15 de julho de 2007

tempo I


rosácea (roriz)
deixado cá por danielsg.
em volta do meu coração subitamente a eternidade
para que o teu afecto tenha tempo de me percorrer


in "o tempo mais breve" daniel gonçalves

sem título (no regresso a uma tarde na ponta do pargo)


ponta do pargo
deixado cá por danielsg.
tinha para te dizer uma ilha inteira de mistérios
maior que o precipício da distância
maior que o silêncio que me deixou as asas do lado de dentro do coração

tinha para te dizer uma palavra que talvez me conseguisse
devolver a boca

uma palavra que iniciasse o curso perdido da poesia
e me desse um pouco da paz recolhida nos teus olhos

10 de junho de 2007

sem título (por falta de palavras)


delicadeza
deixado cá por danielsg.


é uma bordado de silêncio
a delicadeza que embalas

é um encanto de silêncio
a criança que baptizas


(para o rodrigo)

28 de maio de 2007

22 de maio de 2007

palavras com klimt com palavras


danae por klimt
deixado cá por danielsg.
tão bela que és
no teu dançante sonho

tão bela que és
quando me atravessas
assim como uma tarde de luz

entreaberta à felicidade
do mundo

17 de maio de 2007

como a ler a imagem


poet flying
deixado cá por danielsg.
vou soltando a noite
com as flores
pétalas das palavras doces
com que te sonho

e o lugar onde chego
é este poema
o coração e o tempo
da felicidade

25 de abril de 2007

um poema com cartier bresson


Henri Cartier Bresson
deixado cá por danielsg.
um instante feliz (como num instante de cartier-bresson)
um instante de luz preso à bicicleta que acorda a manhã

sou eu que me prendo à retina das coisas transparentes
sou eu que reconheço os contornos das primeiras coisas

é a mim que se atam os diademas das palavras felizes
é a mim que a poesia vem dizer onde está a tristeza
para não voltarmos a essa casa a essa colina de sede

desde que encontrei a tua boca rescrevendo o tempo
um tempo que não há noutro lugar nem noutro afecto
como se soubesses a exacta medida em que se ama
ou por que asa se erguem os carinhos sobre o amor

um instante feliz asilado no ventre das nossas mãos
como uma moeda para pagar a felicidade do mundo

um instante de luz que nos compense da escuridão
com que os sonhos se lançam para os nossos olhos

17 de abril de 2007

dançando na voz da palavra (com degas)


degas
deixado cá por danielsg.
há palavras delicadas
e há a delicadeza do teu olhar

há palavras amorosas
e há o amor do teu coração

há palavras doces
e há a doçura do teu olhar

há palavras tantas palavras
para dizerem tanta coisa

e há o teu silêncio dançando
dançando a beleza do mundo


(para ti, beta)

14 de abril de 2007

van gogh e um detalhe esquecido


van gogh
deixado cá por danielsg.
esqueci-me de te dizer
como és bela
como és tão bela

com a amendoeira dos teus sonhos
a iluminar a tua boca

doce
tão doce

14 de março de 2007

o rumor do dia traz-nos as flores pelas janelas da casa
em breve todas as sombras escutarão o gosto da terra

2 de março de 2007

esquina do tempo (escrita agora)


esquina do tempo
deixado cá por danielsg.
parei neste instante para pensar
onde vou

o que está daquele lado do silêncio
para onde vou puxando as mesmíssimas palavras
de sempre

será que a chuva há-de ser a mesma
ou a tristeza põe-se ai de outro jeito?

1 de março de 2007

às 11 e 11 com rufus wainwright


rufus wainwright
deixado cá por danielsg.
Woke up this morning at 11:11
Woke up this morning and it wasnt in heaven
Those are the reason 'bout
Where I was sleeping but I was alive
I was alive
Woke up this morning at 11:11
John was half-naked and Lulu was crying
Over a baby
That'll never go crazy
But I was alive
And till the end of this world,
We'll all load in a dump truck of human
11:11

What else can I do,
What else can I do
Woke up this morning and
Something was burning
Realized that everything really
Does happen in Manhattan
Thoughts were of characters
And afternoons lying with you
And you were alive
Ohh, the hours we are seperate
11:11 is the precious time we wasted
So pack up your bleeding heart
And put away your posies
I don't want to have a drink
Or play ring around the rosie with you
Oh no, no

Ohh, the hours we are seperate
11:11 is the precious time we wasted
So let the blind fight the blind and see,
As the fall take over summer
Bringing the lattice roses
And as winter brings the spring rain
And to the end of this world,
We'll all load in a dump truck of human
11:11

26 de fevereiro de 2007


cascatas
deixado cá por danielsg.
traz o teu olhar agora que a primavera vem chegando
em breve as flores hão-de conceder-te um novo rosto

poema entrecortado com silêncio e outra coisa


ninho
deixado cá por danielsg.
esperei até que o sol se refizesse em todos os lugares
ou não houvesse mais conchas retidas no desanoitecer

perdi-me na formosa praia que respirava a última maré
levando os despojos de volta à mão fechada da procura

escutei uma música prevendo o subsilêncio da espera
senti um pássaro desenhando um poema na sua árvore
como se o chão o incentivasse com o peso das palavras

e as coisas tristes pereceram assim na sua fragilidade
as promessas e as mesas postas no sabor da ausência
as orações diluídas no vento um ritual alinhado em paz
tudo se perdeu em fio e só o sentido de luz se reergue

um momento levando uma lágrima perfeita no seu rosto
soprando o orvalho na suavidade do nosso amanhecer

um momento para voltarmos a pegar na raiz do coração
e caiarmos enfim as paredes para as nossas buganvílias

31 de janeiro de 2007


Felipe Monardes-Mena
deixado cá por danielsg.


se o amor é uma palavra é uma roseira esperando a tarde
se o amor é uma palavra é uma casa acordando as janelas

se o amor é uma palavra temos de lhe atar a nossa boca
e desenhar no seu coração a água que nos leva da terra

assim que percebemos a delicadeza dos nossos carinhos
quando sabemos que o horizonte se prende à nossa mão
e não há outro pensamento além do nosso sonho alado

quando ampliamos a sedição do tempo nos nossos ombros
ou estamos parados num instante à espera da eternidade
quando olhamos para a nossa sombra nos dorso da noite
e não há outra asa para nos unirmos à constelação da paz

quando sentimos os pássaros trazendo a primeira manhã
depois de termos amontoado as pedras do nosso cansaço

o amor é uma palavra porque está à espera deste carinho
deste arquipélago destas mãos deste sopro desta corrente


poema para JC

26 de janeiro de 2007


praia formosa
deixado cá por danielsg.

dez anos de solidão ou as horas todas desta vida de silêncio
para encontrar na profundeza da noite a cintilação da manhã

dez anos de solidão para silabar a poesia na luz das palavras
no mesmo carinho com que nos confiamos ao clarão do amor

dez anos de solidão com a boca atada ao cuidado da paz
com o corpo protegendo a delicada promissão do paraíso
com que cada verso se acende contra a inclinação do frio

dez anos de solidão para que me crescessem estas mãos
e houvesse buganvílias anulando a tristeza do fim da tarde
barcos com sonhos na proa e nas asas brancas das velas
levando ao último horizonte as pedras densas do cansaço

dez anos de solidão como uma casa erguida contra o tempo
onde cantasse a língua com as suas primaveras secretas

e fosse possível inventar um poema contra o esquecimento
ou o cume do inverno que é termos a morte à nossa espera


(para os que sabem o que é dez anos de solidão)

20 de janeiro de 2007


manet
deixado cá por danielsg.

a ti – só a ti – pertence o verso que falta em cada poema
em ti – só em ti – vi como o silêncio se apodera do sonho

18 de janeiro de 2007

poema com manet


13-1
deixado cá por danielsg.
agora que me cresceram as mãos e são elas a ternura
o frágil movimento de cor sobre um círculo de afectos

agora que a pele se dissolveu como uma voz à chuva
suspendendo na respiração as margens do firmamento

agora que a casa se musicou de um segredo inflamável
em cada imagem perfumada na doce seda das violetas
com a manhã crescendo no tear límpido de cada janela

toda esta maré desviada toda esta erosão desatenta
me parece agora tão nítida tão concreta tão pacífica
como se os gestos se adentrassem seguros no chão
escutando aquilo que achavam ser o pulso do tempo

agora que as palavras têm um carinho um rosto sereno
como os pássaros têm asas para um coração tão leve

acendo a pulsação transparente das pequenas coisas
e procuro o sonho a menina dos olhos do pensamento

15 de janeiro de 2007

verso(s) com foto de manuela vaz


manuela vaz
deixado cá por danielsg.

todos os dias se dilui velozmente a madrugada
será assim tão escassa a luz nas nossas vidas?

5 de janeiro de 2007

poema de amor com instante de bresson


bresson
partilhado por danielsg.


tenho um poema de amor declinado nos meus olhos
como uma transparência que emerge deste silêncio

um poema de amor que fala das coisas mais pequenas
as coisas que esperam que lhes doemos a nossa boca

estou à espera que repares na forma como te escuto
ou como te toco ou como te sinto rente aos sentidos
ou como me movo entre a tua luz entre as tuas mãos

estou à espera que encontres o coração deste poema
e sintas nele a perfumada vereda dos nossos afectos
a casa com as suas janelas alinhadas com os gerânios
e toda a delicadeza de um sonho acordado como a cal

porque eu sei que temos um lugar onde o anoitecer
é outra forma de recolher uma folha pacífica ao tempo

porque és tu quem me pega no olhar ao amanhecer
e me recolhe as primeiras palavras o primeiro poema