mocho (do latim murtulu ou mutilu)
partilhado por danielsg.
a amizade é um voo rasante
na noite do esquecimento
iluminando a escuridão
com os carinhos acumulados
da nossa vida
(para o adriano
ab imo corde)
a amizade é um voo rasante
na noite do esquecimento
iluminando a escuridão
com os carinhos acumulados
da nossa vida
(para o adriano
ab imo corde)
os despojos do dia trazem de volta
os nossos carinhos (os doces beijos
encontrados com os instantes de luz)
quando a maré regressa à boca da praia
para sussurrar a viagem pelo profundo azul
de onde é possível ver e escutar
a nossa promessa de eternidade
(para ti obviamente: mais que tudo)
não imagino um limite
uma estrela ao fundo da noite
ou um horizonte preso à sua linha dorsal
não acredito na profundeza da escuridão
nem na aridez do silêncio
ou na morte imprevisível de todas as árvores
ou de todos os pássaros ou de todos os búzios
mas há um momento indelével
em cada palavra de amor
(uma vida acrescentada à eternidade)
de dentro da casa é fácil recolher as gotas da chuva
estão atadas à janela que dá para a tarde fria
cada uma é como a tristeza condensada do outono
o não podermos passear junto ao mar (sem nos confundirmos
na indelicadeza da rebentação)
a mão pesada do vento nos alagando os cabelos (entrançando
por vezes os teus nos meus)
e todas as folhas que queriamos juntar (uma a uma até termos
os olhos cheios)
e é estarmos como uma promessa de amor
do lado de dentro do coração
vendo a vida passar apressada lá fora
preciso renovar-te todas as manhãs este poemário de amor
preciso recontar-te todas as palavras com que nos amamos
e todas as manhãs reencontrar-te na mesma paz inviolável
e todas as manhãs soprar-te os nomes das nossas árvores
porque a noite é um intervalo de silêncio pesando nos olhos
uma extensão infinita de searas de onde se arrancou a luz
ou os pássaros de fogo ou os flancos acesos dos girassóis
porque gastamos tanto tempo da nossa desatenção à espera
tanto tempo do tempo que julgamos ser a nossa eternidade
atando pedras e outros ciprestes à respiração das estrelas
como se não houvera outro ofício para os nossos sonhos
porque é difícil suportar sozinho a inclinação destes afectos
porque o amor quando cresce ata-se à promessa da poesia
e todas as manhãs a poesia pede-me que te diga (outra vez)
como o teu coração aprendeu a desenhar o rosto do amor
(poema em construção)
daniel gonçalves
a nossa casa é um poema donde se pode escutar o amor
a nossa casa é feita das palavras que atamos ao coração
da música e o seu silêncio encontrado nos nossos bolsos
do vaso de gerânios respirando com o linho das cortinas
porque sabemos quais são os livros que nos adormecem
os livros que guardam a embarcação urgente dos sonhos
os livros que são as nossas mãos anunciando os sonhos
porque as palavras que tecemos quando queremos voar
são as mesmas que usamos para cobrir os nossos corpos
as mesmas que vão repetindo até à exaustão das horas
o contorno tão doce do coração de cada um dos carinhos
quando nos deixamos adormecer sobre o chão dos dias
certos de termos dado uma porção de paz à eternidade
certos de termos a poesia em redor dos nossos afectos
e de ser essa a pedra a cal a buganvília da nossa casa
(poema em construção de "vinte poemas de amor e uma canção esperada")
daniel gonçalves
adorava escrever um poema
que dissesse o que sinto
quando olho pela janela
e reparo que o meu tempo
deu tempo a estas flores
de se outonarem dentro de mim
encontrar-me-ei com a memória da nossa vida
no chão dos dias que pisámos
com a mesma orientação das sombras
por onde fomos ter a nossa casa
onde o amor dos nossos afectos
era tecido com as palavras
que não precisávamos de dizer
em que dimensão te encontrarei
quando houver casas e
entrecasas
por onde te procurar?
olha para cima
sempre que puderes
encontrarás as asas que precisas
para voar
quando nos deixamos adormecer
já a noite tinha fugido de nós
deixando o movimento veloz do amor
com as cores do sonho
a nossa noite mexeu-se
flutuando com as horas
e o amor soube (ainda assim)
construir uma torre
para o relógio dos afectos
contar a nossa eternidade
às dez em ponto
a noite ergue-se
no relevo do azul
escondido
que nós sabemos ser
o nosso céu
de dia todos os contornos
estão expostos
os mais delicados
entrelaçados na vertigem
dos mais cansados