24 de setembro de 2009



DO POEMÁRIO DO POEMÁRIO...

Partilho convosco a construção deste poema, momento a momento, até ser alguma coisa, próxima daquilo que foi o seu sonho.


DIA UM:



o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor

saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão

inútil como uma palavra à roda de um poema que não se iluminou


o vestido que trazes já não é teu há tanto tempo que o seu pretérito

é mais perfeito que a primeira vez que deixaste de ser transparente



DIA DOIS:



o vestido que trazes está gasto como o nome que deste ao amor

saqueado como o chão da seara depois da fermentação do verão

inútil como uma palavra à roda de um poema que não se iluminou


o vestido que trazes arruinou a sua bainha e desfiou-se a chorar

parece um jornal amarrotado uma película translúcida de silêncio

deixando ver as feridas nos joelhos o coração resistindo ao vento


passou de moda porque deixaste de te despir com a luz acesa

e o espelho já não alcança a parede onde havia um outro retrato