como se deus viesse de novo ocupar a sua casa
e pôr no sítio certo as palavras deixadas ao acaso 

numa noite como esta em que ambos adormecemos
como na última noite em que a nossa infância se deitou

voltamos a acreditar que a lua é apenas outro anjo
outro cavalo outro baloiço outro sorriso outra oração


31 de agosto de 2010





em setembro ponho o meu corpo sobre o relvado do jardim
como um lençol de linho quase muito antigo
aproveitando as últimas gotas do sol do verão

e fico ali pasmado com o lento recuar do dia
e alguns pássaros que começam a voar
tranquilos de não terem ainda de morrer

em setembro começo a poupar nas palavras
e amealho na boca todos os frutos que imagino caírem ao chão

acredito então que um poema pode ser como um doce
no pão ressequido do silêncio





22 de junho de 2010





vou desistir desta ilha de silêncio e de sabores de prata
vou desamordaçar os meus sentidos de tanto preto e branco
e o amor vou soltá-lo da palavra
da árvore e do chão

vou para o sul do sul
vou com os pássaros que vão passando velozes
e mesmo assim reparam em mim

como um poste solitário no meio do nada
com o corpo do avesso e o coração parado