o granito guarda o tempo
dentro do seu coração
bordando tão docemente
as heras da vida
como nós:
num olhar atento
a um detalhe de pedra
22 de maio de 2006
18 de maio de 2006
dupla fechadura
sou eu essa porta que se atravessa entre nós
entre duas casas que ainda há pouco
comunicavam pela mesma sala
sou eu essa fechadura que parou para pensar
se abre ou fecha a boca das palavras
se ata ou desata a chave do coração
sou eu esse movimento que oscila no vazio do silêncio
nem rangendo sequer o tempo preso às dobradiças
de todos os gestos que já tecemos juntos
entre duas casas que ainda há pouco
comunicavam pela mesma sala
sou eu essa fechadura que parou para pensar
se abre ou fecha a boca das palavras
se ata ou desata a chave do coração
sou eu esse movimento que oscila no vazio do silêncio
nem rangendo sequer o tempo preso às dobradiças
de todos os gestos que já tecemos juntos
17 de maio de 2006
água mínima
uma água mínima
nascente
refulgente das primeiras palavras
da manhã
sobre a pele mais delicada
da natureza:
o orvalho (palavra demasiado pesada
para essa delicadeza)
nascente
refulgente das primeiras palavras
da manhã
sobre a pele mais delicada
da natureza:
o orvalho (palavra demasiado pesada
para essa delicadeza)
16 de maio de 2006
15 de maio de 2006
4 de maio de 2006
24 de abril de 2006
23 de abril de 2006
a fé das sombras
na sombra que toca todas as coisas
deste mundo
haverá a orla intocável de deus
anunciando a presença
do infinito
a eternidade devolvida aos homens
ou a fé entrecortada
na oração do tempo
deste mundo
haverá a orla intocável de deus
anunciando a presença
do infinito
a eternidade devolvida aos homens
ou a fé entrecortada
na oração do tempo
luz divina (altar em bravães)
e deus pode não ser mais que isto:
a luz da manhã
cortando a rosácea do tempo
e manchando de paz
o linho do altar
a luz da manhã
cortando a rosácea do tempo
e manchando de paz
o linho do altar
para beber um carinho
dou-nos este momento
para saciarmos a nossa sede
pelas nossas mãos tomaremos
o rosto da fonte
e nesse instante o carinho
que desconhecíamos
há-de entrar em nossas bocas
para a norma e para o nélson
para saciarmos a nossa sede
pelas nossas mãos tomaremos
o rosto da fonte
e nesse instante o carinho
que desconhecíamos
há-de entrar em nossas bocas
para a norma e para o nélson
transparência do tempo
o olhar do tempo
é composto de transparências
tecidos que se sobrepõem
ao nada que somos
é composto de transparências
tecidos que se sobrepõem
ao nada que somos
escrita
um poema que eu rasgasse
na pele do tempo
inscrito nos poros
da pedra que nos vigia
o envelhecer das mãos
na pele do tempo
inscrito nos poros
da pedra que nos vigia
o envelhecer das mãos
luz oscilante (mosteiro de bravães)
se alma é etérea
há-de oscilar
na contradança da luz
no interior do coração do silêncio
como uma lamparina
de sonhos
soprando a forma das asas
dos anjos que virão
mostrar o rosto de deus
há-de oscilar
na contradança da luz
no interior do coração do silêncio
como uma lamparina
de sonhos
soprando a forma das asas
dos anjos que virão
mostrar o rosto de deus
16 de abril de 2006
gato que dorme na rua
o gato estende-se no seu banco
vendo a tarde girar sobre si
tudo lhe passa tão levemente
que nem uma palavra
rasgada de uma pedra
o assusta
é por isso que é feliz e há poetas
que falam disso
vendo a tarde girar sobre si
tudo lhe passa tão levemente
que nem uma palavra
rasgada de uma pedra
o assusta
é por isso que é feliz e há poetas
que falam disso
viola esperando
sou como a viola da terra
na oficina do violeiro
esperando a sua vez
para ganhar asas
e soprar música de dentro de mim
preciso das tuas mãos
na oficina do violeiro
esperando a sua vez
para ganhar asas
e soprar música de dentro de mim
preciso das tuas mãos
6 de abril de 2006
reflexágua
na água a minha estrela
parece a mão
com a alma resplandecente da poesia
acenando ao silêncio
parece a mão
com a alma resplandecente da poesia
acenando ao silêncio
5 de abril de 2006
reflexo
o céu entrou-me dentro de casa
deixando no vidro o seu rosto
onde repousa agora a minha viagem
deixando no vidro o seu rosto
onde repousa agora a minha viagem
30 de março de 2006
atravesso contigo a imensidão incandescente da tarde
o itinerário oscilante dos pássaros em seu silvo branco
na torrente da sombra sentimos a infelicidade do silêncio
a pele encarcerada das pedras a resistência do tempo
transcorremos as searas até à desmesura da infância
recolhemos a eternidade uma colina para atar a paz
as palavras submersas na cintilação do esquecimento
no teu rosto o vago rumor da tristeza inicia uma flor
um canal pacífico para a delicadeza do firmamento
como se as asas do inverno perdessem a corrente
e houvesse uma hora para chamar de novo o amor
podemos purificar a errância da sede a cor do olhar
trazer uma sílaba de luz à coleante brevidade da vida
e só temos que nos abraçar deixar o coração morrer
para escutarmos a primeiríssima constelação da noite
um poema de "o afecto das palavras"
o itinerário oscilante dos pássaros em seu silvo branco
na torrente da sombra sentimos a infelicidade do silêncio
a pele encarcerada das pedras a resistência do tempo
transcorremos as searas até à desmesura da infância
recolhemos a eternidade uma colina para atar a paz
as palavras submersas na cintilação do esquecimento
no teu rosto o vago rumor da tristeza inicia uma flor
um canal pacífico para a delicadeza do firmamento
como se as asas do inverno perdessem a corrente
e houvesse uma hora para chamar de novo o amor
podemos purificar a errância da sede a cor do olhar
trazer uma sílaba de luz à coleante brevidade da vida
e só temos que nos abraçar deixar o coração morrer
para escutarmos a primeiríssima constelação da noite
um poema de "o afecto das palavras"
26 de março de 2006
22 de março de 2006
DEDICADO AOS VISITANTES DESTE VERSÁRIO
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade, para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com os teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade, para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com os teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.
Sophia de Mello Breyner Andresen
21 de março de 2006
17 de março de 2006
título sem título
une-me ao teu sonho vertical
prende-me às palavras
com que respiras a altura do dia
deixa-me ficar rente às tuas asas
enquanto esperas por mim
prende-me às palavras
com que respiras a altura do dia
deixa-me ficar rente às tuas asas
enquanto esperas por mim
14 de março de 2006
sonho com chuva
a noite começa com o rasto do dia
preso ao cansaço
que ainda não chegou a casa
(chove lentamente como as primeiras
formas do sonho)
mais adiante a escuridão será confortável
sob os lençóis invioláveis do descanso
preso ao cansaço
que ainda não chegou a casa
(chove lentamente como as primeiras
formas do sonho)
mais adiante a escuridão será confortável
sob os lençóis invioláveis do descanso
10 de março de 2006
8 de março de 2006
chaminé como boca
a chaminé como uma boca
entre as faias
respira a manhã
para dentro das nossas primeiríssimas
palavras
entre as faias
respira a manhã
para dentro das nossas primeiríssimas
palavras
6 de março de 2006
ao anoitecer
vê-se o nome da ilha
na luz que
procura o outro lado do horizonte
na fragilidade
do tempo
que escorre com
o silêncio do nosso caminho
nesse instante
em que o mundo
parece somente o
lugar donde nos vemos
sem sombra que
nos prolongue
nem voz que nos
ecoe
ao anoitecer
vê-se o nome da ilha
é esse o
mistério que deixamos para mais tarde dissolver
não um nome como
uma concreta pedra
pesando o seu
significado
mas uma flor a
quem não importa a palavra
por ter na sua
ideia a mais alta cor do mundo
por conter a
doçura intacta da pureza
ao anoitecer
vê-se o nome da ilha
e é um contorno
breve de uma ternura que nos espera
tão perto tão
acessível tão formosa
como a manhã que
se seguirá
para nos lembrar
que o nosso corpo pesa
porque deixamos a
tristeza ocupar o seu espaço
e prolongamos
dentro de nós o ruído do cansaço
ao anoitecer vê-se o nome da ilha
reparemos
está lá como um coração
pulsando o primeiro beijo
vê-se o nome da ilha
na luz que
procura o outro lado do horizonte
na fragilidade
do tempo
que escorre com
o silêncio do nosso caminho
nesse instante
em que o mundo
parece somente o
lugar donde nos vemos
sem sombra que
nos prolongue
nem voz que nos
ecoe
ao anoitecer
vê-se o nome da ilha
é esse o
mistério que deixamos para mais tarde dissolver
não um nome como
uma concreta pedra
pesando o seu
significado
mas uma flor a
quem não importa a palavra
por ter na sua
ideia a mais alta cor do mundo
por conter a
doçura intacta da pureza
ao anoitecer
vê-se o nome da ilha
e é um contorno
breve de uma ternura que nos espera
tão perto tão
acessível tão formosa
como a manhã que
se seguirá
para nos lembrar
que o nosso corpo pesa
porque deixamos a
tristeza ocupar o seu espaço
e prolongamos
dentro de nós o ruído do cansaço
ao anoitecer vê-se o nome da ilha
reparemos
está lá como um coração
pulsando o primeiro beijo
5 de março de 2006
1 de março de 2006
neve na peneda
ao longe a neve
ao perto esse frio
quase transparente
e assim se faz
uma viagem à infância
soletrada em cada passo
deste dia
ao perto esse frio
quase transparente
e assim se faz
uma viagem à infância
soletrada em cada passo
deste dia
21 de fevereiro de 2006
sobre a amizade
a amizade é este vazio
a água que não cabe na mão
o silêncio que habita o fim da tarde
a amizade é este peso no coração
o sorriso do tamanho do mundo
que carregamos sempre connosco
para vós: queridas e queridos alunos ca CCIPDVP neste dia de despedida
a água que não cabe na mão
o silêncio que habita o fim da tarde
a amizade é este peso no coração
o sorriso do tamanho do mundo
que carregamos sempre connosco
para vós: queridas e queridos alunos ca CCIPDVP neste dia de despedida
19 de fevereiro de 2006
detalhes do tempo
a cal desgastou-se
com a pressa do tempo
e deixou as formas
da espera
a saudade como o espírito de uma hera
impossivelmente transparente
com a pressa do tempo
e deixou as formas
da espera
a saudade como o espírito de uma hera
impossivelmente transparente
17 de fevereiro de 2006

estás tão perto
que caminhas sobre mim
estás tão perto
que a música cresce entre os meus dedos
estás tão rente à minha respiração
que abres a concha dos meus sonhos
estás tão perto
que já nem ouço o meu coração
tão perto tão perto
que acordas dentro do meu olhar
estás tão rente a este dizer
que és a pele cobrindo as palavras
tão rente tão rente
que nunca mais te posso perder
estás tão perto tão rente
que quase vivo dentro de ti
15 de fevereiro de 2006
14 de fevereiro de 2006
lenço de namorados
o amor como um gesto mínimo
perdido na respiração
da vida
o amor como um corpo
que se move entre as teias da eternidade
procurando um lugar
para adoçar a felicidade
perdido na respiração
da vida
o amor como um corpo
que se move entre as teias da eternidade
procurando um lugar
para adoçar a felicidade
gira gira sol
Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a namorada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde – são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante... a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas...
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.
Vinicius de Moraes
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a namorada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde – são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante... a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas...
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.
Vinicius de Moraes
borboletazul
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
10 de fevereiro de 2006
6 de fevereiro de 2006
raindrops from heaven
a chuva cai em mim
e soa como uma carícia
perdida no tempo
sei que me adora o rosto
como uma mão um dia
me moldou esta boca
e soa como uma carícia
perdida no tempo
sei que me adora o rosto
como uma mão um dia
me moldou esta boca
movimentos perpétuos
vais ver
que a chuva traz
movimentos perpétuos
no coração da viagem
a eternidade do tempo que se repete
inverno após inverno
para o vermos
atentamente
com uma chavená de chá
que a chuva traz
movimentos perpétuos
no coração da viagem
a eternidade do tempo que se repete
inverno após inverno
para o vermos
atentamente
com uma chavená de chá
3 de fevereiro de 2006
outra vez (os detalhes)
outra vez os detalhes
escapando entre os dedos
como gotas de chuva
um olhar atado à tristeza
tecendo a palavra
com que chora
escapando entre os dedos
como gotas de chuva
um olhar atado à tristeza
tecendo a palavra
com que chora
2 de fevereiro de 2006
milhafre na chaminé
um milhafre na chaminé:
a perfeita serenidade
do fim da tarde
com o silêncio da paz
acompanhando
o cansaço a casa
a perfeita serenidade
do fim da tarde
com o silêncio da paz
acompanhando
o cansaço a casa
porta de entrada
na casa da malbusca
há um lugar à mesa
da amizade
na casa da malbusca
as portas são o abraço
que se estende
e as janelas
o olhar que espera
atentamente
pelo amigo
há um lugar à mesa
da amizade
na casa da malbusca
as portas são o abraço
que se estende
e as janelas
o olhar que espera
atentamente
pelo amigo
flor sem nome (ainda)
esta flor não tem nome
não sei como chamá-la
agora que saiu do seu coração
enovelado de orvalho
não sei como chamá-la
agora que saiu do seu coração
enovelado de orvalho
PEACH TREE (do Rufus Wainwright)
Is true love a trip to Chinatown
Or being held in one's opium gaze
Under the peach trees
There I'll sit and wait
Is true love a long walk through Bryant park
Or being held in the month of May
under the peach trees
There I will be, will be until you come and get me
Cause I'm so tired of waiting in restaurants
reading the critics and comics alone
With a waiter with a face made for currency
Like a coin in ancient Rome
And I really do wish you were here next to me
cause I'm going to see James Dean
There I will be
Under the peach trees with him
- foi só para partilhar
uma música que me faz
;(
Or being held in one's opium gaze
Under the peach trees
There I'll sit and wait
Is true love a long walk through Bryant park
Or being held in the month of May
under the peach trees
There I will be, will be until you come and get me
Cause I'm so tired of waiting in restaurants
reading the critics and comics alone
With a waiter with a face made for currency
Like a coin in ancient Rome
And I really do wish you were here next to me
cause I'm going to see James Dean
There I will be
Under the peach trees with him
- foi só para partilhar
uma música que me faz
;(
sebastião
au au
au au au
au au au au
au
au
au
(isto foi o que ele me disse
quando lhe apareci com a vassoura na mão:
eram três da manhã
e ninguém dormia na aldeia)
au au au
au au au au
au
au
au
(isto foi o que ele me disse
quando lhe apareci com a vassoura na mão:
eram três da manhã
e ninguém dormia na aldeia)
praia ao amanhecer
é aqui que me sento
a ver crescer a manhã
à espera
(sempre à espera)
que chegue a primavera
a ver crescer a manhã
à espera
(sempre à espera)
que chegue a primavera
issa kobayashi para a ariana
Em vão o menino tentava
Segurar uma gota de orvalho
Entre o polegar e o indicador
[é (digo eu) como tentarmos segurar a memória da nossa infância
é bem mais fácil
abraçarmos os amigos desse tempo
perdidos ou achados
na velocidade dos dias]
Segurar uma gota de orvalho
Entre o polegar e o indicador
[é (digo eu) como tentarmos segurar a memória da nossa infância
é bem mais fácil
abraçarmos os amigos desse tempo
perdidos ou achados
na velocidade dos dias]
rosas para a norma
rosas para ti
como as que ricardo reis
contemplava
com a fina tristeza (escondida)
de saber que o tempo passa
e nada fica igual
rosas para ti
como um pensamento feliz
ou um abraço
que entre a distância e o não saber-te o rosto
é o mínimo carinho
que sobrevive
a este inverno
como as que ricardo reis
contemplava
com a fina tristeza (escondida)
de saber que o tempo passa
e nada fica igual
rosas para ti
como um pensamento feliz
ou um abraço
que entre a distância e o não saber-te o rosto
é o mínimo carinho
que sobrevive
a este inverno
sunflowers by van gogh
há dias que não se esquecem
como coisas belas
que se prendem
ao tear da eternidade
dando-nos a fina seda
da ternura
no profundo silêncio
dos dias
(parabéns)
como coisas belas
que se prendem
ao tear da eternidade
dando-nos a fina seda
da ternura
no profundo silêncio
dos dias
(parabéns)
1 de fevereiro de 2006
no pormenor está o rosto da intimidade
olha os pormenores das coisas
a intimidade à flor da pele
das coisas
as que amamos ou as que guardamos
junto do coração
como pequenos entes enamorados
de ternura
pequenos entes que nos falam
da respiração que dedicamos
a cada gesto
no pormenor está o rosto da intimidade
a porta aberta para a voz
do silêncio
o poema que sabemos ser o nome
da nossa alma
(versos com imagem de joão ribeiro)
a intimidade à flor da pele
das coisas
as que amamos ou as que guardamos
junto do coração
como pequenos entes enamorados
de ternura
pequenos entes que nos falam
da respiração que dedicamos
a cada gesto
no pormenor está o rosto da intimidade
a porta aberta para a voz
do silêncio
o poema que sabemos ser o nome
da nossa alma
(versos com imagem de joão ribeiro)
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